Colunas

50 anos de arte

Como estão todos cansados de saber, “santo de casa não faz milagre”. Num país machista como o nosso, mulher menos ainda. Por isso o que o Laboratório das Artes de Franca vai iniciar na próxima quinta-feira a noite em São Paulo é algo excepcional em termos de reconhecimento da obra de uma pintora modernista francana, dando início a uma extensa programação para comemorar os 50 anos de atividades artísticas de sua coordenadora, a pintora, gravadora, desenhista, professora e outras cositas más Atalie Rodrigues Alves. Obviamente, ao escrever sobre essa que é uma das mais importantes artistas francanas que vivem na cidade, se fosse juiz, me declararia suspeito. Afinal, sou fã da obra, da artista e namoramos desde 1970, jamais seria isento.

O começo desse autêntico “road show” vai iniciar por onde tudo começou de verdade, a Faculdade de Belas Artes de São Paulo onde ela se formou em 1976, quando ainda funcionava no prédio do Parque da Luz, hoje a Pinacoteca do Estado. Na Belas Artes da Vila Mariana, uma pequena exposição retrospectiva vai receber amigos e admiradores de sua arte, ao mesmo tempo em que será lançado o livro “Atalie 50” editado pela Ribeirão Gráfica com uma belíssima capa de Gil Russi, textos de críticos de arte e professores sobre seu trabalho. O livro mostra suas séries de pinturas e gravuras, muitas inspiradas nas ruas e pessoas trabalhadoras da velha Franca do Imperador. Após São Paulo, há exposições programadas durante o ano para Ribeirão Preto, Jaboticabal, Uberlândia e no Lab em Franca. Ao mesmo tempo, uma mostra itinerante paralela de suas gravuras percorrerá diversos campi da UNESP.

As exposições obedecem a um sentimento da artista de devolver a esses locais um pouco de sua arte, pela importância que assumiram ao longo do tempo em termos de incentivo a seu trabalho e da constituição de fortes ligações de amizade e artísticas. As mostras permitem apresentar ainda conexões presentes de outras formas em sua obra com artistas e intelectuais francanos.

Abdias Nascimento, o grande intelectual brasileiro, uma das mais potentes vozes contra o racismo estrutural da sociedade brasileira, nasceu em Franca (1914-2011) e no final dos anos 1930 mudou-se para São Paulo. Sua obra em pintura somente veio à cidade que nasceu quando foi inaugurada a unidade local do SESC em 2024, quando Franca completou 200 anos de sua elevação a Vila. Durante sua vida, Abdias retornou algumas vezes a Franca e sempre se encontrava com Zezinho Luz, seu amigo de infância. Luz foi casado com Thassiana Rodrigues Alves, prima primeira de Cid Rodrigues Alves, pai de Atalie.

Nascida em Franca, a artista Atalie Rodrigues Alves (1955) é neta de Athalye e Antônio Rodrigues Netto, um dos mais importantes empresários rurais da cidade nas décadas de 1950-60. Em 1956 sua empresa “Netto e Irmãos” era a principal pagadora de impostos na cidade. Antônio mudou-se da região de Tietê para Franca em meados dos anos 1930 para empreender na cafeicultura, tanto que Cid, o pai de Atalie, nasceu em Tietê em 1924, mesmo local onde nasceu em 1928 o poeta e professor Carlos de Assumpção, que se mudou para Franca em 1970. Recém-formada pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo, Atalie retornou a Franca e suas primeiras xilogravuras retratavam apenas negros, algumas delas já sob o impacto da leitura do livro de Abdias “Genocídio do negro brasileiro” de 1978.

“Sêo” Carlos, como é conhecido o mais importante poeta negro da cidade, trabalhou como assistente de Atalie na Pinacoteca Municipal de 1998 a 2004, assim como participou ativamente de atividades culturais do Laboratório das Artes de Franca, movimento cultural criado em 1982. Foi Atalie quem elaborou em 2000 a capa do livro de poemas “Quilombo” lançado por Assumpção.

Essas conexões fluidas entre três artistas tão díspares como Abdias, Assumpção e Atalie, embora sejam apenas coincidências de artistas nomeados com a letra “A”, acabam por constituir um fio de ligação original, um fino elo das raízes da arte produzida na cidade da Franca ou por seus filhos, representadas em continuidade na linha do tempo por uma obra original, única, consistente, persistente, quase silenciosa, de uma mulher artista plástica natural da cidade e que aqui vem realizando sua obra. Uma obra que, ao longo de cinquenta anos ininterruptos, constituiu-se uma verdadeira crônica visual de uma cidade industrial profundamente alterada pelo ingente trabalho dos homens e mulheres que a construíram e ainda constroem no cotidiano das ruas, das fábricas e das plantações.

