Livro em quadrinhos faz viagem pelo samba paulistano

Tempo Discos passeia por fatos importantes da vida e obra de Adoniran Barbosa de forma bem-humorada
O Arnesto nos convidou prum samba, ele mora no Brás…
É curioso como a leitura destes simples versos remete automaticamente à letra completa e à melodia do famoso Samba do Arnesto, gravado pela primeira vez por Adoniran Barbosa há mais de 60 anos. É igualmente curioso que mesmo tendo raízes tão paulistanas, a obra musical de Adoniran seja reconhecida e cultuada em qualquer canto do Brasil.
Mas o que aconteceria se o sambista não tivesse se encontrado com o violonista e advogado Ernesto Paulelli e prometido compor uma canção para ele? Esta é a premissa de Tempos Discos, livro em quadrinhos lançado pela Zapata Edições, na qual o roteirista, jornalista e produtor Rodrigo Febronio homenageia seu sambista favorito.
“Adoniran foi um multiartista e um dos grandes cronistas da vida paulistana. Foi uma delícia fantasiar e especular como teria sido a gênese das músicas dele e ainda criar um vilão que pretende roubar seu legado musical”, diz o autor.

Samba roubado
Na trama de Tempo Discos, o legado de Adoniran é ameaçado pela inveja de Gerson, que junto com seu amigo Paulo, inventa uma vitrola mágica que permite a viagem no tempo. Músico frustrado, Gerson enxerga nisso uma oportunidade de voltar para o ano de 1952, apoderar-se da criatividade de Adoniran, transformar o Samba do Arnesto no Pagode do Gerson e ficar com a fama que o futuro reservaria ao sambista. No tempo presente, Paulo percebe que a marcha da história foi alterada e, com ajuda de sua assistente Aline, também volta ao passado para impedir as maquinações do amigo.
A partir daí, Febronio presenteia os leitores com uma abordagem bem-humorada de passagens importantes e reais da vida e obra de Adoniran: o primeiro encontro com “Arnesto”, as gravações com os Demônios da Garoa, o relacionamento com a enigmática Iracema e com Matilde, sua companheira por mais de 40 anos, a ação de despejo que inspirou a canção Saudosa Maloca, e por aí vai.
Os leitores se divertem reconhecendo as referências a estes e outros fatos no decorrer da história. Mas para quem não pegar todas, o livro tem uma rica seção de extras no final que ajuda nesta tarefa.
Paixão de infância
Febronio conta que a ideia desta HQ surgiu em 2016, como roteiro para uma série de TV, em parceria com os também roteiristas Gabriel Gallindo e Yuri Teixeira. O projeto não vingou, e anos depois ele o transformou numa história em quadrinhos que foi selecionada no ProAC-SP, um programa de financiamento de projetos culturais mantido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo. A arte é Samuel Sajo e Al Stefano.
“Meu fascínio começou quando eu ainda era criança e ganhei, do meu saudoso pai, Nelson, uma coletânea das melhores músicas do Adoniran. O tempo passou e Adoniran seguiu sempre comigo. Aprendi com ele que é possível escrever histórias sobre gente comum, sobre a quebrada de onde a gente vem, sobre o que a gente quiser e da forma que a gente quiser”, relembra Febronio.
Quem foi Adoniran Barbosa
Nascido em 1910 em Valinhos, cidade da região de Campinas, João Rubinato – ele só adotaria o nome Adoniran Barbosa aos 22 anos, quando se mudou para a capital paulista – começou a cantar em 1934 e, no ano seguinte, venceu o concurso de marchinhas de carnaval da prefeitura de São Paulo com Dona Boa.
Nos anos seguintes, lançou três discos, mas todos fracassaram. O primeiro sucesso veio em 1955, quando os Demônios da Garoa gravaram Saudosa Maloca. Neste intervalo, Adoniran trabalhou como ator de rádio e de cinema, no qual participou dos filmes Pif-Paf (1945) e O Cangaceiro (1953). A nova fase rendeu a ele um programa humorístico na Rádio Record, e em seguida vieram outros sucessos: Tiro ao Álvaro (1960), Trem das Onze (1961), Despejo na Favela (1969) e muitas outras.
Diplomado Professor Emérito pelo Instituto Musical de São Paulo (1975), Adoniran Barbosa morreu de enfisema pulmonar em 1982, consagrado como um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira.
SERVIÇO
TEMPO DISCOS
Roteiro: Rodrigo Febronio
Arte: Samuel Sajo e Al Stefano
Edição: Daniel Esteves
Formato: 96 páginas em preto e branco, capa colorida
Preço: R$ 10 (e-book) e R$ 44,90 (impresso)
À venda em www.zapataedicoes.com.br







