Inspirados

Às meninas do Passeio Público

Inconsciente coletivo curitibano: dizer que uma mulher não presta é compará-la a uma prostituta do Passeio Público. “Uma prostituta do Passeio Público, é isso que ela é!”. Ouvi essa expressão repetidas vezes, sem que antes tivesse visto o rosto de uma prostituta do Passeio Público, ou nelas tivesse reparado com maior atenção, apesar de tantas vezes ter sido abordado. “Vamos, amor?”, ao que sempre respondi “Hoje, não!”. Oferta e resposta automáticas, como se o que me tivesse sido ofertado fosse um panfleto, desses que a gente recebe e descarta no próximo lixo, ou se nega mesmo a receber. A vida transformada em objeto de pouco valor. Mulher em Curitiba, quando não presta, é prostituta do Passeio, como se as prostitutas daquela esquina personificassem todo o mal, toda a imundice, tudo que há de podre e que merece reprovação. A esquina da Presidente Faria com a Presidente Carlos Cavalcanti. Poderia ser a esquina dos Presidentes, mas é a esquina das prostitutas do Passeio Público. Naquela esquina há um restaurante onde almoço todos os dias. Da janela posso ver a esquina em sua plenitude. Os carros, os pedestres, os guardas-municipais, os estudantes e as prostitutas. Chova ou faça sol, elas cumprem o seu expediente. Dia desses, mesmo a distância, entre uma garfada e outra, reparei na mulher que estava na esquina. Fiquei pensativo. Que futuro terá? Talvez encontre, no próximo programa, o homem que mude sua vida; talvez encontre seu assassino. Fiquei pensando no presente e no passado dela. Na esquina, a mulher ri. Talvez esteja lembrando o dia em que chegou em casa, nessas cidades mortas do interior do Paraná, orgulhosa por ter tirado a maior nota da sala na prova difícil que lhe exigira estudo e concentração. A mãe orgulhosa e o plano de um dia ir pra cidade grande estudar e ser quem sabe uma médica, pra ajudar os outros. “Vou ser médica, mãe!”. Na esquina a mulher ri, não sei se por ter revivido a lembrança boa da infância que lhe causou inesperado contentamento, não sei se por perceber o quanto os planos que fazemos fogem do nosso controle. “A médica que virou prostituta!” e depois o riso de autoironia. A distância o riso dela me intriga. Passo no caixa e acerto meu almoço. Peço à moça um chocolate. Atravesso a rua em direção à mulher que desde cedo – e desde sempre – oferece o corpo. Pergunto-lhe o nome. Sueli. Ofereço-lhe o chocolate. Ela sorri e provoca: “Como eu faço pra te pagar, amor?”. Sorrio de volta e digo que o sorriso dela já tinha quitado a conta. Ela abre o chocolate e o morde com vontade. “Parece o gosto da minha infância lá no interior do Paraná, moço!”. Fecha os olhos e quando os abre uma lágrima escorre pela face. A lágrima sob o sol do meio-dia chega a brilhar na face fortemente maquiada. Ela agradece de novo “obrigada, moço!”. É de perto que a gente vê que as prostitutas do Passeio Público são mulheres que têm rosto e coração.

Rafael Fonseca Lemos

49 anos, é Advogado em Curitiba-PR

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