Opiniões

Alcances psicológicos da pandemia: como ser resiliente em meio ao caos?

Por Douglas Buzoni

Após um ano de pandemia ainda continuamos com muitas incertezas. Em especial, sobre quando veremos o fim desse furacão que atravessou a vida de todos, produzindo em maior ou menor escala, intensa destruição. Como se não bastasse todos os sintomas que a Covid é capaz de produzir fisicamente, temos percebido que ela produz diversos sintomas em níveis mental e emocional. E pior: não é preciso estar infectado com o vírus para que isso aconteça. Podemos dizer, em certa medida, tratar-se de impactos psicológicos tanto do vírus quanto da pandemia que ele nos trouxe.

As mudanças no estilo de vida da população e a consequente limitação de sua liberdade, o alto risco de contágio e de vida que todos corremos e a enxurrada de notícias ruins com as quais somos bombardeados diariamente são alguns dos fatores que tornam este período um dos mais desgastantes mental e emocionalmente pelo qual a população mundial passou nas últimas décadas. Possivelmente, semelhante a ele tenha sido somente o período das duas Guerras Mundiais. Talvez se possa acrescentar a ele o período da Gripe Espanhola, a qual é evocada com alguma frequência em telejornais, principalmente para debater questões relativas ao comportamento mundial frente a questões sanitárias. Apesar de ser uma referência histórica importante, quase ninguém vivo hoje era nascido naquela época. Com isso, ninguém vivo hoje tinha de fato uma referência sobre como lidar com uma pandemia, principalmente no Brasil. E isso, por sua vez, se tornou mais um fator agravante das questões psicológicas. A dificuldade – pra não dizer a resistência – que muitos brasileiros apresentaram em utilizar máscara e outros cuidados básicos em seu dia a dia nos provou isso.

Pessoas diferentes tendem a ser impactadas de formas diferentes pela ameaça da Covid. Mesmo assim alguns fatores são semelhantes em todos. Explico: é bastante provável que uma pessoa que não tenha sido infectada com o vírus e que não conheça ninguém que tenha sido e que por consequência não tenha perdido nenhuma pessoa querida para a doença sinta, por exemplo, menos medo do que alguém que já tenha passado por tudo isso. Embora isso seja algo bastante individual, é provável que imaginar como seria seja um pouco diferente de experimentar na própria pele. Aparentemente os impactos causados relacionam-se com o nível de saúde mental e emocional que a pessoa tinha antes da pandemia. Pessoas que já sofriam, por exemplo, de depressão estão pré-dispostas a intensificarem os sintomas em maior escala, se comparado a pessoas que não sofriam desse mal antes do surgimento da Covid.

Proponho, então, um quadro mais ou menos homogêneo dos impactos psicológicos da pandemia. Os sintomas mais comuns tendem a ser:

  • Ansiedade.
  • Insônia.
  • Compulsão alimentar.
  • Fobia social (com a fantasia de que qualquer pessoa que chegue perto esteja com Covid, automaticamente lhe transmitindo o vírus).
  • Hipocondria (preocupação exagerada com a saúde, incluindo-se, aí, excesso dos cuidados recomendados – em nível neurótico –, como por exemplo, lavar as mãos após pegar em seus próprios objetos de uso pessoal, sem que tenham sido usados por outra pessoa).
  • Medo excessivo da morte ou de que alguém querido morra.

Há, inclusive, pessoas que caminham na direção oposta: sentem-se tão pressionadas que começam a negligenciar a si e aos demais, deixando de tomar os devidos cuidados, com o discurso de “só se vive uma vez” e continuam levando o mesmo estilo de vida de antes da pandemia, colocando a si e aos demais em sério risco. É verdade que há pessoas que não levam a sério os reais riscos que a Covid oferece e por isso negligenciam. Aqui, entretanto, me refiro a algumas pessoas que reconhecem os perigos e usam da negligência como válvula de escape (o que em nada retira de seus ombros a responsabilidade por seus atos inconsequentes). Apoiam-se num medo de não viver o presente e, por vezes, deixam de viver o futuro.

Em nosso livro “Consciência Emocional: o Manual do Paciente”, publicado pela editora Autografia, com previsão de lançamento para Maio de 2021, proponho que em situações aflitivas como a que estamos atravessando, é necessário que primeiro se compreenda que tipo de pensamento estamos tendo; somente assim compreenderemos as emoções que eles desencadeiam, sendo que apenas a partir daí poderemos modificar o comportamento que eles nos provocam.

Tudo começa nos pensamentos, quer percebamos, quer não. O pensamento dispara uma resposta emocional e ambos, juntos, produzem o comportamento correspondente. Há pensamentos que, num primeiro momento, não nos estão acessíveis à percepção. São chamados de inconscientes. Contudo, percebamos ou não, eles estão ali, nos apontando o caminho a seguir, e se não forem direcionados para nosso crescimento, nos farão cair em baixa autoestima e em comportamentos destrutivos a médio e longo prazo.

