Pupilas de Dama

Em seus poucos mais de dez anos de existência, Tarcísio corria pelas frondosas e antigas falsa-seringueiras, na entrada do velho casarão, junto com sua irmã, primos e primas. Férias da metade, primeiro semestre.
De verdade verdadeira, apenas um casal eram seus primos de sangue; o restante era aquela consideração de parentes do lado de lá, pra não fazer feio.
– Tem que pedir a benção também.
Abençoado do jeito que dava, sumiam no estábulo pela asa esquerda do casarão, na poeira que levantava indo até o paiol. Dali, contornavam por trás até o rego d’água que vinha pelo meio do pomar, todo arborizado e em oposição ao estábulo.
E o pomar… Ah, o pomar! Deleite!
Jabuticabeira, limoeiro, amoreira! Tinha acerola, coquinho, banana, laranja, abacate. Era fruta para os 365 dias. Todavia, quem se destacava em junho e julho eram as poncãs – ali na região se aceitava o artigo no feminino – em suas vestimentas de sol poente, num desfile de encantar os olhos.
Tarcísio nem precisava se esforçar muito para colher alguma das frutas, pois elas se debruçavam em seus galhos, quase tocando o chão. E aí vinha o cheiro de descascar e vislumbrar os rechonchudos gominhos. Um estouro inebriante e adocicado de todo o suco que escorria pelo queixo, lambuzando a camisa nova.
No galho mais alto, uma poncã de tamanho exacerbado; muito bem, de vista, duas vezes maior que qualquer outra.
Dama, uma das tias de consideração, muniu-se de escada e clamou seu prêmio, consagrando a si o triunfo entre as crianças cobiçosas.
– Que gosto será que tem? – perguntou Mangotinha ao seu irmão, pequenina escondida nas saias das árvores.
Tarcísio deu de ombros. Cansou de poncã, viu goiaba branca e quis experimentar. Esqueceu da tangerina.
Tardinha, noite e vamos para uma nova manhã.
Agora dentro do casarão, em uma sala onde ficava a tv vibrando em desenhos coloridos, quase todas as crianças se amontoavam nos sofás ou no chão de tacos – aqueles de madeira em pequenos retângulos.
No vão da entrada, o rosto de Dama apareceu fechado, impassível, o lábio inferior tremendo delicadamente. Em suas mãos, as cascas da tangerina.
– Quem comeu minha poncã? – vociferou, marchando entre as assustadas e silenciosas crianças até encontrar Tarcísio e apontar para ele. – Foi você, não é? Eu sei que foi você.
O menino, constrangido com todos lhe observando, não conseguiu expressar nada. Dama tornou com sua afirmativa, dizendo que não se importava, porém suas pupilas se expandiram, deixando de serem pretas, alternando para uma infinidade de cores. A mulher não piscava e parecia se agigantar frente a Tarcísio; que temeu.
Cintilantes faíscas, explosão e a velha tv de tubo se ocultou em meio a fumaça; cabeamento desgastado da fazenda.
A tia, já dito de consideração, se retraiu com o susto e demonstrando um rosto quase angelical, decretou que estava tudo bem; já foi.
E foi mesmo.
Na primeira oportunidade, Tarcísio segurou a mão de sua irmãzinha e sem dizer nada a ninguém, pegaram a estrada rumo à sua casa. Nem tchau, nem benção!









Tem parentes que é isso nem tchau e nem Bençãos 🧙♀️
Mostrei esse texto para o Nosfa# e, numa análise sucinta, depois de um profundo e lento suspiro, ele me disse assim:
“Marte, veja bem… A grande poncã não é apenas um citrus hipertrofiado pelo sol de julho, ela é um acumulador quântico das memórias familiares não ditas”.
Será mesmo? Pensei…
Porque era mais fácil julgar ” o adotado ” do que os de sangue.