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Ex-sócios de Vorcaro e familiares doam R$ 2,68 milhões a candidatos em Minas Gerais

OITO DOADORES, entre empresários que dividiram negócios com Daniel Vorcaro e familiares deles, destinaram ao menos R$ 2,68 milhões a campanhas eleitorais deste ano. Os vínculos passam pela mineradora Itaminas e pela SAF (Sociedade Anônima do Futebol) do Atlético-MG.

Os recursos chegaram diretamente a 12 candidaturas de oito partidos, além dos diretórios mineiros do PSD e do União Brasil, segundo cruzamento feito pela Repórter Brasil entre informações da Receita Federal e dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) consultados até 30 de setembro. Não há indícios de irregularidades nas doações.

Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, está preso preventivamente desde 4 de março. A ordem foi dada pelo STF (Supremo Tribunal Federal), a pedido da Polícia Federal. A Operação Compliance Zero apura fraudes bilionárias no sistema financeiro envolvendo o banco.

Os dois negócios colocaram Vorcaro ao lado de famílias tradicionais do empresariado mineiro, como os Géo e os Gontijo. Na Itaminas, ambas dividem hoje o controle da companhia. 

No caso do Atlético-MG, Rubens Menin, fundador da construtora MRV, e seu filho Rafael, presidente executivo da empresa, passaram a deter 83,5% de participação na SAF que gere o futebol do clube, após um novo aporte neste ano. 

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Como parte dos negócios desses grupos também se organiza em torno de parentes, o levantamento rastreou familiares que apareceram como doadores. 

Dos R$ 2,68 milhões identificados no levantamento, R$ 1,98 milhão foram doados diretamente a candidatos e R$ 700 mil, a diretórios partidários. 

Flávio Roscoe, candidato do PL ao governo de Minas, recebeu a maior soma: R$ 750 mil. Em seguida aparecem Nikolas Ferreira (PL), candidato a deputado federal, com R$ 350 mil, e Gabriel Azevedo (MDB), também candidato ao governo de Minas Gerais, com R$ 300 mil.

Procurada, a assessoria de imprensa da Itaminas informou que a empresa não se posicionaria sobre o assunto.

A reportagem também entrou em contato com o Atlético-MG e com a MRV, pedindo um posicionamento de Rubens Menin e de seus familiares. A assessoria da construtora afirmou que “a companhia não pode comentar decisões de cunho pessoal relacionadas ao processo democrático”. 

O candidato Gabriel Azevedo afirmou que nunca encontrou Daniel Vorcaro nem manteve relação pessoal, política ou profissional com o banqueiro. Disse ainda que é conselheiro da associação Clube Atlético Mineiro, entidade tradicional do clube e juridicamente distinta da SAF, empresa criada para gerir o futebol e seus ativos. 

Azevedo informou que apoiou tanto a destituição de Vorcaro do Conselho de Administração quanto o aporte que diluiu sua participação acionária. Disse ainda que a relação com seus doadores e com Rubens Menin foi construída na convivência no Atlético, e que as contribuições foram manifestações de apoio à sua candidatura, sem participação de Vorcaro. Leia a resposta na íntegra.

A reportagem também procurou os candidatos Flávio Roscoe e Nikolas Ferreira, mas não obteve retorno.

Membros de família sócia da Itaminas doaram R$ 500 mil ao PSD de Minas Gerais

Em julho de 2024, Vorcaro liderou a compra da Itaminas ao lado das famílias Géo e Gontijo. O negócio foi fechado por cerca de US$ 295 milhões. O banqueiro assumiu o controle da companhia. 

Mais tarde, sua participação ficou em 50%, enquanto a 5A Holding, da família Géo, e a AVG, de outra família, passaram a deter 25% cada. Em setembro de 2025, dois meses antes de sua primeira prisão, Vorcaro vendeu sua metade aos demais acionistas por R$ 401 milhões. 

