A vez da “deforma” da Praça Barão da Franca
A “deforma” da Praça Nossa Senhora da Conceição que se arrasta desde 2023 está quase finalizada e a empreiteira iniciou os serviços na Praça Barão da Franca, inserida no mesmo contrato com projeto doado pela ACIF à Prefeitura. Infelizmente, está sendo utilizada na Barão a mesma falta de noção sobre o que seja conservar o patrimônio público, histórico ou sob qualquer outro ângulo que se olhe, inclusive com a visível insustentabilidade das obras que destroem coisas que estão razoavelmente bem conservadas para “modernizar” com algo pior. Sem contar a interpretação equivocada da legislação de acessibilidade, a destruição de equipamentos públicos em bom estado e o lançamento de resíduos e detritos nos jardins que deveriam ser recuperados. Essa porém, tem sido a sina das nossas praças ao longo dos tempos, chegou a vez da Praça Barão novamente.
Largo criado na constituição da cidade no início do século XIX, foi ela que recebeu o tronco do pelourinho, símbolo do poder do Império português, segundo antigos escribas locais. Lentamente tornou-se um ponto comercial importante, já que a praça da igreja foi inicialmente ocupada por residências dos abastados fazendeiros que vinham à cidade apenas para a missa aos domingos. Só mais tarde a praça da matriz, após a demolição da primitiva igreja de N. S. da Conceição no início do século XX também assumiria de vez sua vocação comercial, que permanece até hoje. O poeirento largo da Barão sempre abrigou alguns armazéns e lojas, assim como o teatro Santa Clara, o primeiro da cidade ainda no final do século XIX e destruído por um incêndio.
A praça Barão somente recebeu seu primeiro jardim por volta de 1910, logo após o da praça da Igreja Matriz. Era um belo largo com árvores, flores, pequenos espelhos d´água, totalmente cercado para evitar que os animais que ainda viviam à solta pelas ruas destruíssem os jardins. Em sua extremidade com a Rua do Comércio, localizaram-se inicialmente carroças de aluguel. Quando das obras do calçadão nos anos 1980, foi encontrado um bebedouro de animais na parte inferior da praça, defronte onde foi o teatro Santa Clara. Com a invenção do automóvel e a chegada da ferrovia, as carroças foram substituídas pelos “carros de praça e seus choferes” no início do século XX e em seguida foi instalado o “menir” do centenário da Independência em 1922, que está lá até hoje, embora tenham desaparecido suas placas indicativas originais.

No início dos anos 1930, com árvores de grande porte já adultas, a praça teve seu piso totalmente pavimentado, desaparecendo jardins e espelhos d´água. A sombra do lugar propiciou que houvesse continuidade na sua apropriação pelos homens que se reuniam para fazer negócios, conversar sobre política e outros assuntos, socializar enfim, como até recentemente. A praça Barão assumiu desde então ser um reduto machista, inclusive quando se tornou a “praça dos diamantes”, onde garimpeiros, atravessadores, comerciantes, picaretas e ourives a tornaram famosa país afora, depois de ser palco de personagens lendários como o Geraldo Pelotão e Maria Capotinha, de tragédias como a morte do professor Dulemba que caiu do alto do “Franca do Imperador”, da tentativa de assassinato a tiros do líder ruralista Fábio Meirelles e das plateias que iam assistir numa pequena TV em preto e branco aos jogos da Copa do Mundo do Chile em 1962.

No início dos anos 1970, uma grande reforma projetada pelo arquiteto Luiz do Couto Rosa foi executada durante o governo de Hélio Palermo, que havia derrubado o gigantesco jatobá cantado por poetas e as árvores (fícus) que sombreavam os “carros de praça” por conta de uma praga de insetos que vivam nas árvores e que atacava os olhos das pessoas, chamados com espírito crítico e gozador pela população de “lacerdinhas”. Já consolidada como a praça dos homens e dos negócios, ao seu redor fixaram-se lendários estabelecimentos. Cafés como o Globo, restaurantes como o Indiano, lojas e comércios de vários tipos como a papelaria Agência Brasil, Casa Barbosa de ferragens, Jahú e Syria de roupas e tecidos, Lâmina de Ouro de discos e eletrônicos, assim como a sede e auditório da Rádio Hertz e o primeiro arranha-céu da cidade, o Franca do Imperador, inaugurado em 1957. A nova praça tinha pequeno espelho d´água ao centro com um piso em pedras portuguesas pretas e brancas raiadas a partir do espelho, novos bancos para sentar e pequenos jardins. As árvores existentes foram removidas e novas espécies foram introduzidas pela engenheira Olga Toledo, algumas sibipirunas estão até hoje. O espelho d´água recebeu um apelido dos irreverentes frequentadores da Praça Barão que não pode ser divulgado em horário para crianças.


