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Abençoado Telefone

Os contos de causos de amor, paixões, entreveiros, desavenças e absurdos não é mais o principal interesse da família. A luz de lamparina foi substituída pela elétrica deixando as pessoas mais distantes dentro de casa. O aglomerado que era em torno da mesa próximo ao fogão, migra para outro canto da sala que antes tinha apenas sofás, quadros de familiares antigos, relógio e altar em um dos cantos.

O hábito do brasileiro tornou-se sentar diante a televisão, para ver questões que antes eram entoadas nos falatórios da cozinha. Agora, o interessante é a representação da rotina da sociedade que passa na tela. No ano de 2012 estava em alta a novela das oito Avenida Brasil. Diante aquele sucesso, enfatizo a rotina do dia a dia de trabalho dentro de uma central de Call Center. Vejo vários personagens, se existir o céu posso falar que o inferno é literalmente a casa do jogador aposentado Tufão e a respectiva central.

A cada toque daquele abençoado telefone, na repartição ao lado vejo a primeira personagem: Carminha, mostrando seu lado psicopata ao digitar uma observação (risos). Na movimentação rápida dos dedos o teclado é castigado, e os cabelos estilo “Albert Einstein”, chegam dar medo. Fora das paredes do trabalho a “Carminha” é sinônimo de manguaça, eu me torno o Max pé de cana, e quando toca o telefone, viro o homem capeta – minha vontade é dar uma bicuda no aparelho.

Ganhava pouco, mas me divertia muito. Mais ao fundo o “libera geral”: Leléco. Era ótimo parceiro para tomar uma ceva gelada, e trocar ideia a respeito de comidas mineiras e temas filosóficos. A cada episódio da novela real, tento usar da experiência para não enlouquecer, e me tornar o personagem Nilo. Pois, mesmo em minha casa continuava trabalhando, sonhando com o trabalho, igual o Tufão sonhava estar jogando na final do campeonato.

Aquelas seis horas eram sofridas, ficávamos loucos com tantas ligações. Eram em torno de cem por dia. Brincávamos que era mais fácil chegar meia noite, do que o horário de ir embora. Ali tinha de tudo: gonzo, dálmata, Carminha, Max, Leléco e Zeca Urubu, Crazy Frog entre outros. Então, pronto. Na linguagem do nordeste termino essa brincadeira real do cotidiano com headset.

Dione Castro

É administrador de empresa, estudante de gestão empresarial pela Fatec, graduado em direito e um eterno curioso.

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