Depois do confete, o trabalho continua

Enquanto o resto do Brasil tira o moletom e pensa em férias, em Batatais — cidade pacata e orgulhosamente sambista no interior de São Paulo — já tem gente pensando em penas, purpurina e um bom samba-enredo.
Por lá, o Carnaval não é só em fevereiro. Na tradicional escola Acadêmicos do Samba, o meio do ano marca o início de um novo ciclo carnavalesco: hora de queimar neurônios, cortar tecidos e inventar carro alegórico com orçamento de feira.
O samba nasce na prancheta (e no WhatsApp)
Escolher o samba-enredo não é tarefa simples. Envolve reuniões longas, debates acalorados e uma chuva de sugestões. A comissão artística da escola — uma espécie de “bateria de pensadores” — se reúne para decidir o tema do próximo desfile. O enredo precisa ser original, impactante e, de preferência, caber em três minutos e meio com refrão chiclete.
É nesse momento que os compositores locais aparecem com cadernos rabiscados e celulares em modo gravação, tentando encaixar “liberdade”, “amor” e “resistência” em métricas aceitáveis. Afinal, um samba-enredo ruim pode derrubar até o carro abre-alas.
Alegorias: entre o luxo e a gambiarra genial
Definido o enredo, vem a missão mais épica: transformar palavras em esculturas móveis de 12 metros. É quando Batatais vira um canteiro de obras carnavalesco, com espuma, ferro velho, tinta spray e cola quente disputando espaço em garagens e barracões improvisados.
A confecção das alegorias mistura arte com engenharia civil do improviso. Tem carro que começa com a estrutura de uma cama velha e ganha asas de PVC. Tudo com o toque artístico da comunidade, que transforma latas de tinta em verdadeiros troféus visuais.
Fantasias: o brilho nasce no retalho
As fantasias são um capítulo à parte. As costureiras e estilistas da Acadêmicos do Samba entram em ação com agulhas, TNT, plumas e muita fé. Cada ala tem uma identidade, um figurino e um desafio: equilibrar criatividade com baixo custo e um mínimo de conforto (este último item, aliás, raramente é atendido).
É comum ver um integrante da comissão de frente usando sete camadas de tule em pleno verão batataense, sorrindo para os jurados e derretendo por dentro como queijo coalho no asfalto.
Carnaval o ano inteiro (sim, até em julho)
Tudo isso acontece muito antes do samba tocar na avenida. E julho é o mês-chave: é quando as decisões mais importantes começam a ser tomadas, os sambas são compostos, as primeiras fantasias são testadas e as ideias mais malucas para alegorias viram realidade — ou são gentilmente descartadas com um “melhor deixar pro próximo ano”.
A Acadêmicos do Samba, com mais de quatro décadas de história, é símbolo desse trabalho que vai além do desfile. É cultura viva, feita por gente que sonha acordada com tamborins, fios de LED e penas coloridas — mesmo quando a única coisa que tem no momento é uma pistola de cola quente e um orçamento apertado.
Conclusão: o Carnaval é agora
Quem pensa que o Carnaval só começa depois do Réveillon nunca pisou numa reunião da escola de samba em Batatais em pleno julho. Lá, o ritmo não para. Enquanto uns sonham com férias, os sambistas da Acadêmicos já estão construindo sonhos. E, com sorte (e muito glitter), esses sonhos desfilarão na avenida — entre aplausos, confetes e o orgulho de quem faz arte com alma, suor e retalhos.
Este ano, segundo o presidente Murilo Galerani e o carnavalesco Carlos Augusto dos Santos — uma dupla provida de intensa criatividade — o enredo será:
“No Xirê das Yabás! Preto Velho cultua as mães negras ancestrais!”
Resumo da sinopse:
Neste xirê, a Escola celebra o sagrado feminino negro como pilar de um Brasil que resiste. Cada ala será uma oferenda, cada fantasia um louvor, cada batida da bateria um toque de tambor ancestral.
“No xirê das Yabás! Preto Velho cultua as mães negras ancestrais…” é mais que enredo: é liturgia em forma de samba. É o povo Academicamente Soberano celebrando com respeito, poesia e a verdade das deusas da vida real.
Salve as mães negras de ontem, de hoje e de sempre. Salve quem cultua e quem é cultuada. Salve o xirê, salve o axé, salve o amém. Salve o samba!
Esta coluna seguirá atenta aos bastidores e preparativos da Acadêmicos do Samba ao longo de todo o ciclo carnavalesco, até o grande momento do desfile. E, como sempre, compartilhará com seus leitores cada passo dessa jornada — da criação ao brilho da avenida, com o respeito e o entusiasmo que a cultura merece.








Parabéns pela matéria 👏👏👏
Parabéns ao carnavalesco Carlos Augusto, ao presidente Murilo que são pessoas extremamente focadas e amam o que faz, e obrigada por me receberem de braços abertos 🙏🥰
Amo vcs, amo essa comunidade.
E se apruma que lá vem macumba 📿🙏🐯
Sucesso