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Kalelvision: a acessibilidade no sistema bancário brasileiro, ou a falta dela

Por Jornalista Guilherme Kalel

O Brasil possui um sistema bancário muito avançado em comparação com outros países da América do Sul. Hoje, trouxemos as agências para mais perto de nós, dentro de nossos smartphones. Com as carteiras digitais, renovamos e inovamos o jeito de usar o cartão de crédito, deixando o plástico de lado e realizando pagamentos por aproximação com o celular. Até mesmo a forma de fazer transferências mudou, já que mais de 90% das transações bancárias atuais são realizadas via Pix.

Toda essa tecnologia trouxe para a nossa vida inovação, autonomia e praticidade. Tanto que grandes bancos começaram a fechar agências físicas para investir no ambiente digital, como é o caso dos gigantes Santander e Bradesco. Os bancos digitais — que não precisam de agências e, logo, são menos burocráticos e mais acessíveis, ao menos em tese — também aproveitaram essa onda de facilidades para se desenvolver: Mercado Pago, Nubank, Neon, PagBank, Agibank, entre outros. Na verdade, diversas opções existem, e todas as grandes redes do país querem um banco digital para chamar de seu.

Tanta tecnologia poderia trazer para nós, pessoas com deficiência visual, facilidade na hora de escolher um banco para trabalhar ou movimentar nossas finanças, seja ele físico ou digital. No entanto, a realidade dos fatos é muito mais complexa do que parece. Se a tecnologia avançou com toda essa modernidade digital, ela falha no momento de permitir o acesso a tudo isso. Será que alguém já parou para pensar em como uma pessoa com deficiência visual poderia fazer uma selfie para abrir uma conta em um banco? Ou para acessar seu aplicativo quando troca ou formata o telefone? Alguém já parou para analisar que boa parte dos deficientes visuais não tem uma pessoa vidente por perto para auxiliar nessas questões?

O Nubank já. Por isso, o banco criou o primeiro sistema de reconhecimento por vídeo no Brasil. Pioneira, a instituição financeira é a única que oferece esse tipo de serviço, o que explica o fato de o banco digital ser um dos preferidos pelos deficientes visuais, embora não seja o meu caso. Mas há que se reconhecer: quando o Nubank tomou conhecimento do problema, antes tarde do que nunca, resolveu a questão. Por falta de conscientização ou por pura falta de vontade — ainda não sei definir qual opção se encaixa melhor —, outras instituições, nem mesmo as físicas, fizeram o mesmo.

A falta de acessibilidade bancária ainda é um problema crônico que precisa ser muito bem trabalhado no Brasil. Aliás, muito trabalhado. E ela não existe apenas dentro do ambiente digital; fora dele, é ainda mais latente e palpável.

É muito comum ouvir relatos de pessoas com deficiência visual que, ao irem a agências físicas de bancos, em especial os públicos, não recebem o tratamento adequado. Ocorre uma pura e única discriminação, e muitas vezes o atendimento só é conseguido depois de muita insistência, espera e, em alguns casos, até discussões. Como um banco pode barrar uma pessoa com deficiência visual na porta giratória? Se o deficiente está com sua bengala na mão, obviamente ela vai travar a passagem. Em vez de liberar o acesso, os agentes de segurança do banco, com a conivência de funcionários, acabam proporcionando uma situação vexatória e de constrangimento à pessoa com deficiência visual. Tentam realizar revistas ilegais, muitas vezes sem que um vidente de confiança esteja presente. Falta bom senso a essas pessoas e faltam normas mais claras sobre a tratativa das pessoas com deficiência em todos os aspectos no Brasil. A Lei Brasileira de Inclusão, a chamada LBI (Lei nº 13.146), deveria, em tese, garantir autonomia e acessibilidade em todas as esferas do país. Infelizmente, não é o que acontece.

Vocês, leitores, podem até pensar: “Por que esse jornalista chato vem falar sobre esse tema de acessibilidade de novo? E o que eu tenho a ver com isso?” Acessibilidade é um direito de todas as pessoas com deficiência. É um dever que deve ser cumprido por todos os entes, quer sejam públicos ou privados. E é uma questão de humanidade e de informação para que quem não tem deficiência passe a saber.

Só com esse trabalho de informação e esclarecimento, só tocando na ferida e mostrando como as coisas realmente são, é que poderemos, talvez, moldar e melhorar o mundo. Não desejo que o mundo seja perfeito para as pessoas com deficiência, isso seria utopia. Sei que mesmo as pessoas sem deficiência têm suas dificuldades e seus problemas. Mas é preciso garantir que a acessibilidade seja colocada em prática, que as coisas sejam de verdade acessíveis para nós, para vocês, para todos. Assim se constrói um mundo verdadeiramente inclusivo.

  • Guilherme Kalel é Jornalista e Escritor. Professor de Conteúdo Digital e Consultor de Acessibilidade. Autor da Coluna Kalelvision. MTB: 89344 / SP. [email protected]

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