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“Franca: um lar de memórias e transformações”

Por Márcia Matos

A minha vida em Franca começa na Vila Raycos. Aquela casa só no reboco e com piso de vermelhão, as janelas eram tampadas com papelão. Não havia asfalto e a venda era logo na esquina acima, onde íamos com a caderneta comprar coisas para a casa. O picolezeiro trocava garrafas por picolés e, quando chovia, fazíamos esculturas com a terra molhada. Na época de eleições, havia comícios em cima de caminhões, e eu sentia que tudo era para transformar a minha vida. Esses momentos eram mágicos para mim, enchendo-me de esperança e expectativa pelo futuro.

Sou a caçula de 4 filhos. Meus pais vieram da lavoura, e por um tempo minha mãe trabalhou como empregada doméstica para ajudar na renda da família. Lembro-me das histórias que ela contava sobre os tempos difíceis e como ela enfrentava tudo com coragem. Depois, meu pai vendeu essa casa e daí começaram as muitas mudanças pelos bairros de Franca, como Jardim Francano, Estação… Essas mudanças traziam novas experiências e desafios, mas também novas oportunidades para fazer amigos e aprender sobre diferentes partes da cidade.

Cada mudança de bairro significava uma mudança de escola. Lembro-me da ansiedade e excitação de conhecer novos colegas e professores, cada escola com seu próprio ambiente e cultura. Mas nada foi tão marcante como estudar na Escola Mário D’Elia. Aquela arquitetura imponente me impressionava, e as aulas de música do professor Goudinho ficaram gravadas na minha memória. As melodias que ele nos ensinava despertaram em mim uma paixão pela música que levo até hoje.

Também me lembro da época em que morei na Estação e íamos ao Centro da cidade caminhando, aproveitando para tomar água na Careta. Caminhar pelas ruas de Franca era um ritual quase diário, uma oportunidade de explorar cada canto e perceber os detalhes que compõem o charme da cidade.

Outra lembrança linda que tenho é o cheiro das frutas do Mercadão. Minha alegria era poder tomar um frapê de abacate com canela e comer um pastel. Esses pequenos prazeres eram um escape da rotina e um momento de felicidade pura. Aqui dentro de mim, há recordações do Clube dos Bagres, e era só de fora que me era permitido. As risadas e conversas que escutava do lado de fora eram uma música de fundo para minhas aventuras infantis.

Franca, minha cidade, meu berço. Me ausentei daqui por alguns anos, mas quando pude retornar, não hesitei, porque cada esquina, cada rua, traz memórias que compõem a história da minha vida. E o melhor foi que Franca me acolheu de braços abertos.

E assim, Franca não é apenas um lugar onde vivo, mas um lar que moldou quem eu sou. Suas paisagens, pessoas e sons estão entrelaçados na minha história, criando uma tapeçaria de lembranças que guardo com carinho. Cada dia em Franca é um novo capítulo em uma história de amor, resiliência e crescimento.

Márcia Matos é francana apaixonada

Esse texto faz parte da série "O que elas têm a dizer", idealizado pela colaboradora Soraia Veloso, em que escritoras de Franca homenageiam a cidade pelos 200 anos, comemorados no próximo dia 28 de novembro. Publicamos um texto por dia ao longo de mais de 40 dias, escritos por mulheres.

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