Jovemfobia

Não sou criminoso, mas se o Supremo Tribunal Federal equiparar “jovemfobia” a algum tipo de crime, serei réu confesso.
Sim, eu sou ‘jovemfóbico’!
O jovem me acha ultrapassado e calvo. Eu os acho arrogantes e tolos. Há reciprocidade nesse ódio geracional.
Há alguns dias, algumas jovens universitárias zombaram de uma aluna de 44 anos, dizendo que ela era velha e deveria estar aposentada.
Isso me lembra uma passagem numa peça teatral de Nelson Rodrigues. Arandir assiste a um homem ser atropelado, e atende ao último pedido do moribundo: ‘um beijo na boca’. Cena vista por um repórter sensacionalista, que publica a notícia e destrói a reputação de Arandir.
O gesto gravado pelas jovens universitárias nada teve o valor solidário do gesto de Arandir, muito pelo contrário. Além disso, elas não precisaram de um repórter de imprensa marrom, elas mesmas gravaram a zombaria, publicaram na internet e destruíram suas próprias reputações.
É certo que idosos sofrem preconceito e intolerância. Em fato acontecido num fórum de uma cidade desconhecida e distante, um senhor, já com cabelos brancos e com curvatura na coluna, comparecia toda semana para conversar sobre processo de seu interesse contra o INSS. Os funcionários, cuja impaciência e irritação aumentavam a cada semana, o dispensavam o mais rápido possível. Eles não perceberam que o velho só queria sentir calor humano e contar um pouco da sua vida de solidão.
No mesmo fórum, um homem, jovem, taludo e óculos escuros, acompanhado de seu advogado, era tratado com respeito, educação e até lhe era oferecida uma xícara de café. O homem, autorizado a ‘aguardar o julgamento em liberdade’, havia dado um tiro na cabeça da esposa. Diziam os funcionários que “o réu merece respeito!”.
O leitor deve estar pensando: “Mas, você também foi jovem”. E eu digo: “Não foi minha culpa!”.
Dia desses encontrei minha carteira do serviço militar, olhei a foto de juventude, e me lembrei que, tal qual o jovem de hoje, também éramos estúpidos.
Me lembro bem de uma briga entre dois amigos, que pararam de se falar depois de um debate sobre quem era a mais bela: Feiticeira, Tiazinha, a morena ou a loira do Tchan. Só voltaram a se falar depois que a dupla de Sheilas, dançarinas do grupo baiano, posou para a revista Playboy.
Já vi casos parecidos atualmente, mas com mudança de atores.
Conheço dois jovens que não se falam há anos por causa de uma discussão sobre quem era mais belo, digo, melhor: Eduardo Bolsonaro ou Guilherme Boulos. Creio que voltam a se falar quando Luiz Inácio e Jair posarem juntos para um ‘santinho’.
Para encerrar o assunto das universitárias ‘velhofóbicas’, obviamente elas foram estúpidas e agiram como idiotas, afinal, são jovens. Foram expostas na internet e caíram no ridículo, na vergonha e na humilhação.
Isso basta e, de maneira nenhuma, isso deve ser tratado como crime.
Num país que entra em êxtase gritando e festejando imorais, a estupidez é, sobretudo, um direito do jovem. Faz parte do aprendizado que a vida lhes proporciona.
E se, mesmo assim, elas não aprenderem nada, sempre haverá um boné do MST ou uma camiseta ‘Deus, pátria e família’ para esconderem a vergonha.






