Poço sem fundo

Minha tia ama o arroz de mamãe. Quando a irmã lhe visitava, preparava o famigerado prato. Titia fritava dois ‘zoião’, punha junto do preparo e embuchava. Comia num desespero que só: uma garfada atrás da outra, a boca aberta escapulindo grãozinhos para todo canto. Vê, poesia! Uma irmã amando a outra pelo arroz.
Você pode até dizer que faltava elegância na demonstração de afeto. Poderia censurar titia: “– Esfomeada! Poço sem fundo! Gulosa”. E ela é mesmo tudo isso. Só que no fim das contas, amor. Esse pequeno, alojado no coração dos anjos e dos asnos, suspira tão fino quanto o recém-nascido na manjedoura. É solene como poucos conseguem ser.
Por certo, minha tia parece não ligar para o sagrado do amor. Gosta mesmo é de arroz. Mal nenhum! O mistério vela-se aos olhos e às panças. Na orquestração de sua grande sinfonia, ele também pleiteia arrotos.
Titia os dá, quase sempre de bom grado.



Puxa, João. Que texto! Tem vida. Parabéns!
Arrasou.Parabens.