Lua crescente

Pavel Alentejo era gago, ponto final. É, ele estava melhorando, indo ao fonoaudiólogo e seguindo todas as dicas e superstições que lhe falavam. “Já pulou sete ondas?” “Foi pra igreja?” “Bruxaria da Carmesim não tem erro!” Sim, sim e sim… Seus ombros arquejavam quando vinha a respiração profunda, cansada, um murmúrio desgastante de argumentar o mesmo sempre e sempre. Já que se incomodavam com sua gagueira, que o deixassem quieto, olhando para o nada, sabe… só o vazio infernal de suas dores.
A cada dia sua mente fervilhava, sussurros que o seduziam para a completa escuridão. Não raro, em sua solidão, caminhava à deriva pelas ruas de uma noturna Franca, ansiando que a cada esquina algo acontecesse, nem que fosse um carro, um tijolo… algo tinha que fazer sentido, ao menos por um segundo.
Em um desses devaneios, quando a lua sorria sobre o cobertor pontilhado, Pavel alcançou a rodovia Cândido Portinari com o vento lhe arrastando na passagem dos grandes caminhões de cana-de-açúcar. Não tinha medo, nem frio… quisera sentir algo além do duro asfalto que retinha seus pés a cada passada. Cabisbaixo, mãos nos bolsos, apenas percebeu que estava em frente à centenária paineira quando ela lhe barrou o caminho.
Uma sorridente Chá Verde se balançava nos galhos mais altos da grande árvore e viu quando o rapaz se aproximou. Ficando de cócoras, camuflada pelas folhas, Chá Verde arredondou a boca e, por três vezes, imitou uma rasga-mortalha. Algo respondeu com um urro.
Depois de infinitas semanas, Pavel Alentejo sentiu algo reverberando no coração, pulsando um medo palpável e sufocante. Quis correr, mas as pernas eram pesadas pedras que não se moviam. Do outro lado da rodovia, grandes e profundos olhos amarelos surgiam do meio dos arbustos. Nenhuma luz, automóvel, ninguém.
Houve um rosnado baixo e os olhos amarelos cruzaram pelo asfalto. Cada poro de Pavel se retraiu ao se encontrar face a face com o Aritana. A criatura o farejou, esticou seus longos braços sobre o ombro do rapaz, que tremeu, e o encarou, contemplando a profundidade de sua alma. A noite ouvia o coração de Pavel.
Um terrível cheiro saía da garganta do Aritana, pútrido, exalando a corrosão ardente em túmulos abertos. Com a ponta do indicador — uma garra — pressionou a testa do rapaz e deixou uma pequena marca na forma de meia-lua. Mais um pio de rasga-mortalha ecoou acima da paineira e, no mesmo instante, o homem feio se foi, deixando Pavel com seus tremores nas horas tardias da madrugada.
Voltou para casa, tomou um daqueles banhos de nevoeiro, se envolveu em mantas e adormeceu. Não soube quanto tempo dormiu, mas com certeza fora bem mais que um dia inteiro. Até acharam que se adoentara. Que não se preocupassem, a única debilidade era a sede, resolvida com um geladíssimo copo d’água.
Saiu ao sol. Ah, aquele astro incrível, flutuando tão distante no meio de um sistema, navegando na imensidão da galáxia.
— Quente, vibrante. Me sinto tão vivo — disse Pavel sem gaguejar.
Em sua fronte, imperceptível àqueles que veem sem realmente ver, uma tênue lua crescente perfazia-se em prata, faiscando à luz solar.






