Opiniões

A Psicologia das Multidões

Enquanto vão sendo recompostas as estruturas dos mais variados serviços públicos e sociais do País e apurados os erros do governo que acabou em 2022, na visão do atual, muitos dos vândalos que depredaram as sedes dos Poderes da República no dia 08 de janeiro jazem presos em Brasília. É provável que boa parte dessas pessoas estejam arrependidas, porque não compreendiam nem eram capazes de compreender as dimensões políticas e históricas dos seus tresloucados atos. Muita gente simples que seguiu a horda de arruaceiros seria incapaz de tais loucuras no dia a dia de suas vidas. Tudo indica que foram se acostumando com as barbaridades discutidas sob a ilusória camuflagem das redes sociais e não mediram as suas ações. Alvos fáceis de influenciadores na arregimentação, durante as ações se deixaram levar pela segurança ilusória que parece transmitir as multidões em movimento.

A psicologia das multidões, segundo Gustave Le Bom, (em análise realizada um século antes das redes sociais!), não guarda correspondência com a dos indivíduos que a compõem – Psicologia das Multidões, 1895. Na verdade, a psicologia das multidões é estimulante objeto de estudo não só da Psicologia, mas também da Sociologia e as conclusões são no sentido de que, integrando uma multidão os indivíduos abandonam os traços da própria personalidade e adotam outros consentâneos com a personalidade daquele que estimula a massa. Perdendo a capacidade de raciocínio lógico individual, podem ser conduzidos a realizar ações fora dos seus padrões normais de comportamento. A questão é controvertida, havendo críticas no sentido de não haver comprovação científica do efeito da massa sobre o indivíduo. Mas, na prática, são bem conhecidas as ações de torcidas organizadas do futebol, dos movimentos sociais etc. E sempre com históricos de violência e depredações. Não é difícil perceber que a maioria dos atos criminosas de Brasília foram anormais para muitos dos seus executores!

Todos os que viveram no final do século passado ou que já leram sobre os movimentos sindicais, iniciados ainda no século XVII, com a Revolução Industrial, sabem da dificuldade que representa reunir pessoas, para qualquer que seja o objetivo. Nos anos 1970 e 1980 do século passado era comum ver líderes dos sindicados parados ao lado da porta das fábricas com um megafone nas mãos, conclamando operários para reivindicações salariais e para o movimento sindical. Embora fossem do interesse dos operários, no início, poucos aderiram.

        O próprio presidente Lula frequentava as portas das fábricas do ABC paulista (a sigla corresponde às letras iniciais do segundo nome das cidades de Santo André, São Bernardo e São Caetano) com o seu megafone na porta das principais indústrias automobilísticas. Hoje, com as redes sociais, esse trabalho ficou muito mais fácil, não só para os fins das reivindicações salariais. Agora o trabalho se resume a conhecer o perfil dos indivíduos para o contato, e enviar matérias que sejam do seu agrado. Feito o primeiro contato, é só alimentar o “seguidor” com informações “de consumo” de sua preferência!

Diferentemente e além das preocupações do médico Le Bom, no final do século XIX, que alertava os governantes para conhecerem a psicologia das multidões que governavam, hoje os governantes precisam conhecer as redes sociais e suas multidões. Aliás, nesse sentido é a última medida do atual Ministro da Justiça: regulamentar, no que for possível, as ações de violência combinadas através das redes sociais – visando conter a onda de ataques a escolas, feitas por alunos, que tem assombrado o País nos últimos dias.

Disso tudo resulta uma constatação preocupante: o quanto é ingênua, sem firmeza de caráter e de princípios, grande parte das massas que compõem a sociedade. Enquanto isolados em rincões distantes, os seus componentes são pessoas inofensivas. Mas, se arrebanhados em multidões, são capazes de ações imprevisíveis, inclusive de crimes hediondos.

Ao que parece, em todos os tempos, as massas tiveram essas características. Saber se tem havido evolução desse comportamento nos tempos atuais, parece ser um novo desafio para a Psicologia e para as ciências sociais…

Dr. José Borges

Advogado (Formado em Direito pela Faculdade de Direito de Franca); especialista em Direito Civil e Direito Processual Civil e em Direito Ambiental. Foi Procurador do Estado de São Paulo de 1989 a 2016 e Secretário de Negócios Jurídicos do Município de Franca. É membro da Academia Francana de Letras.

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