O caçador de gatos

O quente asfalto do meio-dia, daqueles que florescem pequenas miragens, não impedia Calcário de ir até o Bota-fora, onde muitos gatos viviam escondidos.
Sendo irmão mais novo de dois e mais velho de um, Calcário habituara a se virar sozinho. Sempre que queria algo, ou conseguia por correr atrás ou sair nos socos e pontapés com os outros três. E sem falar que tudo tinha que dividir! Ele queria algo só seu e por isso conseguiria um gato.
Na noite anterior, decidira acordar cedo e concluir seu plano antes que todo mundo acordasse. Acabou sendo o último a sair da cama, tão tarde que teve que esperar a mãe servir o almoço para poder sair.
Surrupiou um pão no armário, uma linha grossa e, de chinelo de dedos, avisou que iria brincar com os goianos.
– Não é para voltar tarde! – gritou a mãe entregando um copo de suco para o mais novo dos irmãos.
Calcário retribuiu o grito com outro e caminhou com determinação através da chácara até sair pelo portão e alcançar a rodovia Ronan Rocha. Olhou para a esquerda, vendo as primeiras casas do Jardim Aeroporto, logo após o pasto onde crianças soltavam pipas e teve ímpeto de ir para lá. Reteve aquela vontade, observando sua frente do outro lado da rodovia onde moravam os goianos e, indiferente, seguiu o acostamento pelo lado direito, subindo em direção a Patrocínio Paulista.
Claro que não iria até a próxima cidade, mas o Bota-fora onde a vizinhança costumava jogar entulhos de obras não era perto, principalmente abaixo do sol estorricante.
Pouco mais de meia hora, uma sede começou a sapecar sua língua, se arrependendo de não ter a perspicácia de trazer água. Ainda bem que o Bota-fora estava perto, conseguindo ver muitos gatos se embrenhando por ripas, tijolos, concretos e montanhas de areia e pedra brita.
Se posicionou: amarrou na ponta da linha um pedacinho do pão e o arremessou o mais perto possível dos gatos. Deitou no chão, deixando apenas a cabeça levantada a espera de algum faminto felino.
– É como pescar. Tem que ter paciência – sussurrava para si.
Nessa distração, um grande gato acinzentado sorrateiramente se aproximou de Calcário e comeu o restante do pão. Quando percebeu, o menino levantou num pulo, pronto para se defender. O gato ronronou, se enroscando pelas pernas magrelas daquele humano assustado e correu para o meio de uma pilha de telhas.
Num trotezinho alegre, o gato regressou carregando uma caixa, pouco maior que sua cabeça e a colocou ao lado do menino.
– Miau – e sumiu de vista dentro de um buraco.
Calcário agachou e, bem devagar, abriu a caixa.
Dentro, de cor branca com manchas amarelo mostarda, um cachorrinho abanava a cauda todo feliz. Saltou para o colo de Calcário e foi acolhido pelo coração do menino.







Esse texto é daqueles que parecem simples, mas pegam a gente desprevenido. O calor, a caminhada, o plano meio torto do menino… tudo constrói uma espera silenciosa. E quando você acha que o gato é o objetivo, vem a virada mais doce possível. Espero que Calcário e seu novo amigo sejam mt felizes.
As crianças de Miguelópolis veem as horas pelo olhar dos gatos
Hahahhaa eu amei, a inocência de uma criança
Hahaha, sei bem como é essa história, linda com foi os 10 longos anos ao lado do cãozinho docil.
A vida é cheia de surpresas
Belissima história mostrando que nem sempre o que queremos, acontece como queremos
Crianças e animais, sempre nos ensinando e mostrando de como a vida é bela e leve!!!
Perfeito
Que fofura esse texto 🥹 aquece o coração!
Mas que texto legal, do começo ao fim um escrita gostosa, no final uma surpresa, nem sempre o que queremos é o que conseguimos, mas isso não quer dizer que será a menos. Obrigado por mais uma escrita meu caro rabiscador!