Ao Mestre com carinho…

Na segunda metade dos anos 1970, eu lutava para melhorar o meu currículo, porque pretendia deixar de vez as atividades de industriário. Na época, havia uma certeza: sem falar Inglês ninguém tinha grandes chances de sucesso na vida. Me matriculei numa antiga escola de línguas estrangeiras de Franca e passei a fazer aulas aos sábados à tarde, que era o tempo que me sobrava. Dei passos animadores no início. Mas quando a professora passou a ensinar gramática comparada, notei que nem eu nem ela sabia gramática portuguesa… Saí do curso de Inglês e me matriculei no Curso de Português Luiz Cruz, no mesmo período: sábado à tarde. Era o próprio professor Luiz Cruz que ministrava as aulas. Um fenômeno! Em poucos dias eu já havia memorizado uma quantidade de regras maior do que aprendera em toda a minha vida. A metodologia dinâmica, estimulante, a postura séria e bem humorada do professor faziam com que nos interessássemos pelas aulas e pelas regras da língua culta.
Em pouco tempo concluí o curso de Português e fui convidado pelo professor para as reuniões em que se debatiam obras literárias, nas mesmas tardes de sábado, após as aulas. E foi aí que nasceu o Grupo Veredas, liderado pelo mestre Luiz Cruz. Nas reuniões líamos obras literárias sentados em cadeiras de braço da sala de aulas, em formação circular, cada um com o seu exemplar nas mãos. Reinava uma grande alegria, porque havia esperança em um futuro melhor e o Mestre tinha a ver com isso. Fomos incentivados a escrever nossos próprios textos. Foi criada a Revista Veredas, em que eram publicados os melhores trabalhos do grupo, depois de corrigidos e discutidos com o professor. Logo alguns escritos chamaram a atenção do Cruz, como os de Roberto Zanini, do Nélson Damasceno, do Sebastião Silvério da Silva, e viraram objetos de discussão no círculo literário.
Vez ou outra circulavam entre nós os filhos do Mestre, o Dedé, seu xará, e a Maninha, ambos crianças à época. O clima era de um grande família. Também participaram do Veredas professores qualificados, como Sebastião Expedido Ignácio, Regina Helena Bastianini, e poetas de peso, como Carlos de Assumpção, mestre maior na arte de protestar e atrair para sua luta pela igualdade racial, mais ingente do que a que todos nós travávamos de modo dissimulado contra a ditadura militar que governava. Dentre os calouros, outros escritos iam melhorando com as lições do incansável professor Cruz. Claro que a maioria dava trabalho ao Mestre, ao insistir na publicação de textos ainda verdes. Como a revista era um experimento, aos poucos todos vimos nela estampadas nossas obras incipientes, algumas denotando algum de futuro, outras nem tanto…
Essas lembranças me brotaram porque acabei de ler “A Semana – o Antes e o Depois”, obra escrita pelo professor Luiz Cruz de Oliveira e sua filha, a doutora Marilurdes Cruz Borges, a Maninha, em que estudam a influência da Semana da Arte Moderna na literatura brasileira. A clareza didática e a escolha dos textos ilustrativos transmitem o clima da época. Terminada a leitura, a impressão é a de havermos participado da Semana da Arte Moderna lá em 1922! Os acontecimentos precedentes, a expectativa, o movimento para a divulgação, a efervescência cultural na Capital Paulista, a preparação, as incertezas, os embates exacerbados, a resistência às novas ideias… A semelhança, o clima que ficou da leitura, inevitavelmente me evocaram da memória os tempos do Grupo Veredas, a sua vanguarda em debater e divulgar literatura numa época de obscurantismo cultural. Fato que, também, sem nenhuma dúvida, trouxe influência para o desenvolvimento da literatura francana.
No Grupo Veredas não aprendemos apenas literatura. Fomos treinados a enfrentar os desafios, que quase sempre bolem nos alicerces de nossa estabilidade. Eu, de meu lado tinha dificuldade em deixar a zona de conforto para mirar novos horizontes, dar passos para além do pátio das fábricas, das oficinas. Tive dificuldade para entender que no ponto de equilíbrio que nos dá segurança muitas vezes estão os grilhões que nos escravizam.
Por conta desse descompasso de ritmo de vida, lembro-me de passagem interessante que descrevo com carinho, porque traduz em parte o espírito inquieto e dinâmico do Mestre. No início da sua carreira de escritor, quando lançava suas obras, o Cruz costumava montar uma banca na praça de Franca e vender pessoalmente os seus livros. Numa tarde do início dos anos 1980 encontrei-o numa esquina próxima ao Banco do Brasil nesse mister. Notei que estava ali há algum tempo e o convidei para tomar café na Praça Barão. Deixamos os livros na entrada do banco e saímos. O Cruz, a passos largos, como sempre. Eu tentando segui-lo. Chegamos. Ele fez o pedido, solicitando à moça que me servisse primeiro. Vieram os cafés: o meu primeiro, como pedido. Um minuto depois, o dele. Enquanto eu assoprava e queimava a boca tentando beber o líquido incandescente vi que ele já acendia um cigarro. Insinuei largar a xícara e pagar a conta, afinal eu havia feito o convite. Mas o Cruz fez um gesto com a mão: “pode tomar sossegado, Zé. Eu vou indo tenho…” Não entendi o resto da frase. Quando chegou à calçada parou e olhou para trás, ligeiro: “Ah, eu já paguei, tá? Depois você aparece lá em casa, estou precisando falar com você.” E desapareceu pelo calçadão da Praça Barão.








Que texto gostoso de ler! Professor Luiz Cruz, eu que não sou de Franca, mas muito ouvi falar do Sr., que já frequentei o Grupo Veredas como voluntária e colaboradora, adorei saber como ele nasceu. Parabéns Dr. José Borges, parabéns Mestre Professor Luiz por todas as iniciativas e obrigada aos dois! Talentos maravilhosos!