Elaborada em profícuas séries em diversas técnicas (pintura em aquarela, guache, esmalte, desenho em bico de pena, xilogravura ou linoleogravura, dentre outras desenvolvidas pela artista), ao longo das camadas do tempo, foram retratando com um desenho figurativo formalmente requintado, com uso constante de geometrização dos fundos e exploração intensiva e vibrante da cor, os trabalhadores das indústrias de calçados, dos curtumes, da borracha, o trabalho infantil, a presença da mulher no chão de fábrica, o trabalho na colheita do café, da construção civil, dos ambulantes das ruas.

Ao mesmo tempo, a artista foi construindo outras séries ligadas à arquitetura, como das antigas e abandonadas estações de trem de ferro na região às janelas das construções antigas da Franca e das cidades próximas que estavam sendo perdidas para sempre com a modernização urbana, numa crítica ao desprezo pelo patrimônio histórico. Séries que foram expandidas depois a todo o país e até mesmo à Europa, quando fez residência artística em Torres Vedras, Portugal. Uma série recente sobre o basquete francano, esporte em que a cidade é uma das principais e tradicionais forças no país, reforçou essa característica em sua trajetória artística, de permanente diálogo de seu trabalho com a cidade em constante mutação, como uma verdadeira crônica visual sobre a identidade local, sua cultura e suas assimetrias sociais.

Se podemos pensar na Ancestralidade como uma ponte que nos conecta ao passado, revelando de onde viemos e o que formou a nossa cultura, gostos e tradições, as obras de Arte criadas por Atalie tem essa poderosa força de Autenticidade, de alguém que vive e trabalha em Franca acompanhando suas mudanças e retratando-a a seu modo, com um fazer próprio e original marcado pela delicadeza de sua manufatura, forma de produção que foi a principal fonte da riqueza local no campo e na cidade ao longo dos séculos e que somente agora começa a se modificar.

Mauro Ferreira

É arquiteto e urbanista.

8 Comentários

  1. QUE BELEZA DE DIVULGAÇÃO, E QUE IMPORTANTE TER A NOSSA ATALIE, TÃO TALENTOSA, COMEMORANDO ESTE MONUMENTO DE RESISTÊNCIA DA CULTURA FRANCA, QUÉ É O LABORATÓRIO DE ARTE. VIVa!

  2. Mauro, belo e rico texto histórias vividas e acompanhadas na linha do tempo ligadas pelo alfa no alfabeto pátrio. O A é o princípio.
    Parabéns para Atalie e sua primorosa arte. Parabéns pela iniciativa de ir mostrar.

  3. Belíssimo texto, Mauro!!
    Homenagem muito merecida a essa artista de um talento ímpar, cujas obras nos encantam com sua expressividade, memória, cores e formas.
    Parabéns Atalie, pela exposição em São Paulo.
    Estaremos esperando por ela aqui no Lab, em breve, espero. Abraços

  4. Parabéns Atalie.
    Trajetória invejável e impecável, que acaba de estimular mais um exercício literário do Mauro, uma verdadeira declaração de respeito e amor.
    Você, Atalie, merece fazer parte da galeria de mulheres que nos honra a todas, que valoriza seu cantinho ao mesmo tempo que informa a diversidade e as mudanças desse lugar francamente inspirador.
    Clara Ant

  5. Atalie merece todo o nosso respeito, carinho e gratidão, principalmente a consideração de toda cidade de Franca. Atalie é uma magnífica artista importante no cenário artístico e cultural da cidade. Parabéns Atalie por proporcionar a nós todos tanta beleza e conhecimento no campo de arte, educação e cultura. Muita vida e arte pra você!

  6. Texto maravilhoso que só poderia advir de um craque talentoso como o arquiteto Mauro dando plena abrangência e valoração ao trabalho da artista Atalie. Parabéns!

  7. Realmente, Mauro Ferreira: santo de casa não faz milagre! Sou paulistano, porém por mais da metade de minha vida moro em Franca, onde já criei raízes. E me pergunto: além da classe artística e intelectual de Franca, quem conhece realmente a obra desta nossa artista tão importante? Eu não conhecia. Só tinha ouvido falar. Muito obrigado por compartilhar seu conhecimento! Grande artista! Grandes artistas: Atalie, Abdias e Assumpção!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo