“Piá curitibano”

A distância eu observava o menino, um piazito desses que andam pela cidade. O cabelo loiro, sujo, era da mesma cor da pele e reprisava o tom das roupas, tornando o menino ainda mais invisível. Sentado à sombra do Cavalo Babão, o piá retirara do bolso uma enorme caixa de fósforos. Fui me aproximando. De lá ele retirou um besouro feio – e chega a expressão a ser pleonástica, posto que nunca vi besouro bonito. Tirou o besouro, passou-lhe o indicador e o médio pela casca escura e depois lhe deu um beijo na cabeça. E me perdoem os biólogos, pois é provável que cabeça de besouro tenha nome técnico o qual amplamente desconheço. Pois o menino beijou a cabeça do besouro e voltou a lhe agradar a casca grossa e a fechar a caixa de fósforos, tomando especial cuidado de deixar uma fresta para a respiração do bichinho. Aproximei-me ainda mais e como de costume fui fazer minhas perguntas, pois não existe método melhor para se conhecer uma pessoa.
- Que besouro bonito, piá! Qual o nome dele?
Embora assustado, o guri aderiu à prosa:
- O nome dele é cascudo!
Ri e o piá quis saber o porquê.
- Você arranjou o nome perfeito pra ele: cascudo! Se ele é cascudo, melhor nome não poderia se arranjar né?
O piá riu como se concordasse com o acerto. Eu prossegui:
- Ter um besouro de estimação dentro de uma caixa de fósforos é como ter um cachorrinho que cabe dentro do bolso né?
O piá olhou pra mim, depois olhou pro topo da Igreja, depois abriu a caixinha, passou os dedos na casca grossa do besouro, fechou a caixinha deixando a fresta salvadora e sentenciou:
- É melhor! Ele não late, não foge, não come e ainda brinca comigo!
E pra demonstrar a sua tese, abriu de uma vez a caixa de fósforos, botou o besouro no peti-pavê do Largo, deu-lhe um peteleco no traseiro e sorriu pra mim vendo o bicho caminhando.
- Viu? Ele adora passear nessas pedras pretas e brancas, mas nunca foge.
Intrigado eu quis saber:
- Por que você tem medo que ele fuja? Ele anda devagarinho, ele nunca vai fugir de você, piá!
Aí o menino olhou pra mim e ficou sério.
- É que cachorro foge se a gente não dá comida né? Eu tinha o peludo, mas ele fugiu. Sorte que o cascudo come formiga e formiga sempre tem nessas pedras, acho que por isso que ele gosta de passear nas pedras.
E botou de novo o besouro dentro da caixa de fósforos, deixando a fresta exata pra ele respirar, e não fugir. E desceu aparentemente feliz a Doutor Muricy, levando no bolso um besouro que faz as vezes de cachorro, como a gente leva na memória grandes lembranças dessa vida – que talvez nem sejam assim tão belas – mas que fazem a gente seguir aparentemente feliz pelas ruas de Curitiba.