O negócio voltou ao noticiário na segunda-feira (29), quando a Folha de S.Paulo revelou que a Justiça havia tornado indisponíveis os direitos dos atuais sócios sobre as ações da Itaminas, enquanto se discute o valor pago pela fatia de Vorcaro. 

Em novembro do ano passado, a Repórter Brasil mostrou que a Itaminas havia retomado a exploração da Mina da Jangada, em Brumadinho, arrendada da Vale e vizinha à área do Córrego do Feijão, onde o rompimento da barragem matou 272 pessoas em 2019. Moradores temem impactos sobre nascentes usadas para abastecer as casas.

Mina da Jangada, em Brumadinho, forma o mesmo conjunto de lavra com a Mina de Córrego da Feijão, onde o rompimento da barragem da Vale deixou 272 mortos em 2019 (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)
Mina da Jangada, em Brumadinho, forma o mesmo conjunto de lavra com a Mina de Córrego da Feijão, onde o rompimento da barragem da Vale deixou 272 mortos em 2019 (Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil)

Foi o ramo de Argeu de Lima Géo que entrou na Itaminas por meio da 5A Holding. Argeu é o presidente da holding e seu filho Argeu de Lima Géo Filho, o diretor. 

Depois da saída de Vorcaro, a 5A passou a dividir o controle da mineradora com a AVG, da família Gontijo. Nenhum integrante do núcleo Gontijo que controla a AVG aparece como doador direto neste levantamento 

Argeu e seu irmão João de Lima Géo Filho colocaram R$ 250 mil cada no diretório estadual do PSD. O partido lançou à reeleição o atual governador Mateus Simões, que assumiu o cargo em março após a renúncia de Romeu Zema (Novo) para disputar a Presidência.

Procurada, a assessoria de Mateus Simões não respondeu aos questionamentos feitos ao candidato e ao partido.

Atlético-MG reúne outra parte dos doadores

A segunda ponta dessa rede está no Atlético-MG. Vorcaro entrou na SAF por meio do Galo Forte FIP, fundo que reuniu seu investimento no clube. 

Até maio deste ano, Rubens Menin, fundador da MRV, e seu filho Rafael, presidente executivo da construtora, detinham juntos 41,8% da SAF; o Galo Forte, ligado ao investimento de Vorcaro, contava com 20,2%; Ricardo Annes Guimarães, vice-presidente do conselho de administração do Banco BMG e presidente do Conselho Deliberativo do Atlético, 6,3%; o FIGA, fundo de outros investidores, 6,7%; e a associação, 25%. 

Um aporte de R$ 530 milhões liderado pelos Menin mudou essa divisão: pai e filho passaram a controlar 83,5% e a associação ficou com 10%. Galo Forte FIP, Ricardo Guimarães e os demais investidores foram diluídos e passaram a dividir os 6,5% restantes. O Atlético divulga atualmente apenas essa participação conjunta dos acionistas minoritários. 

O núcleo familiar de Rubens Menin responde por outra parcela do dinheiro destinado a campanhas eleitorais em Minas Gerais. Mário Lúcio Pinheiro Menin, primo de Rubens e seu sócio na fundação da MRV, doou R$ 350 mil para Flávio Roscoe. 

Mário Lúcio saiu em 2006 do grupo reorganizado para a abertura de capital da MRV, mas os negócios em comum não terminaram. Os dois continuam, por exemplo, como sócios-administradores da Expar Êxito Participações, empresa ativa do setor de engenharia.

O próprio Rubens Menin destinou R$ 100 mil a duas candidaturas a deputado estadual. O valor doado por Menin nestas eleições fica bem abaixo do montante que ele já colocou em outros pleitos.Em 2024, distribuiu R$ 700 mil em apenas duas campanhas de Belo Horizonte Em 2018, foi o sexto maior doador individual do país, com R$ 2,7 milhões. 

O empresário construiu negócios muito além da construtora e da rádio. É fundador e presidente do conselho de administração da LOG Commercial Properties e também está à frente ou participa de negócios como Banco Inter, CNN Brasil, Urba e Resia, incorporadora que atua nos Estados Unidos. 

