“Uma borboleta para a Patinha”

Hoje ela advoga, mas em 2006 foi minha aluna, na antiga 5ª Série. Era egressa da Escola Ecológica – onde crianças, coelhos, gatos, tartarugas, cachorros, horta, livros, flores e professores conviviam numa espécie de paraíso, no alto do Campo Comprido.
Chamava-se Jéssica. O apelido Patinha foi obra minha. Ela usava aparelho ortodôntico e quando lia a coisa saía assim: “O Bragil é um paíx de dimenxões continentaix!”. Ela achou o apelido um barato e contou pra todo mundo, porque ela percebeu o carinho que havia.
Certo dia o sinal tocou e a Jéssica não quis sair para o recreio. “Que acontece, Patinha?”. Ela entregou a angústia: “Eu gostava da minha outra escola. Lá tinha coelho, horta, cachorro, gato, tartaruga e aqui não tem nada disso!”. Saiu chorosa e cabisbaixa para o pátio.
Recreio para mim era o tempo de pegar um café na sala dos professores e ir fumar no estacionamento, pra relaxar, no puro silêncio de quem enfim tem 15 minutos de liberdade, sob o sol, para pensar em tudo ou em nada. Naquela manhã eu estava pensando na tristeza da Patinha.
Sair de um lugar mágico e ir pra uma escola convencional, sem a fauna e a flora riquíssimas de outrora, era um duro golpe no coração de pétalas da menininha que vivia seus dias de saudades e prantos, pois quando falou comigo os olhos pretos boiavam na grossa camada de lágrimas, que depois virou cascata.
E eu lá no estacionamento fumando o meu marlborinho e pensando na tristeza da Patinha, até que se deu o imponderável: uma gigantesca borboleta azul pousada sobre uma telha jogada no gramado. Resolvi pegar a borboleta e levar pra Patinha. E foi exatamente o que fiz.
Pé ante pé, saí do estacionamento e voltei ao pátio da escola, com cuidado para que a borboleta não voasse antes de chegar às mãos da Patinha. Aproximei-me da Jéssica e lhe entreguei a borboleta: “Olha aí, Patinha, acho que ela voou da Escola Ecológica até aqui porque estava com saudades de você!”.
Os olhos pretos da menina boiaram de novo na grossa camada de lágrimas, que virou cascata, mas depois ela sorriu. A borboleta passou pelas mãos de todas as menininhas daquela 5ª Série de 2006, depois voou e venceu os muros da escola. O sinal tocou e a vida seguiu.
É capaz de amanhã, a Jéssica, ao redigir um recurso, olhar um instante pela janela do escritório e se deparar com uma gigantesca borboleta azul. Daí vai sorrir e confidenciar pro colega que ela estudara primeiro numa escola onde havia coelhos, gatos, cachorros, hortas, livros, flores e professores, depois noutra em que não havia bichos, mas o Professor de Português, um dia, fez surgir uma borboleta azul, como um mágico faz surgir uma pomba de dentro da cartola.
Uma borboleta para a Patinha!








