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Quando se aprende a Ver com o Coração

Em tempos em que a imagem grita mais alto que a essência e a pressa sufoca a escuta, Lina Maria Pietras nos convida a ver com o que realmente importa: o coração. Especialista em autossabotagem e inclusão, premiada na Alemanha e autora do tocante livro Profundolhar, Lina emociona ao compartilhar sua trajetória de superação, autenticidade e consciência como mulher com deficiência visual. Mais do que vencer limites, ela os ressignifica — e com isso, transforma vidas.

“O mundo precisa cultivar um olhar com mais presença, pausa e profundidade — não só para enxergar o outro, mas para enxergar a si mesmo com compaixão”, afirma Lina, que desenvolveu a metodologia Blindspot.Coaching®️ e se tornou referência internacional em liderança humanizada. Para ela, ver não é uma função dos olhos — mas da escuta, da intuição, da empatia. “Hoje, vejo mais com o corpo, com a intuição e com a empatia do que com os olhos.”

Em sua fala firme e sensível, Lina nos lembra que o verdadeiro ato de incluir começa muito antes de políticas públicas: “Inclusão não começa na política pública, começa na escuta verdadeira”. Sua vivência mostra que, por trás de cada deficiência, há um universo de potencial, de escuta refinada, de humanidade em estado bruto — e que só se revela quando o julgamento dá lugar à curiosidade.

Sua história é marcada por pausas profundas, não por fraqueza, mas por escolhas. “Houve momentos em que minha história não cabia nas expectativas que tinham sobre mim”, conta. Ao atravessar dois burnouts, Lina se permitiu encarar o silêncio e ali reencontrou a própria voz. “Transformei esse vazio em palavra — e dessa palavra nasceu Profundolhar.” A obra não é apenas um livro, mas um manifesto sobre como ver de verdade: “O profundolhar é aquele que vai além da aparência ou do currículo: ele vê a inteireza do ser humano, inclusive suas contradições.”

Sua deficiência visual, longe de ser obstáculo, tornou-se alavanca de consciência. “Enxergo agora o que não é dito: as microexclusões, o desconforto, o esforço social para parecer normal.” A partir dessa vivência, Lina questiona padrões e nos provoca: e se as próximas gerações fossem ensinadas a se verem além do espelho?

“Precisamos mostrar, com nossos exemplos, que é possível ser vulnerável e, ainda assim, ser forte.” Ao falar com educadores, famílias e líderes, Lina propõe uma nova narrativa, onde a autoaceitação, o espaço para o erro e a autonomia emocional são pilares. “Quando eu erro diante de uma equipe ou de um cliente, eu reconheço, reflito e continuo. Isso também é ensinar.”

Seu reconhecimento fora do Brasil — especialmente na Alemanha — trouxe aprendizados sobre culturas e afetos. “A inclusão na Alemanha é tecnicamente impecável, mas afetivamente distante. Já o Brasil, mesmo com menos estrutura, tem uma potência relacional, humana e afetiva incomparável.” Em sua visão, ambos os países precisam se encontrar no meio do caminho: estrutura com afeto, norma com história, política com escuta.

E talvez por isso seu movimento “Eu me Vejo” não fale sobre espelhos, mas sobre liberdade: “Me vi como mulher plena no dia em que entendi que minha história não precisava mais ser escrita pelos outros.” Hoje, Lina é um símbolo de coragem sem idealizações. “A maior mentira que minha mente me contou foi que eu só seria aceita se fosse perfeita”, relembra. Ao desmontar esse mito, ela também desmonta a lógica da performance constante. “A perfeição é uma prisão — e a autenticidade, uma porta de liberdade.”

Se o mundo pudesse, por um dia, ver com os olhos de Lina — esses que escutam antes de julgar, que acolhem antes de concluir — talvez fosse mais gentil consigo mesmo. “Quem vê com profundidade, não precisa provar mais nada”, diz ela. E é assim que Lina vive: inteira, presente, livre. Não por ter vencido tudo — mas por ter aprendido a continuar, mesmo quando erra. E isso, talvez, seja o mais profundo olhar que podemos ter.

Re Comparini

É jornalista, radialista, psicóloga e colunista reconhecida pela Abraco (Associação Brasileira de Comunicadores e Colunista⁩s Sociais)

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