A concessão dos pássaros

Por Naiara Alves
Há meses observo, no Poliesportivo de Franca, parte da rotina de um homem nada comum. Estaciona e não sai do carro com pressa, como os outros que ali chegam. Tem gesto demorado. De início eu supunha ser essa tardança filha de uma limitação física: hoje sei que não.
Ao caminhar, tem a mansidão da marcha acompanhada por um andador, uma corda e uma sacola. Assobia cada passo até o destino de sempre, quando ocupa a extensão de três árvores absolutamente distintas entre si: a Árvore da Grande Sombra, a Árvore Irmã e a Árvore Esqueleto.
Grande Sombra é a maior e mais imponente, escolhida para o fim do percurso: ela guarda o espaço de um descanso. Irmã atua como um meio termo, disposta a neutralizar contrastes. Esqueleto é estruturada apenas por galhos, mas é seu vazio quem precede o cerne do rito.
Quando o homem do passo lento chega, a terceira árvore despossui qualquer hiato, ostenta feições de primavera. Seus galhos estão povoados por pássaros que atendem ao chamado em voo, canto e prontidão.
Primeiro, ele amarra a corda entre as Árvores Irmã e Esqueleto. Em seguida, suas mãos trocam os nós pelas alças da sacola, lançando a quirera feito prece pelo chão. O movimento faminto se alastra ao redor de seu corpo sem invadir espaço, sem a mínima intenção de apressar o passo lento, bendizendo o tempo de cada gesto. Um respeito que o relógio do resto do mundo parece desconhecer.
Os galhos voltam a se revelar quando as aves, imitando a queda das folhas, se rendem aos grãos. O vazio da sacola acusa dever cumprido e o homem parte, como um equilibrista, para sua rotina de exercícios na corda. Meu palpite para o lugar escolhido é de que aquelas Árvores, tão convictas à terra, o inspirem a enraizar também os próprios pés.
Permito outra vez que meus olhos, devotos, aceitem o convite para testemunhar a imensidão como se a cena fosse inédita. Sinto que ele me empresta seu relógio e partilha, generosamente, esse Tempo tão raro que tem o peso de um grão.
Desconheço seu nome e história. Tampouco sei se somos conterrâneos. Mas a ele pertence a concessão dos pássaros e a sensibilidade de transformar o cotidiano em um estado de poética secular. O homem, com seu passo lento, é capaz de percorrer as mais desafiadoras distâncias.
Naiara Alves é multiartista francana, trabalha como escritora e artesã. Foi mediadora do clube de leitura Leia Mulheres e uma das responsáveis por organizar o evento Um Grande Dia Para as Escritoras na cidade de Franca
Esse texto faz parte da série "O que elas têm a dizer" em que escritoras de Franca homenageiam a cidade pelos 200 anos, comemorados no próximo dia 28 de novembro. Será um texto por dia, até o final do mês, de crônica, conto, ensaio, poesia… escrito por mulheres. Se você também quiser participar, envie seu texto para [email protected] indicando no assunto: texto para homenagear Franca. Ficaremos felizes com todas participações. Soraia Veloso, escritora e francana de coração, é a idealizadora do projeto.








