A tecnologia que ‘engana’ o calendário agrícola e torna possível colher a uva de inverno no interior paulista
Quem viaja pela região de Franca e Cristais Paulista já conhece bem a força do café na economia e na paisagem local. Mas, nos últimos anos, um cultivo diferente começou a chamar a atenção de quem passa por essas estradas: as fileiras carregadas de uvas destinadas à produção de vinhos de alta qualidade. Além da beleza desse cenário, outra coisa chama a atenção: o momento em que a colheita acontece. As uvas da região ficam prontas para a colheita em pleno inverno, entre os meses de julho e agosto.
Isso é diferente porque, tradicionalmente, as videiras produzem frutos nos meses de janeiro e fevereiro. O grande problema é que o verão nessa região é marcado por muita chuva, o que acaba encharcando a uva, tirando o açúcar da fruta e atraindo pragas. Mudar o calendário da natureza foi possível graças a uma tecnologia de manejo essencialmente brasileira: a dupla poda. A inovação agronômica consiste em fazer duas podas no ano para ‘enganar’ a videira.
Quem resolveu esse quebra-cabeça foi o engenheiro-agrônomo Murillo de Albuquerque Regina, pesquisador da Epamig. Após estudar na França, ele percebeu que o inverno no Sudeste do Brasil (com dias ensolarados, solo seco e noites bem frias de altitude) era o ambiente perfeito para amadurecer uvas finas com a mesma qualidade dos grandes países produtores. Com a dupla poda, foi possível fazer com que os pés floresçam no outono e deem frutos na estação mais seca e propícia para a uva.
Essa tecnologia transformou a rotina de produtores da região que resolveram apostar na novidade, hoje ligada à Rota do Vinho da Alta Mogiana. Em Franca, a Vinícola Arcano foi a pioneira, começando as pesquisas ainda em 2014 pelos sócios Maurício Orlov e Fernando Bizanha.

O começo foi desafiador: no primeiro plantio, em 2016, as duas famílias se uniram para limpar a terra e plantar, juntas, as primeiras 1.300 videiras. O maior frio na barriga, segundo Maurício, era a incerteza científica se a Alta Mogiana conseguiria mesmo entregar um produto de alto padrão.
“A nossa busca desde o começo era fazer vinho de alta qualidade, não apenas fazer um vinho comum. Eu brinco que, quando começamos, as pessoas na região diziam que a gente era louco de mexer com uva em vez de café. Mas eu sempre respondo que, há 200 anos, teve um doido que falou que café daria certo em Franca e deu. Os doidos da vez somos nós.”
O resultado foi melhor que o esperado. A expectativa era de três anos para a primeira colheita, mas as videiras se adaptaram bem ao clima e à altitude de Franca e entregaram a primeira safra em 2018, um ano antes do previsto.
Em 2024, a Arcano colocou a região no topo do mercado internacional ao conquistar a prestigiada Medalha de Prata no Decanter World Wine Awards, em Londres — a maior honraria recebida pelo Brasil naquele ano no concurso. A qualidade chamou a atenção da alta gastronomia nacional, e hoje o Syrah francano integra a seleta carta de vinhos do prestigiado Grupo Fasano.
Coladinha em Franca, Cristais Paulista, consolida essa nova era da agricultura regional. O Vinhedo Ana Diniz começou sua atuação em 2020, na Fazenda Água Limpa, bem na beira da Rodovia do Café, e lançou suas primeiras garrafas comerciais no início de 2024. Focando na variedade Syrah, o vinhedo mostra o valor da diversificação no campo: uma propriedade familiar tradicional que abriu espaço para uma cultura de alto valor agregado, gerando empregos técnicos e atraindo visitantes para o turismo de experiência.
Em setembro, o vinhedo realizou mais uma edição de sua noite de harmonização. O evento contou com um menu exclusivo, pensado para proporcionar uma experiência sensorial única com os vinhos locais, e atraiu amantes da bebida de diversas localidades.
A rotina do trabalhador: um grande desafio
Na prática, porém, adotar a produção de uvas para vinho exige paciência e altera o dia a dia na fazenda. Ao contrário do café, que tem um ciclo comercial de um ano, o retorno financeiro da viticultura é de longo prazo. Há vinhos finos na região que demoram até quatro anos entre os cuidados no campo, a colheita, a fermentação e o descanso nas barricas de madeira antes de estarem prontos para venda.

