Inspirados

REMINISCÊNCIA

Por Tânia Mara

Eu não sei onde ficou, talvez em algum canto ou caixa empoeirada.
São tantos os dias… e naquele tempo, o tempo era bem diferente.
O natal, nossa, como demorava, demorava mesmo um ano inteiro.
Os sonhos eram outros, até os da padaria.
Até a padaria era outra.
Lembro, interessantemente, das idas pra buscar o pão (chamava-se bengala),
disso só lembro que o trazia inteiro enfiado no braço,
eu comia todo o miolo durante o percurso, e como não ia?!
Além de gostar de miolo, pegava quentinho, sem chance de chegar inteiro!
Espero até que meus pais gostassem mesmo só da casca, caso contrário, eis mais uma demonstração de abnegação.
Lembro de tanta coisa, será que era mesmo pra lembrar?
Outras deixei em um compartimento secreto e joguei a chave fora, que fiquem por lá!
Lembro do gosto da jujuba de limão, um saquinho que tinha um suco e a gente espetava um canudinho,
puxa como era bom… (a bala de caramelo, o zorro, doce de abóbora em formato de coração…)
Talvez hoje, com o paladar de agora, achasse tudo horrível, ah! Mas, tudo era diferente.
Tudo era festa, até a joaninha na folhinha era motivo pra divagação.
Tudo era potencializado, tudo era “nunca mais”, “pra sempre”, o mundo acabava e começava numa facilidade.
Lembro dos galhos da mangueira.
Ah! A mangueira…
Para fugir da minha avó, que me estimulou ao esporte, pena que não entendi (risos),
salto de obstáculos, escaladas, camuflagem (bem, esse não é esporte),
eu sumia entre os galhos e folhas do alto da mangueira, talvez, se naquela época eu colecionasse uns quilinhos a mais… eu tivesse que ter aprendido a voar, era alto.
Bem, pelo menos eu achava…
E que viagens eu fazia, nossa…
Não tinha a menor ideia do mundo, das pessoas, da vida.
Apesar que ainda hoje não sei ao certo quanto sei. Bem…
O quanto será que restou em mim daquela menina dos cabelos extremamente lisos, escuros, de tantos sonhos?
Acho que nem sei quais eram, se realizei algum…
O quanto guardo em mim de mim mesma?
Acho que andei esquecendo partes de mim pelo caminho.
As lembranças, não perdi, algumas ainda estão em alguma caixa empoeirada por aí…

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