Amêndola, o fotógrafo
Lázaro Amêndola Silva faleceu dias atrás aos 92 anos, uma grande perda para a arte francana. Conheci o fotógrafo Amêndola em meados dos anos 1970. Eu era ativista do movimento artístico da cidade e membro do conselho da Fundação Municipal Mário de Andrade que apoiava a cultura na cidade, provavelmente fui apresentado a ele na Feira de Artes – FEARTE criada pelo Sérgio Nalini e irmãos Derruci, de quem o Lázaro Amêndola era vizinho.
Depois disso, estive várias vezes em sua casa na esquina das Ruas Marechal Caxias e Antônio Fachada, então sempre tomada pelos trabalhadores da indústria de calçados Ruy de Mello à sua frente. Irmão do artista Francisco Amêndola, importante referência cultural em Ribeirão Preto e Araraquara, um dos precursores do modernismo nas artes visuais da região, Lázaro era mais low profile que o irmão, mais retraído e tímido, falava baixinho até quando estava bravo, o que não era incomum.

Oriundos da região de Araraquara onde viveram por bom tempo (Lázaro nasceu em Ibitinga em 1934), os Amêndola eram cinco irmãos, hoje todos falecidos. Veio para a região trabalhar nas obras de ampliação da Usina Hidrelétrica de Peixotos onde conheceu uma jovem universitária, Maria de Lourdes, namorou e casou, fixando-se inicialmente em Ibiraci. Trabalhou ainda nalgumas outras obras mas acabou fixando-se em definitivo na Franca, onde teve suas duas filhas com a professora Maria de Lourdes, Silvia e Lélia.
Após algum tempo aprendendo fotografia com o irmão em Ribeirão Preto, aqui construiu sua carreira como fotógrafo de publicidade a partir dos anos 1960, mas sempre com um pé na fotografia como arte, influenciado pelo irmão.

Meticuloso, o rigor técnico e qualidade artística de seus “cromos” (era como chamava suas fotografias) se impôs logo na publicidade do setor calçadista que, nos anos 1960 e 70, começava a dar valor à profissionalização e divulgação de seus produtos “made na Franca”. Suas fotografias dos calçados masculinos francanos ocuparam páginas de anúncios em revistas e jornais país afora, todos revelados em seu pequeno laboratório nos fundos de casa.
Ao mesmo tempo, fotografou muito a cidade naqueles anos, notadamente em branco e preto, mas também produziu coloridos catálogos turísticos da cidade para a Livraria Martins, algo que era adquirido por visitantes que queriam levar uma lembrança com imagens da Franca. Firmou parceria com meu primo Dionizio Zorzo que revelava suas fotos coloridas.

Em 1982, tive uma rica experiência com Amêndola. Convenci o empresário e sócio da empresa de borracha Amazonas a editar meu livro “Franca, itinerário urbano”, sobre a história da cidade. Com o apoio da empresa, vieram Marquinhos Derruci que fez a capa a partir de uma foto que tirei da entrada lateral do Hotel Francano e o Amêndola, que ficou encarregado de produzir os “cromos” das fotos antigas da cidade que iriam ilustrar o livro. Foi seu trabalho que preservou dezenas de imagens antigas da cidade, em sua maioria em mau estado no Museu Histórico ao fotografar e imprimir em papel novas cópias das fotos.
Perfeccionista, seu trabalho foi impecável para a qualidade gráfica e visual do livro.
Quando reabrimos a sede do Lab das Artes em 2009, Amêndola chegou a visitá-lo, e também o encontrava pelas ruas para dois dedos de prosa.
Poucos anos atrás, o procurei para sugerir a doação de seu rico acervo fotográfico à UNESP local, buscava uma forma de preservar a história do setor calçadista pelas lentes do Amêndola. Infelizmente, não conseguimos. Mas seu legado como um dos mais importantes fotógrafos da história de Franca já está inscrito nas inúmeras imagens que produziu publicadas em revistas e jornais, em especial do ramo calçadista, assim como fotos aéreas da cidade. RIP, Amêndola.

“Este artigo representa a opinião do autor e não reflete, necessariamente, a posição editorial deste portal”