O manejo também exige uma mão de obra intensiva. De acordo com Maurício Orlov, a viticultura dá quase o dobro de trabalho do café, exigindo intervenções manuais nas plantas praticamente todos os meses do ano. Como a região não tinha profissionais especializados em uvas, a Arcano precisou treinar equipes locais, selecionando inclusive trabalhadores que vinham da construção civil em busca de uma vida mais próxima à natureza. “É um aprendizado constante. Nós fomos ensinando o manejo no dia a dia e o projeto deu tão certo que já trouxemos consultores da França e do Chile aqui para Franca para trazer novas técnicas e treinar a nossa equipe”, disse Maurício.
O orgulho local
Depois que o produtor consegue vencer esses desafios dentro do campo, o resultado desse trabalho começa a aparecer do lado de fora da porteira. O eixo entre Franca e Cristais Paulista virou um ponto de atração para um tipo de visitante que antes nem pensava na região como um destino de passeio ou descanso.
Esse movimento ganhou um empurrão importante com a criação da Rota do Vinho da Alta Mogiana. A rota ajuda a organizar o turismo e conecta o trabalho feito em Franca e Cristais ao que outras propriedades pioneiras já vêm fazendo na região, como a Vinícola Marchese di Ivrea, em Ituverava, a Osteria Vinícola Biagi, em Cravinhos, e a Vinícola Terras Altas, em Ribeirão Preto.
Juntas, elas atraem pessoas que buscam experiências bem diferentes, como jantares harmonizados no meio dos parreirais, colheita noturna da uva e degustação direto dos barris de vinho. Para os municípios, esse turismo é um reforço na economia: quem vem de fora para visitar um vinhedo acaba gastando nos hotéis da cidade, nos restaurantes e no comércio local. Pensando nisso, os produtores já fazem planos, querendo ampliar o espaço para receber os visitantes e ligar cada vez mais a produção de uva à gastronomia da região.
Santo de casa faz milagre, sim
Se engana quem pensa que esse mercado vive apenas do turista que vem de longe. O morador de Franca e das cidades vizinhas também passou a valorizar e prestigiar o que é feito no próprio quintal. Esse movimento de orgulho local ainda não é tão grande quanto o interesse dos que vem de fora, mas é importante para ajudar a quebrar aquele velho preconceito de que vinho bom precisa vir de outro país ou de estados mais tradicionais na bebida.
O cerimonialista Alessandro Macedo, que é um apaixonado por vinhos e acompanha de perto a cena de eventos de Franca, resume bem esse sentimento. Para ele, o produto regional surpreende pela qualidade e aos poucos conquista espaço nas mesas locais. “Eu não sou nenhum sommelier ou especialista, mas sou um grande apreciador. Quando experimentei os vinhos de inverno da nossa região pela primeira vez, fiquei impressionado. É muito gratificante ver que um produto feito aqui do lado atinge esse nível de elegância. Hoje, faço questão de abrir uma garrafa local para os amigos e ver a surpresa no rosto de cada um.”
Essa aproximação com a cidade também chegou à mesa dos restaurantes locais. Um exemplo prático foi a noite de degustação especial promovida pelorestaurante Azul Culinária Brasileira, no Centro de Franca, que montou um cardápio harmonizado usando exclusivamente os rótulos da Vinícola Arcano. Adriana Mendonça, proprietária da casa, conta que combinar a alta gastronomia nacional com o trabalho feito nos parreirais vizinhos foi umaescolha natural para valorizar a identidade regional. “A nossa proposta no Azul sempre foi celebrar a boa cozinha brasileira, e a chegada desses vinhos locais casou perfeitamente com o nosso cardápio. Os clientes adoraram conhecer melhor os vinhos produzidos aqui na nossa cidade e se tornaram consumidores frequentes”, disse ela.
Aprovado pelo público, o produto também passa pelo crivo técnico de quem entende do mercado consumidor. O sommelier do restaurante Azul, Ivo Gomes Tomaz Junior, explica que o clima seco e quente na época de maturação das uvas na região favorece frutos mais doces. O resultado são vinhos de inverno mais encorpados e potentes, com graduação alcoólica na casa dos 14,5%, ideais para acompanhar pratos densos de carnes e molhos estruturados.
Para o especialista, o amadurecimento desse mercado trouxe inclusive uma independência tecnológica crucial para o agronegócio de Franca, que antes dependia de terceiros para finalizar o produto. “No começo, as uvas colhidas aqui em Franca precisavam viajar mais de 300 quilômetros até Andradas, no sul de Minas Gerais, para serem processadas e transformadas em vinho, voltando engarrafadas para cá depois. Hoje, com a estrutura montada na própria fazenda pelo sócio Fernando Bizanha, a vinificação é feita 100% em solo francano. Isso não só preserva a qualidade do fruto, mas consolida de vez a tecnologia e a economia do vinho dentro da nossa região.”

