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Professora, advogada, artesã, slammer… a vibrante trajetória de Eveline de Souza

Tive a alegria de conhecê-la pessoalmente depois que ingressei na Academia Francana de Letras, em um daqueles encontros que a vida nos reserva com pessoas especiais. Eveline participa como convidada de várias atividades da AFL e desde então percebo o quanto Eveline de Souza brilha em cada espaço que ocupa.

Vibrante, múltipla e incansável, Eveline reúne em si muitas vidas: professora aposentada da rede municipal do Rio de Janeiro, advogada, artesã bonequeira, pesquisadora da cultura afro-brasileira e, mais recentemente, poeta e slammer. Por uma dessas coincidências da vida, ela ainda carrega praticamente o mesmo nome da minha patronesse na AFL, Evelina Gramani, o que torna nosso encontro ainda mais especial.

Sua trajetória é marcada por superação, dedicação aos estudos, amor à maternidade e uma busca constante por expressão artística. Hoje, em Franca, ela transforma suas experiências em versos e performances, mostrando que a poesia falada não tem idade — tem força, presença e emoção.

Eveline me contou um pouco de sua história em um depoimento emocionante, que compartilho aqui.

“Sou a 19ª filha de Maria Justino de Souza, mineira de Leopoldina. Minha mãe, ainda jovem, conheceu meu pai, que já tinha filhos e temia não conseguir dar conta de tantos outros. Foram muitos abortos antes de mim. Nasci miúda, desenganada por todos, mas sobrevivi graças ao amor absoluto da minha mãe, de uma prima dela e de meu pai, que ao ver minha carinha lutou enquanto viveu para me dar o melhor que podia.

Sempre muito cobrada nos estudos, fui me desenvolvendo e prestando concursos para alcançar cargos maiores e uma melhor colocação social. Um dia percebi que, com mais de 24 anos, ainda não tinha filhos. Eu via meus alunos e me apaixonava pela energia deles. Planejei a maternidade e, aos 40 anos, engravidei, casei e decidi mudar minha vida. João Vittor nasceu e eu vivia para ele, para suas atividades, com muito amor envolvido.

Ele cresceu no basquete do Rio de Janeiro e foi convidado a jogar no interior de São Paulo. O casamento já havia acabado e eu segui com meu filho para Barretos. Lá, já aposentada, me inscrevi em oficinas de escrita. Comecei a redigir textos sobre minha vida, sempre recebendo elogios, e fui me empolgando. Não parei mais de escrever.

Quando chegamos a Franca, percebi que as dificuldades não estão na geografia, mas nas relações entre as pessoas. Procurei me integrar aos grupos culturais: teatro, dança, artesanato, Comdecon, Mulheres do Brasil. A solidão me fez reencontrar a escrita. Meu primeiro poema aqui foi ‘Mulher Preta Retinta’. Depois dele, nunca mais parei. Escrevo quase diariamente e já participo de antologias.

Um dia fui convidada para o Sarau Protesto. Eu via as pessoas declamando e achava lindo, mas sentia vergonha. Carlos de Assumpção insistia, mas eu travava. Até que Eliana Alves, produtora cultural de Franca, me convidou para um slam. Há dois anos declamo com muito prazer. Já ganhei batalhas locais, participei de regionais e fiquei em sexto lugar no slam de Ribeirão, classificada para a final entre tantos poetas bons.

Identifiquei-me com esse tipo de poesia e não pretendo parar. Amo declamar, mesmo com o trauma de não decorar. Um dia consigo. O slam me deu voz, me deu espaço, me deu vida. Hoje sou colecionadora de poesias autorais e sigo vibrante, escrevendo e declamando, porque a palavra é minha forma de existir.”

Joelma Ospedal

Joelma Ospedal é jornalista, escritora e apaixonada por comunicação

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