É realmente incrível a quantidade de pensamentos subjacentes que vão emergindo na medida em que avançamos em nosso autoconhecimento. Se estamos nos sentindo com alguma espécie de medo – por exemplo – com relação a algo ou alguém específico, basta que comecemos a nos questionar sobre os porquês de estarmos assim. Pensemos numa situação hipotética, mas perfeitamente possível:

Imagine que você entrou em contato com alguém que estava infectado e não sabia que estava. Um colega de trabalho, por exemplo. Você recebe a notícia sobre a infecção e a pessoa fica duas semanas em isolamento. O correto é você também fazer exames, mesmo que esteja sem sintomas e observar em si mesmo (a) se surge algum sintoma dentro destas duas semanas.

Caso o seu exame dê negativo, você esteja sem sintomas e tanto você quanto a pessoa que está infectada tenham mantido todos os devidos cuidados quando estiveram em contato (uso da máscara, distanciamento, álcool gel, etc), não há motivos para grande alarde de sua parte. É preciso, sim, avisar às pessoas próximas a respeito para que possam ser testadas também. Claro que dadas as circunstâncias que vemos diariamente, haverá sim medo com relação à própria saúde, contudo, ficar o tempo todo repetindo para si que está condenado (a) e que irá morrer em nada ajuda; na verdade, a depender da pessoa, isso é até capaz de criar alguns sintomas por meio da somatização.

Devemos sempre lembrar que ser resiliente não é não sofrer ou não ser verdadeiro com o que está pensando ou sentido. Ao contrário, é ser capaz de atravessar os momentos de sofrimento sem enlouquecer, procurando encontrar soluções possíveis para cada dificuldade, conseguindo crescer com isso.

Apresento, então, dez possibilidades de enfrentamento às dificuldades psicológicas que a pandemia tem imposto a muitas pessoas:

  1. Procure uma psicoterapia (presencial ou virtual, o efeito tende a ser o mesmo).
  2. Evite procurar em excesso notícias sobre a pandemia. Para quem tem o hábito, uma vez ao dia basta.
  3. Tenha uma rede de apoio: amigos, familiares, vizinhos, colegas. Claro, sempre virtualmente. Assim poderá dividir suas preocupações com quem lhe quer bem e terá a chance de conhecer os impactos que a pandemia tem causado neles também. Dor compartilhada é dor diminuída.
  4. Encontre um passatempo, algo que você goste de fazer para se divertir. Com os serviços de streaming há grande quantidade de filmes, séries e programas – tanto novos quanto clássicos – disponíveis, o que além de distrair dos problemas abre um novo nicho de interesses para conversas entre amigos. Os livros também continuam sendo uma ótima opção e tem a vantagem de estimular a imaginação.
  5. Pratique algum esporte, isso auxilia na redução da ansiedade e da depressão.
  6. Fuja das fake news, sobretudo com relação a medicamentos e à vacina. Procure um médico da sua confiança antes de tomar qualquer coisa. Não existe tratamento precoce.
  7. Tome a vacina.
  8. Cuide do seu lado espiritual, seja qual for.
  9. Quando as preocupações exageradas surgirem, questione-se sobre os motivos daquilo. Verá que tudo se baseia em medos e inseguranças anteriores.
  10.  Treine sua mente para ser realista, sem perder o otimismo.

Esse furação que estamos vivendo irá passar e quando isso acontecer, estaremos transformados pelo impacto. Não será mais a vida de antes, será uma vida ainda mais valorizada. Tudo vai ganhando mais importância: poder falar, poder andar sozinho, poder respirar sozinho. É bem provável que os sobreviventes da pandemia – principalmente aqueles que conheceram a Covid-19 de perto – tenham percepções diferentes das de alguns anos antes. Tenderão a ver coisas ditas pequenas de outra forma. A reunião com amigos será melhor aproveitada, os aniversários – principalmente os infantis, com salgadinho e brigadeiro –, dias das mães, dos pais, natais, réveillon…  Tudo será vivido e aproveitado não como se fosse “o último”, mas sim como se fosse o primeiro. E será.

Aproveite que este período está provocando um turbilhão de emoções em todos nós para iniciar uma reforma interna, em prol de você mesmo, de sua saúde e suas escolhas. Basta começar.

Douglas Buzoni é psicólogo formado pela Unifran. É especialista em Gestão de Marketing e autor do livro “Consciência Emocional: o Manual do Paciente”. É co-autor (org.) do livro “Melanie Klein 60 Anos Depois: Reflexões e Vivências” 

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