Os círculos intelectuais de Franca também encontraram nos vinhedos um novo cenário para suas atividades. Recentemente, uma turma de escritores da AFL (Academia Francana de Letras) escolheu a Vinícola Arcano para uma confraternização especial de fechamento de ciclo. Em vez das tradicionais salas de reunião, o grupo passou o dia caminhando entre as videiras apreciando a paisagem e os sabores
“Organizar esse passeio em turma foi uma forma de celebrar o final de um ciclo de um jeito totalmente diferente e inspirador. Estar ali, valorizando a produção intelectual e a produção da terra no mesmo ambiente, deu um sentido muito especial à nossa comemoração. E os vinhos produzidos ali são, realmente, deliciosos’ disse CarlosRoberto Goulart, o Carogo, presidente da AFL.
Ao cair no gosto da própria comunidade, a uva de inverno e o vinho produzido deixam de ser uma curiosidade e mostram que a viticultura tem potencial para crescer de forma importante na economia local. O movimento começou há alguns anos e já soma algumas de 5 a 8 safras de experiência e prêmios na bagagem dos produtores, mas, diante do potencial da região, deixa claro que este é apenas o primeiro capítulo de uma nova história para a agricultura dessa região.
O valor por trás da garrafa
No supermercado, o consumidor comum pode até tomar um susto ao ver que os vinhos finos produzidos na região de Franca e Cristais Paulista geralmente custam entre R$ 100 e R$ 250 a garrafa. No entanto, para quem acompanha a rotina do agronegócio, esse valor reflete diretamente o custo de uma produção que envolve biotecnologia vegetal feita em pequena escala e com foco exclusivo na qualidade.
Diferente dos vinhos de mesa comuns, esse processo inovador exige investimentos pesados e o dobro de trabalho dentro da porteira. Como a planta é forçada a ter dois ciclos no ano para produzir apenas uma vez, o manejo exige atenção constante. Quase todo o trabalho de limpeza das folhas, amarração dos ramos e colheita é feito de forma manual e cirúrgica, o que dobra o custo com mão de obra especializada se comparado a culturas tradicionais como o café. Além disso, há custos altos com insumos, garrafas, rolhas importadas e o tempo em que a bebida precisa ficar descansando em barricas de madeira antes de ir para o mercado.

Todo esse rigor se paga na qualidade, e a prova disso veio de longe. Em 2024, o vinho Arcano Syrah Cerrado 2021 conquistou a medalha de prata no Decanter World Wine Awards, em Londres, o maior concurso de vinhos do mundo. Foi a nota mais alta recebida pelo Brasil naquela edição. Esse reconhecimento abriu as portas dos mercados mais exigentes do país, fazendo com que o vinho feito em Franca entrasse para a prestigiada carta de vinhos do Grupo Fasano, um dos maiores nomes da alta gastronomia nacional.
“A dinâmica do vinho é muito diferente do café. No café, você colhe, vende e tem o retorno financeiro em um ano. Na viticultura, um tinto de qualidade pode demorar quatro anos para ficar pronto. Todo o investimento em mão de obra, barricas e garrafas é feito hoje, mas o retorno só começa a vir dali a quatro ou cinco anos. O preço final reflete esse ciclo longo e o valor de um produto boutique.”
(Maurício Orlov, sócio-proprietário da Vinícola Arcano)
No no mapa do enoturismo
O avanço da produção de uvas para vinho no eixo entre Franca e Cristais Paulista ganhou um importante aliado institucional. As propriedades da região passaram a integrar oficialmente o programa estadual Rotas do Vinho de São Paulo, uma política pública criada pelo Governo do Estado para mapear, estruturar e promover o enoturismo paulista. O programa funciona como um grande mapa que divide o estado em circuitos de produção, e Franca e Cristais fazem parte do roteiro da Alta Mogiana, dividindo espaço com vinhedos pioneiros de Ribeirão Preto, Cravinhos e Ituverava.
Para as propriedades locais, fazer parte desse grupo vai muito além de uma simples menção em um guia de viagens. A rota funciona como uma vitrine de credibilidade que atrai investimentos e estimula melhorias na infraestrutura das fazendas. Na Arcano, por exemplo, o chamado Wine Tour já acontece todos os finais de semana, levando os visitantes para caminhar entre os parreirais e conhecer de perto o segredo da dupla poda, terminando com uma degustação de vinhos harmonizada com queijos e embutidos produzidos na própria região.