No final início dos 1970, o local passou a receber público jovem no período noturno em seus bares e restaurantes que se tornaram icônicos, como o hoje único sobrevivente Barão (do filé a JK, tombado como patrimônio imaterial da cidade), Pajé e Picadilly e até um cursinho vestibular, as ruas do entorno da praça ficavam tomadas por gente barulhenta e alegre.
Em 1988, a necessária pedestrianização do centro prevista pelo Plano Diretor foi realizada durante o governo do arquiteto Ary Balieiro. A praça foi totalmente reformulada de novo, desapareceu aquela dos anos 1960. Foram criados um confuso sistema de pequenos jardins com bancos sem encosto e um novo espelho d´água com fonte luminosa vertical em concreto armado, que se revelou de funcionamento impraticável, jogava água nos transeuntes e foi logo desligado, dinheiro público esvaído pelo ralo. O piso foi substituído por grandes quadros em pedras portuguesas pretas e brancas divididos por placas ardósia, as ruas Marechal Deodoro, General Telles e do Comércio foram totalmente fechadas aos automóveis. Os bares se esparramaram para a via pública, atraindo frequentadores para o período noturno, após o final do expediente comercial e fechamento das lojas.

Foi o canto de cisne da intensa vida noturna do centro da cidade, logo abalada pelas mudanças sociais e culturais ocorridas nos anos 1990 com a chegada do Shopping Center, do vídeocassete, do fim dos cinemas de rua e dos clubes e seus bailes e festas do centro, como AEC e Sociedade Síria. O comércio tradicional também se transformou, tornando-se o centro um complexo popular de compras a partir da instalação de grandes magazines, lojas de artigos populares e barracas de camelôs no segundo governo Balieiro, que passou a contar com acesso privilegiado após a construção do terminal central de ônibus no governo Gilmar Dominici, que também tentou revitalizar o centro com um programa que levou inclusive o gabinete do prefeito e algumas instituições públicas para a região, infelizmente descontinuado nas gestões seguintes cujo abandono cobra seu preço agora. É ainda do período Dominici o reaproveitamento da antiga fonte desativada em uma edificação que deveria ser utilizada como centro de turismo e cultura (cheguei a lançar um livro de contos no local) e a instalação dos encostos dos bancos, ideia apoiada pelo então presidente da ACIF Onofre Trajano, que dizia que os idosos ficavam desconfortáveis sem apoio para as costas.
Após esses investimentos no início dos anos 2000, a praça Barão não recebeu qualquer manutenção ou novidade, a não ser o avanço do comércio ambulante nos calçadões. Assim chegamos a uma nova “deforma”, com o abandono integral do desenho atual por um outro que é mais um exemplo de falta de noção da Prefeitura e da ACIF sobre o que fazer para melhorar os espaços públicos do centro da cidade sem ouvir os principais interessados, os usuários e imaginar que um projeto de arquitetura isolado faz sentido ante a situação atual de descontrole, onde parece que nem o contrato com a empreiteira tem sido lido.
Segundo o memorial descritivo do projeto, “O projeto prevê a implantação de novos equipamentos urbanos caracterizados como mobiliário de qualidade ergonométrica e funcional, visando atender as demandas dos vários tipos de usuários: fruidores e transeuntes: bebedouros, lixeiras, tomadas de recarregar celulares”. A qualidade ergonométrica dos bancos com aqueles vazios que podem levar o infeliz sentado cair para trás não me parece funcional, posso afirmar sem dúvida alguma que são piores que os antigos.

