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O Aritana

Muito tempo atrás, havia um homem feio chamado Aritana. Talvez não fosse mesmo feio, contudo ele não se importava com nada que envolvesse a aparência: não tomava banho, não fazia a barba e não colocava uma roupa limpa. Suor, poeira, sujeira! Não se via nada além da cor dos olhos escondidos no emaranhado dos cabelos.

Um dia, ele teve muita, mas muita fome mesmo. Comeu o que não devia, a barriga inchou, os braços e pernas espicharam e ele, sentindo uma vergonha que nunca experimentara, se escondeu nas grotas do Aeroporto 3.

— O Aritana te leva embora, menina! — diziam os pais para as crianças desobedientes.

Quando bem mais nova, Vinho se deparou com ele uma vez.

Como todas as crianças da redondeza, Vinho tinha muito medo de que o homem feio viesse lhe levar para longe. Não que Vinho fosse uma menina frágil. Muito pelo contrário: como perdera a família bem cedo, aprendera rápido que precisava brigar pelo que era seu e pelo que achava correto. E não, não era uma menina desobediente. Sempre procurava fazer o melhor nos abrigos provisórios e casas familiares que a recebiam. Contudo, fantasmas e criaturas sobrenaturais traziam um pavor que ela não conseguia controlar.

Não tinha seis meses que morava na casa da rua Irene Rodrigues Pereira, a rua 17, e Vinho sempre era castigada por ninharias de criança. Castigos verbais e corporais. A mãe adotiva sabia onde bater para que ninguém visse os hematomas terríveis na pele da menina, obrigando-a seguidamente a fazer tarefas pesadas e a suportar longas privações de comida e sono. Isso resultava em muitos erros no que lhe era encarregado. Errava, apanhava, mal dormia… Os dias eram infinitos e as noites tormentosas.

Apenas nos seus sonhos ela conseguia escapar: ir para os braços calorosos de pessoas que a amavam, correr pela grama sem canseira ou preocupação. Ela podia nadar em rios cristalinos… E acordar com um grito:

— Sua porquinha! — era a mãe adotiva com um cinto em mãos. — Você se mijou toda! Na cama, nos lençóis! Porca tem que dormir no relento!

Mais roxos pelo corpo e molhada, dolorida, foi empurrada para fora de casa. Ouviu a chave girando e a porta sendo trancada enquanto “porca” era esbravejado.

As ruas do Jardim Aeroporto 3 eram precárias em iluminação. Assim, longas sombras entre vultos e sussurros atacavam a imaginação de Vinho, deixando seus sentidos em alerta. Faminta, chorou apenas com as lágrimas no medo do céu sem estrelas. E foi aí que ela viu o Aritana.

Quase gritou, mas o receio de outra sova ou de ser devorada pela criatura lhe foi mais forte. Ele passava rente ao pessegueiro do outro lado da rua. Suas pernas eram compridas, mas as mantinha dobradas, andando de cócoras, quase arrastando os finos braços no chão. Estacou debaixo da árvore e esticou os membros superiores várias vezes, indo e voltando.

Seus olhos amarelos, brilhantes como brasas, se fixaram em Vinho. E o Aritana cruzou a rua em direção à menina.

Ele se levantou todo, ficando tão alto quanto a casa. Seu rosto não possuía um ponto sem pelos, além dos lábios e dos incandescentes olhos. Estava perto de Vinho, colocando-se de cócoras novamente. Ela sentia o bafo, o fedor. Viu fumaça saindo de suas narinas e da boca de dentes podres. Aritana estendeu a mão magra, de unhas grandes como garras, e despejou cinco pêssegos aos pés da menina.

Assobiou como coruja e sumiu na imensidão da noite.

Cinco dias depois, alguém do Conselho Tutelar apareceu quando Vinho se encontrava sozinha em casa, tão magra como um graveto. Não houve discussão: procuraram um novo lar para a solitária menina.

Lindolfo Junior

Lindolfo Junior é: Escritor? Me chame de rabiscador, pois são linhas de incertezas as que minha mão se presta a colocar no papel… @jhunnyor

7 Comentários

  1. 😭😭😭 Deus usa as coisas loucas para confundir as sábias !!! A mão de Deus está em cada detalhe . Aritana , menina dos olhos de Deus .

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