Eleições do desencanto
Ainda me lembro dos comícios de 1989. Eu não perdia nunca aquela festa democrática que aguardávamos ansiosamente: poder, finalmente, escolher o presidente do Brasil pelo voto direto.
O quanto lutamos por isso! Quantos tombaram, desistiram, foram presos, torturados, escreveram sobre isso… Mas lá estávamos nós, podendo votar com o coração cheio de esperança. Podíamos escolher um entre os 22 candidatos, em meio a um cenário de forte crise econômica. Mas podíamos escolher aquele de quem gostávamos mais.
O que sinto atualmente é que isso ficou no passado.
Hoje, votamos primeiramente pelo MEDO de que um ou outro vença. E votamos pelo ÓDIO a um lado ou a outro — esse maldito ódio que faz com que pessoas civilizadas se engalfinhem, se digladiem, se ofendam mutuamente.
“Quem eu odeio mais? Voto no outro.”
“Quem não pode vencer de jeito nenhum? Voto no outro.”
E ambos os lados afirmam que, se o outro vencer, será o fim.
Cinquenta por cento estará infeliz com o resultado, de qualquer maneira. E uma alternativa a essa polarização foi sendo desidratada, principalmente pela incapacidade dos candidatos de lidar com as pressões, pela falta de exposição na mídia, pela ausência dos principais candidatos nos debates e também pela própria inexperiência ou falta de preparo.
Vamos novamente às urnas no próximo dia 4, guiados pelo ódio ou pelo medo. E muitos nem querem ir. Prevê-se um número grande de absenteísmo entre os mais velhos e de justificativas entre os demais.
Porque, ganhe quem ganhar, será difícil demais unir o país. Será muito duro conseguir que as coisas funcionem quando a oposição terá metade da população ao seu lado.
Fico com esse amargor no coração.
Essa ausência de esperança que me fazia acreditar que havia uma saída.
Não haverá.
Não ainda. Não desta vez.







