“Maninha”
Vinda dessas cidades que morreram após a Geada Negra de 1975, que dizimou os cafezais do Norte do Paraná, Carolina trazia consigo apenas a certidão de nascimento e a roupa do corpo, naquele distante Janeiro de 1979.
Veio pelas mãos da madrinha, que confiou a menina aos cuidados de minha mãe, recomendando:
-A senhora faça o melhor que puder por ela, que ela não tem mais ninguém nesta vida e eu mesma dela não posso tomar conta porque tenho mais sete filhos pra criar!
Minha mãe precisava de ajuda naquele Janeiro de 1979, eram três filhos – o mais velho com 10, eu com 4 e o caçula com 2 anos – e a casa toda para administrar. Embora muito menina e sem experiência alguma, Carolina poderia dar uma boa mão, apesar de ainda nem ter completado 13 anos.
Eram tempos em que as casas e apartamentos contavam com dependências de empregada e assim foi que minha mãe arrumou o quarto e o banheirinho da Carolina. Tudo ficou tão bonito e organizado que foi naquele dia que vi pela primeira vez o sorriso da Carolina que – em poucos dias, depois de cuidar e de brincar com a gente – passou a ser a Carol, muito mais nossa irmã do que empregada.
No final de Março de 1979 ela começou a frequentar a escola estadual que ficava na esquina de casa. Minha mãe encapou os livros e cadernos da Carol e ao deixá-la na escola, pela primeira vez, voltou chorando baixinho pela rua, de olhos baixos. Eu quis saber o porquê e a mãe respondeu que tinham coisas na vida que a machucavam e que dava uma vontade de chorar, que era uma mistura de pena com um sentimento danado de impotência. Eu ouvi aquilo e não entendi nada.
Um dia a mãe deu um radinho de pilha pra Carol e ela daí ficava pra cima e pra baixo com aquele radinho. Ouvindo música, ela varria a casa e cuidava da gente; cozinhava e lavava a louça. A Carol dançava no meio da sala fazendo de conta que a vassoura era o seu par e isso arrancava risos meus e do meu irmão menor. Eu ficava feliz vendo a Carol sorrir!
Só que teve um dia que eu encontrei a Carol chorando sentada no chão da cozinha, com o radinho nas mãos. Tocava uma música bonita e triste, que dizia:
“Carolina
Nos seus olhos fundos
Guarda tanta dor
A dor de todo esse mundo
Eu já lhe expliquei que não vai dar
Seu pranto não vai nada mudar
Eu já convidei para dançar
É hora, já sei, de aproveitar
Lá fora, amor
Uma rosa nasceu
Todo mundo sambou
Uma estrela caiu
Eu bem que mostrei sorrindo
Pela janela, ói que lindo
Mas Carolina não viu”.
Eu perguntei pra Carol por que ela estava chorando e ela falou de um jeito que parecia até a minha mãe: “há coisas na vida que machucam e que dão uma vontade de chorar, é um aperto que dá aqui no peito, que parece que a tristeza nunca que vai passar!”.
Eu ouvi aquilo e não entendi nada, mas abracei forte a Carol com medo que ela fugisse dali e me deixasse sozinho com aquela tristeza.
O tempo passou e a gente foi crescendo juntos – no mesmo apartamento, cada vez mais apertado, porque as pessoas têm mania de entupir a casa com móveis e eletrodomésticos como se isso fosse sinal de sucesso! Até que, em Janeiro de 1989, a Carol comunicou para a minha mãe estar indo embora.
Ela conhecera um cara e estava grávida dele. Já não era a menina de 10 anos atrás. Queria mais do que as dependências de empregada, mais do que o radinho, a tevê de 14 polegadas, mais do que três ou quatro mudas de roupas. Queria casar, ter filhos, construir uma vida além daquelas paredes.
Minha mãe tentou convencer a Carol a ficar com a gente, mas não teve jeito. Carol foi embora naquele dia mesmo pra nunca mais voltar!
No dia seguinte, lembro da mãe arrumando o quarto da Carol. Ela ligou o radinho de pilhas da Carolina e uma música triste tocou:
“Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi!”.
Enquanto dobrava cobertores e lençóis, a mãe chorava baixinho, de olhos baixos. Eu já não precisava saber mais nada. Naquele dia aprendi que há coisas na vida que machucam e que dão na gente uma vontade de chorar, que é uma mistura de pena com um sentimento danado de impotência. E tudo isso misturado com alegria e com saudade, que no final das contas é o que a gente chama de vida!
Dia desses, era um final de tarde, bem na hora em que o Sol baixa no horizonte para que tudo vire noite. Naquele instante, uma faixa vermelha de Sol ia sendo empurrada pela escuridão muito maior que vinha de longe e que a tudo e a todos abraçava. Uma angústia pesada em mim. Liguei o rádio e ouvi a canção do Chico:
“Se lembra da fogueira?
Se lembra dos balões?
Se lembra dos luares dos sertões?
A roupa no varal, feriado nacional
E as estrelas salpicadas nas canções
Se lembra quando toda modinha falava de amor?
Pois nunca mais cantei, oh maninha,
Depois que ele chegou
Se lembra da jaqueira?
A fruta no capim
Do sonho que você contou pra mim
Os passos no porão
Lembra da assombração?
E das almas com perfume de jasmim
Se lembra do jardim?
Oh maninha, coberto de flor
Pois hoje só dá erva daninha
No chão que ele pisou
Se lembra do futuro que a gente combinou?
Eu era tão criança e ainda sou
Querendo acreditar, que o dia vai raiar
Só porque uma cantiga anunciou
Mas não me deixe assim
Tão sozinho a me torturar
Que um dia ele vai embora,
Maninha, pra nunca mais voltar!”
E lembrei da Carol, e chorei de saudades, e depois sorri ao recordar como era lindo o sorriso da minha irmãzinha Carol quando brincava com a gente e quando dançava no meio da sala fazendo de conta que a vassoura era seu par!
Maninha, a gente foi feliz!