Além de ter sido investidor ao lado de Vorcaro na SAF do Atlético-MG, o empresário Rubens Menin é dono da construtora MRV, do banco Inter, da CNN Brasil e da Rádio Itatiaia (Foto: Atlético-MG/Divulgação)
Além de ter sido investidor ao lado de Vorcaro na SAF do Atlético-MG, o empresário Rubens Menin é dono da construtora MRV, do banco Inter, da CNN Brasil e da Rádio Itatiaia (Foto: Atlético-MG/Divulgação)

A esposa de Rubens, Beatriz Nazareth Teixeira de Souza, doou R$ 280 mil: R$ 150 mil para a campanha de reeleição do deputado federal Nikolas Ferreira (PL), R$ 100 mil para Gabriel Azevedo e R$ 30 mil, em 28 de setembro, para Fernanda Altoé (Novo), candidata a deputada estadual. 

A filha do empresário, Maria Fernanda Menin, distribuiu outros R$ 100 mil entre três candidatas a deputada estadual do Novo: R$ 50 mil para Fernanda Altoé, R$ 30 mil para Marcela Trópia e R$ 20 mil para Larissa Dias.

Sérgio Fischer, sobrinho de Rubens e CEO da LOG Commercial Properties, empresa fundada por Menin e presidida por ele no conselho de administração, completa o grupo. 

Fundada em 2008, a empresa atua na construção e administração de condomínios e galpões logísticos e está presente em todas as regiões do país. 

Fischer transferiu R$ 200 mil para Nikolas Ferreira e outros R$ 200 mil para o diretório mineiro do União Brasil. Somando a contribuição de Beatriz, Nikolas recebeu R$ 350 mil de integrantes da família Menin.

Procurado, o União Brasil não se manifestou.

Sócio minoritário da SAF do Atlético-MG, Ricardo Guimarães também presidiu o clube em 2005, ano do rebaixamento para a Série B. Em 2012, foi condenado em primeira instância a sete anos de prisão por gestão fraudulenta numa ação relacionada aos empréstimos feitos pelo BMG ao PT e a empresas de Marcos Valério, no escândalo do “mensalão”. 

A condenação, porém, foi revertida em 2018. O TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região) absolveu Guimarães e os outros dirigentes do banco por entender que não estavam presentes os elementos necessários para caracterizar o crime.

Ricardo Guimarães distribuiu R$ 950 mil entre nove candidaturas nesta eleição. Roscoe recebeu R$ 400 mil e Gabriel Azevedo, candidato do MDB ao governo de Minas, R$ 200 mil. Outras sete candidaturas a deputado estadual receberam R$ 50 mil cada

A Repórter Brasil procurou a assessoria do Atlético-MG e do BMG, pedindo o posicionamento de Guimarães, mas não houve resposta até a publicação desta matéria. 

A presença do entorno de Vorcaro no financiamento eleitoral não começou em 2026. 

Na eleição de 2022, seu cunhado Fabiano Zettel, marido de Natália Vorcaro e empresário que também atuou em negócios ligados ao banqueiro, foi o maior doador individual das campanhas de Jair Bolsonaro (PL) à Presidência e de Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao governo de São Paulo. Zettel entregou R$ 3 milhões a Bolsonaro e R$ 2 milhões a Tarcísio. Também doou R$ 10 mil ao então candidato a deputado federal Lucas Gonzalez, do Novo de Minas.

No mesmo ano, Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel, doou R$ 1 milhão ao diretório estadual do Novo em Minas Gerais. Romeu Zema disputava a reeleição pelo partido naquele ano. Em maio deste ano, ao comentar a doação, o ex-governador afirmou que o recurso foi destinado legalmente ao diretório e que nenhum valor foi usado em sua campanha.

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Notícias de Franca

É jornalista e editor da Folha de Franca

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