Segundo o edital e o contrato, a empreiteira deveria “Executar as obras dentro de um elevado padrão de qualidade”. A amostra do tapume mambembe já mostra o que vem por ali. A qualidade do piso executado na praça N. S. da Conceição para “acessibilidade” é risível, destruiu o padrão existente das ondas de Copacabana, desconhece linha reta nos limites do pavimento novo, tem partes que acumulam água nas chuvas e não tem qualquer ajuste adequado nas bordas de contato entre concreto e pedra portuguesa, que pode levar o pedestre (deficiente ou não) a “trupicar” e acidentar, como diriam alguns de seus frequentadores ilustres. E onde estão as tomadas, totens com QR code e outras modernidades prometidas no memorial da obra? Mesmo bebedouros e lixeiras permanecem os mesmos.
O prazo inicial previsto no contrato era de 180 dias de obra, já passamos de 500 dias e está longe, bem longe de acabar. Como a maioria da Câmara apoia o prefeito, não há problema algum, até porque a própria Câmara também está fazendo uma obra em sua sede que nunca termina, fato que deveria levar a uma reflexão dos governantes sobre a forma de contratar obras apenas por “menor preço”, o barato tem saído caro para o povo que paga imposto.
O fato é que o desenho da nova praça Barão é, mais uma vez, decisão arbitrária de um projeto “técnico” que destrói o tecido anterior e coloca outro no lugar sem um debate aprofundado sobre os signos que estão presentes na paisagem urbana, na construção de uma identidade e de espaços de pertencimento da sociedade no espaço construído. Projetos modernizantes podem até ter boas intenções e serem necessários, mas o fato é que em Franca a cada 20 anos destrói-se o tecido urbano e o espaço público e coletivo sem ouvir a cidadania sobre o que merece ser conservado, as necessidades reais de melhorias ou a prioridade de tais obras que impossibilitam deixar referências da cidade que existia na memória coletiva.
Não é a toa que Franca, com seus duzentos anos de história, não consegue preservar seu rico passado, a desmemória e amnésia continuada nas ações da própria municipalidade impedem avanços na preservação da história e da afirmação de uma cultura de respeito ao passado construído com tanto sacrifício pelos nossos antepassados.
Mauro Ferreira é arquiteto e urbanista, professor do curso de mestrado em Políticas Públicas da UNESP-Franca.






Mauro não temos o espaço público preservado mas temos um excelente texto que nos remete aos diferentes ciclos históricos com suas particularidades e apropriação do espaço pela população. Infelizmente temos poucos exemplos de preservação do espaço urbano. Feliz França que tem um arquiteto preocupado com sua memória. Parabéns.
Parabéns Mauro. Vc dá uma aula de história pra quem desconhece a história urbana deFranca.
Parabéns ao Mauro por mais uma argumentação preciosa em defesa da civilidade: o que se fez na praça central é obra de bárbaros.
Mauro, que aula! Sua escrita é um verdadeiro documento vivo da cidade. A riqueza de detalhes que você resgata com precisão quase arqueológica faz com que cada parágrafo seja um convite a revisitar Franca não só com os olhos, mas com a alma. São memórias que formam o alicerce invisível da identidade francana, e o que mais dói é ver esse alicerce sendo desfeito em nome de uma modernidade sem memória.
Você traça com maestria o que chamaria de “topografia do esquecimento”, onde cada intervenção urbana parece apagar um capítulo inteiro de quem fomos, e, por consequência, de quem poderíamos continuar sendo. E me permita acrescentar um símbolo dessa desmemória: o desmanzelo da gestão Gilson, que saiu pintando os bancos doados pelas famílias tradicionais da cidade, apagando os nomes que contavam, silenciosamente, uma história de pertencimento e generosidade. Sumiram, sob camadas de tinta apressada, os sobrenomes que ajudaram a erguer esta cidade.
Seu texto é mais que denúncia, é um chamado. Um grito elegante, mas firme, por uma cidade que se lembre de si mesma antes de querer parecer outra coisa. Obrigado por ser, com sua escrita, um dos últimos guardiões dessa memória coletiva que tanto tentam enterrar sob o concreto da pressa.
Que maravilha de matéria, além de nos fazer viajar através dos tempos ainda nos faz abrir os olhos para a triste intervenção que para ser realizada deveria antes de tudo ser validada por profissionais que conhecem os valores de conservação de patrimônio. Não basta a intenção de reformar para melhorar, ou modernizar, há que se considerar que é possivel preservar ao reconstruir. E ainda oferecer o direito às pessoas de se reconhecerem como parte da história desta praça. É obrigação de quem administra os bens públicos fazer com responsabilidade.
Mauro,
Parabéns pela aula ministrada.
Francanos deveriam ler e divulgar.