Colunas

Franca: 200 anos tendo um pezinho em Minas Gerais

Por Mônica Lima

Quando você sai da cidade de Franca e conversa com as pessoas certamente ouve: “Você é mineiro”?

É, não tem como negar. Eu sei que isso acontece. E isso já foi até tema de show de humor. Todo mundo acha que francano é mineiro por causa do sotaque, da fala cantada e do “jeitim”.

Sei que muita gente fala sobre isso. Eu mesma arrisco afirmar que Franca é um pedacinho de Minas dentro do estado de São Paulo.

Inclusive, não sei se você se lembra das aulas da história da nossa cidade. Mas eu recordo que minha professora contou que Franca foi motivo de disputa entre São Paulo e Minas. Foi por pouco, muito pouco mesmo, que não escrevemos Franca-MG. São Paulo ganhou a “guerra”, Franca criou fortificações para evitar as invasões mas, não tem jeito, o sangue de Minas corre nas veias de Franca e os mineiros aqui estão em grande número. Eu brinco que foi apenas uma questão de capricho do Rio Grande. Quase que Franca fica “do lado de lá” do rio.

E esse sentir mineiro não é para menos. Tem coisa de mineiro que todo francano tem ou gosta. Palavras, sabores, expressões…O “cafezim” com “biscoitim”, o irretocável  pão de queijo, as palavras que se pronunciam engolindo as últimas sílabas. Quem nunca ouviu por aqui o cumprimento “Cê tá bão, fiiii”? Eu acho engraçado! Também temos o “uai” (que hoje é patrimônio nacional), o “trem”, o “minino”. Falamos “ocê vai?”, “nepussivi”, entre outras pérolas. E temos o gosto quase que unânime por queijo Minas, seja curado, meia cura ou fresco. Uma paixão. E os doces? Todo mundo tem uma tia ou avó que faz doce de leite, de figo, ou goiabada…mais mineiro impossível. Também tem a cachaça, de sabores variados, que muitos apreciam.

Como se não bastasse, temos em Franca muitos mineiros ou parentes de mineiros. Que vieram para trabalhar ou estudar. Outros vieram para ter uma vida mais calma e alguns para terem mais oportunidades. E eles vêm de muitos lugares.

De Cássia, São Sebastião do Paraíso, Capetinga, Ibiraci, Claraval e Passos. Já da Serra da Canastra, temos gente de Delfinópolis, São João Batista do Glória e São Roque de Minas. Vieram, ainda, muitas  pessoas de Uberaba e Uberlândia. Além de Teófilo Otoni e da capital Belo Horizonte, que ouso dizer que é a capital de estado mais interiorana do Brasil. A cara de Franca.

Eu mesma tenho uma história legal! Meu pai, Washington, é de Delfinópolis (como muitos que aqui moram!) e meus avós paternos são nascidos em São João Batista do Glória. Meu pai, criado em Franca junto com os irmãos e meus avós (que vieram para essas bandas para trabalhar e “estudar” os “minino”), foi fazer faculdade de odontologia na UFMG em Belo Horizonte. Lá, conheceu minha mãe, Lúcia Helena, nascida em BH, que morava em frente à república do meu pai e na mesma faculdade se graduou. E ela se apaixonou pelo mineiro do interior. Casaram-se. Nasceram os filhos: eu, Laura e Rodrigo. Todos, mineiros. Depois de um tempo, com os filhos ainda crianças, meu pai voltou para Franca para trabalhar. E nisso viemos todos. Isso foi lá no início da década de 80. Iniciei, assim, minha história com Franca.

No começo, minha mãe chorava de saudade de BH e meus colegas de escola eram muito cruéis. Sempre fui caçoada porque eu sou a mineira com o sotaque mais arrastado. Cantavam musiquinhas infames. Hoje, eu dou risada. Mas na época, ficava triste. Acho que foi o primeiro bullying que sofri…Até que minha mãe, consolando-me, insistiu para que  nunca mudasse meu sotaque, se assim eu quisesse. E isso me fortaleceu tanto! Então, sou a mineira de BH, todos se acostumaram e, hoje, dizem que tenho um sotaque lindo… Vai entender. O que antes era motivo de chacota, teria virado meu charme? Talvez. Por sua vez, meus parentes de BH dizem que eu “francaneei” e meu sotaque virou uma mistura de Franca e BH.

Seja como for, a mineira de BH tem um coração que pertence à Franca e minha vida foi toda aqui: escola, faculdade, trabalho, família. E daqui não saio. Só para viajar. O fato é que tenho parentes em BH, a cidade é realmente incrível, sinto muitas saudades; mas também tenho Franca como minha.

Tanto que, quando fiz Direito na UNESP, eu, no meio de um monte de gente de fora, era considerada a “francana”. E, ali, fazia o meio de campo entre unespianos e francanos, apresentando as pessoas, misturando meus amigos de Franca com os novos amigos da faculdade. Foi um tempo muito bom! Outra coisa bacana é que me tornei advogada na área de Direito das Famílias e, todo dia lido com as famílias francanas, suas histórias, dores e alegrias. E sempre conheço um mineiro ou alguém que tem família em Minas.

Por essas e outras, sempre me senti “em casa”. Além da proximidade geográfica (lembra que Franca é “pertim” de Minas e quase foi conquistada pelos mineiros?), conto com minha família de mineiros que moram aqui, além de muitos amigos do mesmo estado. E mais: a cidade que em 2024 completa 200 anos possui inegáveis cheiros, sons, gostos e sentimentos de Minas Gerais.

Assim, é absolutamente tranquilo dizer que Franca tem muito mais que apenas uma simples influência de Minas Gerais. Franca é, na realidade, um pedacinho de Minas em São Paulo. E a gente francana, mesmo que alguns neguem, também sente (e vive!) o mais profundo mineirês. Mas e aí? “Cê” concorda?

Para continuar essa prosa e me contar como Minas faz parte da sua vida francana, você me encontra no Instagram @monicalimaadvogada Até qualquer dia!

Mônica Lima é Advogada de Famílias

Esse texto faz parte da série "O que elas têm a dizer" em que escritoras de Franca homenageiam a cidade pelos 200 anos, comemorados no próximo dia 28 de novembro. Publicamos um texto por dia, ao longo de mais de 40 dias, nos estilos de conto, ensaio, poesia… escritos por mulheres. Soraia Veloso, colaboradora deste portal, escritora e francana de coração, é a idealizadora do projeto.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo