Após as Eleições

Um dia depois do desfile de Sete de Setembro e das comemorações do bicentenário da Independência do Brasil vieram as resenhas publicada pela mídia, conjeturando certa confusão com as campanhas dos candidatos aos cargos em disputas nas eleições de 3 de outubro. Uma coisa é certa: as comemorações se misturaram, sim, com a campanha política, especialmente para os candidatos ao cargo de presidente. O atual presidente, que concorre à reeleição, utilizou o desfile comemorativo para montar um palanque e posar absolutamente solto para os seus fãs e apoiadores, afirmam os jornais e demais veículos de comunicação. No mesmo dia, os demais candidatos só falaram nisso: criticaram o presidente, apontaram falhas no governo, prometeram, se eleitos, melhorar o país. No final, todos utilizaram o evento para fazer campanha, cada um a seu modo.
Mas, o que preocupa não é o fato de candidatos utilizarem indevidamente recursos públicos para as suas campanhas. Isso sempre ocorreu de alguma forma, e o sistema (legal) vem tentando melhorar sua configuração e realizar campanhas eleitorais com igualdade e um pouco mais de transparência. E é erro que pode ser corrigido a posteriori, pelo Judiciário. Mas o que é atípico e assusta é o grau de violência decorrente da polarização atual, entre os que se dizem de direita e apoiam o atual presidente, e os outros segmentos. Mesmo considerando as ameaças de movimentos sociais e outras organizações que participaram das campanhas da esquerda dos últimos anos, a violência que temos visto agora não é verbal ou apenas contra o patrimônio, porque agora temos mortes decorrentes do posicionamento político das vítimas.
Parece ingenuidade posicionar-se como pregador da não-violência num mundo que ainda não perdeu a referência primária de predador e presa… Lembre-se que estão em alta os clubes de caçadores, de pescadores desportivos, etc… Por isso, peço desculpas para insistir com minhas ingenuidades! Mas precisamos ter paciência e pensar um pouco, todos nós que nos posicionamos de esquerda, de direita, do centro, religiosos ou não… Há um fato de grande relevo em jogo: a vida vai continuar por aqui, nos mesmos espaços, com as mesmas pessoas, que continuarão com as mesmas crenças, após as eleições! E provavelmente todos nós temos amigos de esquerda, de direita, religiosos, ateus, pacíficos e até mais exaltados.
Será bom, depois das eleições, considerarmos amigos apenas as pessoas que pensam como nós do ponto de vista político, ou religioso? Eu teria prejuízos imensos e, por isso, nos últimos tempos tenho deixado de fazer considerações que possam desagradar pessoas que pensam diferente… Mas acho isso um absurdo, porque, em princípio, a amizade deveria ir além dos posicionamentos políticos, religiosos, filosóficos… Mas, enfim, ainda não estamos muito seguros nesse terreno!
Outra coisa de que devemos nos lembrar sempre é que o regime democrático supõe a convivência de contrários. Supõe a convivência de pessoas que pensam de modo diferente sobre vários assuntos, que têm preferências que não correspondem às nossas. Até porque não somos como as manadas, os cardumes, os enxames, que aparentemente caminham juntos por serem compostos de seres iguais que buscam as mesmas coisas…
Nós, humanos somos mais complexos! E a democracia, considerada importante marco na história da humanidade, vem sendo aprimorada. Assim, o respeito ao direito das minorias, a proposição de um direito de igualdade o mais efetivo possível, o direito à liberdade de crença religiosa, de expressão, são conquistas recentes. Aliás, é a convivência com os contrários, com os diferentes, que nos ajuda a repensar as nossas posições e evoluir.
Enfim, devemos nos lembrar que após 30 de outubro, a vida vai continuar, qualquer que seja o ganhador das eleições presidenciais. E, honestamente, gostaria de continuar com todos os meus amigos e com eles conviver, sem medo de ser considerado inimigo apenas por minhas preferências pessoais.








