Opiniões

A Vida Selvagem no Antropoceno

Vivemos um período geológico que os cientistas (embora ainda sem consenso geral) costumam chamar de Antropoceno, que no futuro poderá até ser considerado uma era – a era dos humanos na Terra. Há divergências sobre quando ela começaria havendo os que apontam a Revolução Industrial como o marco da intervenção humana sobre o planeta. Mas há os que preferem situa-la no momento do surgimento dos humanos. Restam dúvidas sobre a extensão dos efeitos da ação humana para a vida no planeta, porque fenômenos e alterações naturais sempre ocorreram.

E há ainda os que negam que haja relevância nessa intervenção e os que negam até as mudanças climáticas. Estes últimos, os negacionistas da ciência, felizmente são minoria! Mas, são os cientistas que advogam que os humanos estão produzindo as mudanças climáticas que consideram esse fenômeno digno de assinalar uma era na evolução do planeta, tal é a importância que dão a ele.

Considerando as referidas exceções, (os negacionistas) não se discute que os humanos alteraram o ambiente da Terra, com os seus milhões de espécies, chegando hoje a importante mudanças no seu clima. Com o desflorestamento sistemático e a realização de obras (usinas hidroelétricas) a extração de minérios, etc, nos vários ambientes, já podem ser percebidas alterações nos regimes de chuva, fato que tem provocando a extinção de milhares de espécies animais e vegetais, além de catástrofes e perdas para os humanos. E com o uso da tecnologia atual, está bem visível que os humanos já dominam a superfície do planeta a seu bel prazer.

Por outro lado, é fato que humanos sempre conviveram com várias espécies animais, em razão da coincidência ou da proximidade do seu habitat natural, inicialmente as savanas, as florestas, os desertos e até as montanhas, como ocorreu nos Himalaias e nos Andes… Finalmente a espécie humana tem por seu habitat natural as cidades, rigorosamente artificial, no sentido de produto de sua criação, de sua arte. E não é que os animais, por falta de espaço nas florestas, nos pântanos, etc, que estão desaparecendo, estão vindo para o ambiente artificial!

Um dia desses eu fiz referência a uma saracura que havia se mudado para o quintal de casa, por conta de algumas árvores e vasos de planta que lhe proporcionaram abrigo. Mas a ave foi vista e ouvida por pouco mais de dois meses e desapareceu. Todos nós, incluídos alguns vizinhos, comentamos e ficamos torcendo para que tenha encontrado ambiente mais seguro. E ficamos sabendo que há outras saracuras habitando os fundos dos vales entre as colinas de Franca, nas partes que ainda há algum resquício de vegetação e espaço.

Mas, a última visita que recebemos em casa foi de um anfíbio, visto rapidamente pelas frestas de uma grelha de escoamento de águas pluviais do quintal. Logo que avistei o vulto, coloquei o aparelho celular no espaço aberto pela retirada de parte da grelha, para ver do que se tratava, e saiu a foto que ilustra esta página. Eu que nem tenho experiência em fotografias, fiquei impressionado com a qualidade da foto. Pura coincidência. Sem dívidas, um dos sinais marcantes da Era do Homem: a tecnologia, de que quase todos fazemos uso, muitas vezes até sem conhecer os seus limites.

Dr. José Borges

Advogado (Formado em Direito pela Faculdade de Direito de Franca); especialista em Direito Civil e Direito Processual Civil e em Direito Ambiental. Foi Procurador do Estado de São Paulo de 1989 a 2016 e Secretário de Negócios Jurídicos do Município de Franca. É membro da Academia Francana de Letras.

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