Opiniões

Abaixo os Tabus

Eu vi um documentário na TV no primeiro dia do ano de 2022, sobre o aquecimento global e suas graves implicações para a vida na Terra. E fiquei espantado ao ouvir cientistas tocando em assuntos como o consumismo exagerado das classes mais abastadas e falando das consequências da superpopulação de humanos na Terra, assuntos que são verdadeiros tabus. Ou seja, assuntos sobre os quais não são admitidas discussões. O problema do consumismo exagerado é mais ou menos tabu porque o capitalismo se tornou algo sagrado e, em relação a ele, só se admite o crescimento. No sistema capitalista a produção tem de crescer a qualquer custo. Não se fala em limite, em estabilidade. A estabilidade existe quando há crescimento contínuo. Consumir, portanto, é o seu mantra. Mas não se toca na questão de que a Terra tem limites para crescimentos, porque o capital financia a ciência!

Quanto ao crescimento da população, é tabu antigo por razões religiosas, porque não há qualquer estudo científico que diga que se houver certa estabilidade na população haverá risco de extinção da espécie. E parece haver também certo descaso com a própria liberdade da mulher de escolher sobre essa questão: a maternidade. Parece haver pouco interesse político, porque as mulheres são minoria nos cargos de maior relevância. E não há dúvidas de que há interferência religiosa nos meios políticos, inclusive no momento atual do Brasil. Mas, se pelo menos elas pudessem escolher e tivessem meios de decidir ter ou não um filho, certamente boa parte do grave problema de crianças em situação de miséria seria resolvida.

E por que as coisas são assim?
Infelizmente porque o destino da humanidade é definido segundo interesses menores daqueles que a conduzem. Há exceções, felizmente. Mas, tomando por exemplo o Brasil, que nas últimas décadas vem elegendo presidentes, governadores, prefeitos e legisladores sem as qualificações necessárias para cuidar dos interesses maiores da população, as consequências são visíveis. O País produz alimentos muito além das necessidades da população, mas a fome nas populações mais pobres só aumenta. A pandemia é mera desculpa, porque não diminuiu a produção de grãos e carnes que o País exporta. E enquanto a massa de pessoas passando fome aumenta, os nossos legisladores passaram o último mês do ano discutindo o orçamento, não para melhorar as condições da população, mas para separar bilhões de Reais (nos três níveis: federal, estadual e municipal) para gastarem nas suas campanhas eleitorais deste ano.

Portanto, precisamos acabar com os tabus de que é chato ou que não adianta discutir política, porque isso facilita que nossos governantes façam o que bem entendem. Precisamos acabar com o tabu de que é proibido discutir religião, porque elas muitas vezes turvam o raciocínio claro sobre os problemas da humanidade. E que não se discute desigualdades porque é chatice de gente da esquerda, ou porque ela decorre do fraco desempenho da economia.
Que em 2022 tenhamos coragem de discutir os assuntos que nos dizem respeito, em todas as instâncias, inclusive na planetária, porque no Brasil é ano de eleições.
Viva a liberdade, abaixo os tabus!

Dr. José Borges

Advogado (Formado em Direito pela Faculdade de Direito de Franca); especialista em Direito Civil e Direito Processual Civil e em Direito Ambiental. Foi Procurador do Estado de São Paulo de 1989 a 2016 e Secretário de Negócios Jurídicos do Município de Franca. É membro da Academia Francana de Letras.

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