Sobre o Real, o Imaginário e o Simbólico

Por Ronaldo Mendonça
O ano era 2002. Na Coréia do Sul era celebrada a Copa do Mundo.
Foi uma festa memorável, com as transmissões entusiasmadas dos jornalistas que percorriam muitos assuntos além dos jogos.
As rápidas mudanças que lá ocorreram encantavam a todos, desde a Economia revitalizada, as Artes, a Arquitetura, a Educação esmerada, os comportamentos sociais até os meios de comunicação desenvolvidos.
Os jornalistas mostravam nos intervalos dos jogos essa transformação toda e as diferenças culturais com a sociedade ocidental. Em dado momento, em uma entrevista com uma jovem na rua, o repórter um pouco constrangido pediu para fazer uma pergunta que poderia ser indiscreta para os valores deles.
A jovem ficou corada mas aceitou ser abordada, ao que o repórter já disparou a questão: “por acaso as mulheres aqui usam sapatos bem maiores que os pés?”.
Ela respondeu “uns dois ou três números a mais”!
O repórter rindo, perguntou o motivo. Ela respondeu que lá era considerado elegante, chic, mas não sabia dizer a origem desse costume.
Sorridentes, se despediram.
Logo em seguida, me veio à mente o costume antigo do uso pelas mulheres chinesas do sapatinho de ferro para atrofiar os pés. Também era costume as saias longas e justas ao corpo.
Tudo isso conferia uma certa dificuldade para trocar os passos. Os passos eram curtos, conferindo uma espécie de simulação com o andar dos pinguins.
Dessa forma, as mulheres andavam atrás dos homens, sempre disponíveis para atender suas necessidades: um guarda-chuva, um agasalho, uma água.
Com a evolução dos costumes das mulheres coreanas, a vanguarda entre elas deve ter resolvido mostrar sua indignação com o costume machista e daí optaram por ousar a escolha de um sapato ainda maior que os pés.
Essa vanguarda sabia por certo o motivo do uso e seria copiada pelas mulheres que as admiravam, mesmo sem saber do motivo do enfrentamento do machismo. Seria simplesmente uma inovação para estas.
Temos aí representada a questão do Real, do Imaginário e do Simbólico.
Na realidade, as mulheres usavam sapatos maiores que os pés.
No imaginário, estavam mais empoderadas e elegantes.
Simbolicamente, estavam em uma luta contra o machismo opressor que dificultava o desempenho físico das mulheres, submetendo-as a uma condição de seguir atrás do homem, reduzindo-as a uma condição de inferioridade.
Analogamente, na nossa atual situação política desencadeada nas últimas eleições, vivemos algo que pode ser descrito através desses três pontos de observação.
Na realidade, tivemos uma divisão do País entre uma esquerda e uma direita radicais e polarizadas.
A esquerda mais apoiada pela religião católica e sua opção pelos pobres.
A direita apoiada pelos protestantes, dito evangélicos, uma classe mais afinada com as elites e a preservação dos costumes.
Enfim, mais parecendo uma reedição de Guerra Santa.
No Imaginário, uma luta entre o Bem e o Mal. Cada extremo se apresenta como do Bem e o outro extremo como sendo do Mal.
Polarização que limita o raciocínio a uma concretude e pouca possibilidade de abstração para relativizar esses conceitos, contextualizar e compor com vistas à conciliação e respeito às diferenças.
Do ponto de vista Simbólico, a expectativa é de Salvação por um Messias. “Infeliz a Nação que precisa de heróis”! Com essa frase, o dramaturgo alemão Bertold Brecht nos adverte sobre a incapacidade do povo desenvolver a própria vida e delega sua existência humana a um ser supostamente superior de quem espera a Salvação, esquivando-se da responsabilidade pela própria vida.
A salvação de um povo depende essencialmente da promoção da criança, da educação esmerada de base, de creches para garantir o trabalho da mulher e aumentar a renda familiar, de boas condições sanitárias, de formação profissionalizante em alta escala na adolescência, de prevenção da gravidez precoce, enfim, da construção da cidadania à partir do alicerce, com a perspectiva de formarmos uma nação de indivíduos mais lúcidos, responsáveis, produtivos, generosos consigo mesmos e com os outros.
A evolução de uma Nação não depende de uma dádiva dos deuses e sim de uma construção civilizatória.
Entre outras, vejo três grandes mudanças que aconteceram nos últimos tempos e que desencadearam verdadeiras transformações na humanidade.
A participação da mulher, principalmente depois da pílula anticoncepcional que permitiu a limitação de filhos, e daí, em condições equivalentes à do homem, intervindo nas conquistas de espaço prático e profissional, além ou principalmente, na interlocução que promove uma reconstrução das relações sociais de forma bem mais respeitosa.
Em seguida, a revolução tecnológica e o grande avanço na comunicação e troca de informações entre os diferentes povos e culturas.
Isso por si só gerou um grande questionamento global à partir da comparação das diferenças de qualidade de vida, de liberdade e de oportunidades.
Isso com efeitos tanto benéficos quanto maléficos.
Antes, as pessoas viviam perdidas com pouca informação e atualmente com o excesso delas. Daí a grande necessidade de se trabalhar a base da formação educacional para garantir melhor capacidade de pensar, abstrair e criar oportunidades.
Também a longevidade tem produzido, a meu ver, um largo efeito na nossa versão atual de mundo. Os idosos ainda ativos e influentes, não gostando de olhar para o futuro que os amedronta, ficam presos a uma tradição que atrasa o desenvolvimento. Não conseguem acompanhar mental e psiquicamente a evolução da tecnologia e a necessidade de absorver e aplicar as consequências dessa prática. Seu olhar é preferencialmente para o passado e a preservação de uma tradição com a consequente condição de legitimar o já conhecido em detrimento do novo e da inevitável mudança.
Fato é que o mundo está mudando e muito rapidamente.
A tecnologia trouxe isso à cena e não tem retorno.
A questão é se isso vai acontecer em clima de guerra ou com o respeito daqueles apegados às tradições mais radicais.
Importante lembrar que o nosso mundo sempre foi muito injusto e desrespeitoso, convive até nossos dias um clima de quase escravidão, não dá oportunidade de crescimento para a pobreza, faz guerras onde morrem tantos jovens, subsidia muitos dogmas e preconceitos…
Fica a pergunta: que mundo queremos deixar para as próximas gerações?
Se pretendemos um Outro Mundo Melhor, é necessário que respeitemos o Mundo do Outro.
Ronaldo Mendonça é médico psiquiatra e psicanalista