Essa integração gera uma via de mão dupla essencial para o agronegócio de valor agregado: ao mesmo tempo em que a rota dá visibilidade e atrai o público consumidor para dentro das propriedades, os vinhedos fortalecem o turismo regional, atraindo visitantes de várias cidades do país e até comitivas internacionais.
“Nós nos unimos a outras vinícolas da região para fomentar intensamente o turismo no interior paulista. Curiosamente, hoje temos recebido muito mais pessoas de fora do que da própria cidade de Franca. São visitantes de Ribeirão Preto, Uberaba, São José do Rio Preto e até de fora do Brasil, como turistas da Itália, França e Rússia, que vêm buscar essa conexão com a natureza e conhecer o nosso terroir.”
(Maurício Orlov, sócio-proprietário da Vinícola Arcano)
Os bastidores do vinhedo
Para entender ainda melhor os bastidores dessa produção, conversamos com o produtor Maurício Orlov, que detalhou um pouco mais sobre a experiência de se produzir vinho de inverno na Alta Mogiana.
Como surgiu a ideia de começar um vinhedo do zero e como a região reagiu a essa novidade?
Maurício Orlov: Tanto eu quanto o Fernando Bizanha, meu sócio, já estávamos chegando perto dos 50 anos e queríamos repensar algumas coisas na vida. Nós dois tínhamos muita vontade de ficar mais perto da natureza e já compartilhávamos uma paixão antiga pelo vinho. Nossas famílias sempre consumiram muito e viajávamos bastante para conhecer vinícolas. Foi aí que surgiu o desejo: por que não plantar aqui?
Por que a fazenda comercial foi instalada especificamente na saída de Franca para Claraval? O que esse local tem de diferente?
Maurício: Quando decidimos expandir o negócio e comprar uma fazenda própria para isso, fomos orientados pelo Dr. Murillo Regina de que a melhor área no município de Franca seria na saída para Ibiraci e Claraval. O motivo é puramente geográfico e climático: ali é o ponto mais alto do município. Descobrimos ali o nosso terroir perfeito. O solo daquela região é um latossolo amarelo mais fraco, misturado com areia e pedra, e fica em uma cabeceira onde o clima é naturalmente mais seco. Para a uva fina de inverno, esse tripé de altitude, solo pedregoso e tempo seco é o cenário perfeito para concentrar açúcar na fruta e dar alta qualidade ao vinho.
Dentre os desafios do clima, o inverno seco ajuda a proteger a plantação de que forma?
Maurício: As principais doenças que atacam as videiras no mundo inteiro são causadas por fungos, e os fungos precisam de umidade para se espalhar. Como o inverno na nossa região é extremamente seco, a planta fica muito protegida de forma natural. Para se ter uma ideia, na nossa safra de 2021, o vinhedo ficou exatamente 106 dias seguidos sem ver uma única gota de chuva. Como o tempo estava muito seco, nós passamos esses três meses e meio sem precisar aplicar absolutamente nada de pulverização ou defensivos nas plantas. O parreiral seguiu seu ciclo normal e saudável absorvendo água apenas do solo. Por outro lado, os riscos climáticos, como a chuva de pedra que destrói os ramos da planta, são um medo constante que tira o sono do produtor.
Qual é o volume atual da produção de uva e vinho e quais são os próximos passos?
Maurício: A nossa produtividade varia muito de acordo com o clima do ano. Já tivemos anos de chegar perto de 12 mil a 14 mil garrafas, e anos de retroceder para 9 mil garrafas. Almejamos, no futuro, chegar perto de 20 mil garrafas com a área que já temos disponível.
Além dos vinhos tradicionais, a Arcano ficou conhecida por fazer testes diferentes de envelhecimento na propriedade. Como funcionam essas experiências?
Maurício: Nós temos duas experiências de guarda bem curiosas na nossa coleção. A primeira é um lote de garrafas que fica guardado durante seis meses submerso no fundo da represa do Estreito, a 34 metros de profundidade. A pressão e as condições da água transformam a bebida, deixando o vinho mais macio e gentil no paladar.
A outra experiência é o que chamamos de vinho enterrado: nós colocamos as garrafas a 5 metros de profundidade no meio de uma das matas nativas da fazenda, onde o vinho descansa por um ano e meio totalmente isolado da luz e das variações de temperatura. É o mesmo vinho premiado que vendemos normalmente, mas esses métodos diferentes de repouso entregam um produto totalmente transformado e único para o consumidor.






