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Franca vive dilema entre segurança e humanidade; número de moradores de rua ultrapassa os 500 e preocupa

Franca vive uma situação muito delicada que coloca em xeque sua segurança, organização e humanidade. Em 2016, em um cenário pré-pandêmico, a cidade registrava 255 moradores em situação de rua. Hoje, depois de dois anos de crise econômica, esse número ultrapassa as 500 pessoas morando nas ruas da cidade.

Espalhados por diferentes pontos de Franca, instalados em barracas improvisadas ou simplesmente dormindo em colchões a céu aberto, a presença mais volumosa da população em situação de rua desperta compaixão diante da precariedade em que vivem. Por outro lado não é uma novidade que essa população gera um desconforto e reclamações por parte de quem vive ou circula nas proximidades de onde eles se instalam.

Assim, diante de um problema social tão delicado, os cidadãos se dividem entre os que se solidarizam com os moradores em situação de rua e que realizam inclusive ações para ajudá-los com alimentos e roupas, e, por outro, muitos francanos em alerta, porque a sensação de insegurança aumenta em locais onde há concentração da população em situação de rua.

Infelizmente, dados da Secretaria de Segurança Pública mostram que o número de furtos e roubos se multiplica mês a mês nessas áreas. Na Estação, por exemplo, nas proximidades da Mogiana, foram registrados 59 furtos e 4 roubos ao longo de 2021. Somente em janeiro de 2022 o número de furtos já chega a 49 e o de roubos já somam 7, ou seja, em um mês, a violência se multiplicou e atingiu números antes registrados ao longo de um ano inteiro.

A reportagem conversou com comerciantes e população que mora nas redondezas e a maioria relaciona esse aumento de números com o aumento dos moradores em situação de rua.

Além da insegurança, esses moradores e comerciantes se queixam de outra situação. “O bairro ficou feio, sujo, com cara de abandono. Perto da Mogiana, que deveria ser um ponto turístico, está cheio de colchões velhos espalhados, lixo e mau-cheiro”, disse um morador que pediu para não ser identificado.
Por conta da situação tensa que essas circunstâncias criam, os moradores em situação de rua também demonstram medo. Muito poucos se dispuseram a falar com a reportagem. Disseram que são hostilizados pela população e preferem não aparecer.

Embaixo do Viaduto Dona Quita a situação é parecida. Foi lá que a reportagem conversou com Vinicius da Silva, 26 anos, e morador do local. Ele mora ali com mais 7 pessoas, a quem ele se refere como “família”. Vinícius não é uma vítima da pandemia ou de dificuldades recentes, como vários que estão na rua. Ele é viciado em drogas e está nessa situação há muitos anos. “Cheguei em Franca aos 12 anos de idade, vindo do Paraná junto com minha mãe e meus irmãos. O que me trouxe as ruas foi meu vício em “videogame””, disse ele, usando uma gíria para se referir à dependência química. “Minha vida era isso. Saia com meus amigos e era só droga e droga e não queria saber de mais nada”. Com isso, suas referências e seus laços familiares foram se perdendo. “A pessoa que eu mais sinto falta no mundo é a minha mãe, não sei mais onde ela tá”, disse ele. “Meus irmãos vejo de vez em quando por aí, mas não conversamos muito”, disse.

Vinícius também disse que o que ele mais deseja é uma oportunidade para trabalhar, uma vez que não espera nada do poder público. “Já me abordaram, fizeram promessas de vida melhor, mas nada virou realidade”, lamenta.

Em meio a sua difícil realidade enfrentada por Vinícius e tantos outros, a reportagem registrou um momento sublime. Vinícius divide o pouco que tem com dois filhotes de cachorro que alguém abandonou na caçamba perto de onde ele mora. “Se tornaram meus companheiros”.

Da mesma maneira que a maioria dos moradores em situação de rua, Vinícius, embora tenha concordado em se identificar, não autorizou nenhuma imagem pessoal. Apenas a das instalações onde mora com a família improvisada. “Muita gente gosta de vir aqui filmar, de tirar fotos, mas depois aparecem pedindo para tirarmos nossas barracas, chamando de lixo”, disse ele, em tom exaltado, colocando um fim na entrevista.

Histórias como as de Vinicius talvez sejam as mais comuns dentre os moradores de rua, o vício em drogas que leva ao rompimento com a família, com o emprego, chega ao ostracismo e ao abandono. Durante a pandemia, essa situação se agravou. É considerável o número de pessoas que perderam o emprego e passaram a pedir esmolas, procurar abrigos e, até, dormir na rua. No Centro Pop há muitos personagens desse tipo de história.

Questionada a respeito das medidas tomadas para atenuar esse problema, a Prefeitura elencou o que tem procurado fazer, mas, claramente, as ações se mostram insuficientes.
Em 2021, segundo informações da assessoria de imprensa da Prefeitura, foram abertas 48 vagas de abrigo, 40 vagas na Casa da Passagem, 120 pessoas/dia no Cento Pop (para que pessoas pudessem voltar para suas cidades), 40 vagas de acolhimento noturno, 40 vagas no programa Moradia Primeiro (que oferece auxílio econômico para pessoas em vulnerabilidade pagarem seus alugueis) e também abordagem Social diária.

Para 2022, os planos são de ampliar novamente as vagas de acolhimento e o trabalho de abordagem social. “O que tem sido feito é muito pouco. Precisa de uma ação efetiva para ajudar essas pessoas e a reduzir o número de gente morando na rua. O número já é grande, mas se nada for feito de maneira rápida e que traga resultados, em breve, o problema fica incontornável”, disse um comerciante da região da Estação que pediu para ter o nome preservado.

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