Viagem ao passado

Miguelópolis, 2017; Dia dos Pais com céu muito limpo.
O poeta Marte caminhava pela orla do Rio Grande, despreocupadamente lembrando da sensação de um raro vinil adquirido, impecavelmente conservado.
No canto da boca, um característico charuto, soltando fumaça como os trens que corriam pela antiga estação Mogiana. Seus devaneios se evaporaram ao avistar um livro abandonado próximo à uma árvore. Jogou o charuto fora e decidiu averiguar.
Pisou em falso, acreditando que, indubitavelmente, quebraria o tornozelo. Prevê o baque, a dor e a ida ao hospital. Estica as palmas das mãos para amortecer o impacto.
E ele cai. A única sensação é a queda. Infinita? Insondável? Marte percebia apenas uma escuridão intensa, pontilhada com o que poderia ser estrelas distantes. Estava afundando em densidades sufocantes, a gravidade puxando sua coluna, pendendo seus membros em um arco.
Chega ao fundo de algo e, em uma explosão cataclísmica, Marte perpassa os olhos pelo horizonte e sabe que não se encontra na cidade dos Migueis.
Uma larga rua de terra batida desce até um córrego. Aos arredores, casas espalhadas, distantes umas das outras, como chácaras, muitas delimitadas por cercas de madeira.
Em camisa rústica, numa calça folgada amarrada com um grosso cordão, um homem capinava rente a cercas. Reparou em Marte e suas estranhas vestimentas que nunca vira – regata e bermuda – notando que o forasteiro estava em palpos de aranha. Acautelado, parou a labuta quando o sujeito se aproximou, lhe dirigiu um bom dia esquisito, sem falar “senhor”, e perguntou onde era ali. Devia ser estrangeiro, isso resolvia o assunto das vestes e a falta de educação.
Tirou o chapéu de palha, fez o cumprimento tradicional para ver se era de bem e como o estrangeiro respondeu amém, aquiesceu e logo foi perguntando de onde vinha e era filho de quem.
Daí, surpreendendo Marte, o convite para um cafezinho passado na hora e um pedaço de queijo se juntou com um dedinho de prosa.
Hermenindo era o nome do anfitrião. Morava apenas com seu fiel parceiro em sua chácara, um simpático salsichinha, desde que sua jovem esposa falecera no ano passado.
– Uma lástima – comentou cabisbaixo. – Não conseguiu ver as paredes do Colégio sendo erguidas.
Com poucas perguntas, o poeta descobriu que estava em Franca, na rua Capitão Canuto, futura avenida de vinho espumante, no ano de 1915, quando as obras do Colégio Champagnat começaram! E agora? Seria verdade? Como voltaria para casa?
– Posso conversar com os Irmãos Maristas para que te arrumem algum trabalho – continuou Hermenindo. – E até se aprumar, tem quarto sobrando aqui.
Sensatamente, Marte aceitou a hospitalidade daquele pacato estranho. Não revelou nada do que ocorrera, inventando lorotas muito bem contadas. Aceitou roupas convenientes e depois de uma apresentação cerimoniosa, viu-se trabalhando na obra dos Maristas.
Os dias passavam com homens de paletó, colete e calça de corte reto mesmo no calor tórrido; mulheres davam o ar da graça debaixo de grandes chapéus e longos vestidos. Era um mundo de informações para Marte que, sofrendo com a parca energia elétrica – somente em lugares específicos – e obviamente sem internet, teve que se adaptar. O que mais queria era ir a Miguelópolis, ali conhecida como povoado de São Miguel. Sentia que era o lugar certo para retornar a seu ano.
E precisava de uma prova do que ocorrera; alguma coisa que lhe mostrasse que não fora apenas um sonho.
Nos bolsos de sua bermuda, encontrara algo impossível de existir antes de 2015. Em um corriqueiro e árduo dia trabalhando no Colégio, deixou o objeto escondido nas fundações; única testemunha de tudo o que vivera.
Semanas se passaram e, com o pouco dinheiro angariado, se despediu de seu anfitrião embarcando em um trem na Mogiana, indo até a estação de Ituverava. Ali mesmo contratou uma charrete para as léguas finais ao povoado desejado.
Um dia de jornada.
Era tardinha quando visualizou as margens do Rio Grande.
Longe de olhares curiosos, vestiu a regata e a bermuda.
E caiu.
Acordou ao lado de sua mulher e filha lhe amparando
Havia quebrado o tornozelo.







