Local

Ódio após eleição: boicotes a empresas e ameaças de demissão por voto político atingem Franca e região

A eleição presidencial terminou nas urnas no domingo (25), mas a disputa política ganhou um novo e preocupante capítulo nas redes sociais e nos aplicativos de mensagens. Em Franca e cidades da região, publicações passaram a defender o boicote a estabelecimentos comerciais associados ao Partido dos Trabalhadores (PT), enquanto outras incentivaram empresários a demitir funcionários por suas preferências políticas.

As manifestações ocorreram após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que venceu o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21%.

O episódio mais concreto em Franca envolve um assessor parlamentar da Câmara Municipal, que teve sua exoneração anunciada depois de publicar mensagens defendendo a demissão de trabalhadores petistas.

O que começou como reação ao resultado eleitoral passou, em determinados grupos e publicações, a atingir relações de trabalho, atividades comerciais e a convivência entre pessoas que pensam de maneira diferente.

Assessor da Câmara de Franca defendeu demissão de petistas

O assessor parlamentar Marcelo Ramalho, ligado ao gabinete do presidente da Câmara Municipal de Franca, Fransérgio Garcia (PL), publicou na segunda-feira (26) uma mensagem no Facebook defendendo que empresários demitissem funcionários apoiadores do PT.

Na publicação, Ramalho associou os trabalhadores petistas a características depreciativas e apresentou a demissão por preferência partidária como uma obrigação dos empregadores.

A manifestação provocou críticas de usuários das redes sociais, que questionaram a tentativa de transformar a posição política de um trabalhador em motivo para a perda do emprego.

Segundo reportagem do Portal GCN/Sampi, o assessor também fez outra publicação com acusações contra o PT e o Supremo Tribunal Federal (STF), além de referências a perseguições e mortes.

As afirmações divulgadas por Ramalho não constituem fatos comprovados e foram apresentadas como parte de seu discurso político.

Presidente da Câmara anunciou exoneração

Na terça-feira (27), o presidente da Câmara, Fransérgio Garcia, repudiou as manifestações do assessor e anunciou sua exoneração.

Em entrevista ao Portal GCN/Sampi, Garcia afirmou que o episódio não era isolado e que Ramalho já havia se comprometido anteriormente a evitar discussões políticas nas redes sociais, sob risco de perder o cargo.

Embora pertença ao mesmo partido de Flávio Bolsonaro, o presidente da Câmara rejeitou o incentivo à hostilidade e defendeu o respeito ao resultado eleitoral.

Até a publicação das informações consultadas, havia confirmação do anúncio da exoneração, mas não foi localizado o ato administrativo que comprovasse sua efetivação.

O caso ganhou repercussão por envolver um integrante da estrutura do Legislativo municipal, de quem se espera responsabilidade no exercício da função pública, inclusive em manifestações realizadas fora do ambiente de trabalho.

Listas de boicote circulam em Franca e cidades da região

A hostilidade não ficou restrita às publicações sobre trabalhadores.

Listas com nomes de empresas e estabelecimentos apontados como simpatizantes de Lula ou do PT passaram a circular em redes sociais e aplicativos de mensagens.

As publicações incentivam consumidores a deixar de comprar produtos e contratar serviços desses negócios, numa tentativa de transformar a preferência política atribuída a seus proprietários em motivo de punição econômica.

Reportagens regionais identificaram a circulação dessas listas em municípios como Franca, Ribeirão Preto, Serrana, Sertãozinho, Brodowski, Altinópolis, Santa Rosa de Viterbo, Bebedouro, Barretos e Cajuru.

O problema se torna ainda mais grave porque nem sempre a identificação política atribuída aos comerciantes corresponde a uma manifestação real de apoio partidário.

Em Serrana, por exemplo, um comerciante relatou ter sido incluído em uma dessas listas mesmo sem declarar preferência eleitoral.

A circulação dos nomes também pode atingir funcionários, fornecedores e familiares que não participaram de qualquer manifestação política.

Da divergência política à tentativa de punição econômica

Criticar um candidato, discordar do resultado das urnas ou manifestar preferência partidária são formas legítimas de expressão política.

A situação muda quando a discordância se transforma em ameaças, constrangimentos, exposição de terceiros ou incentivo para que pessoas percam seus empregos em razão de suas convicções.

No caso dos trabalhadores, a relação entre empregador e empregado torna esse tipo de discurso especialmente delicado. Quem depende do salário para sustentar a família pode se sentir pressionado a esconder suas opiniões políticas por receio de represálias.

Já as listas de boicote podem provocar danos à reputação de comerciantes e atingir negócios inteiros, inclusive quando as informações divulgadas são incorretas.

A gravidade jurídica de cada publicação depende de seu conteúdo, contexto e consequências. Nem toda crítica ou escolha individual de consumo configura ilegalidade, mas ameaças, ofensas e práticas discriminatórias podem gerar responsabilização.

Ministério Público alerta para possíveis consequências

Na região de Ribeirão Preto, o Ministério Público se manifestou sobre a circulação das listas.

O promotor de Justiça Carlos Cezar Barbosa, que atua na área de direitos humanos e inclusão social, alertou que publicações ofensivas podem resultar em responsabilização criminal e civil.

Segundo ele, empresários prejudicados pela exposição também podem buscar reparação por danos materiais, quando houver comprovação dos prejuízos.

Entidades representativas do comércio regional, como a Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (Acirp) e o Sindicato do Comércio Varejista de Ribeirão Preto e Região (Sincovarp), repudiaram a discriminação comercial motivada por posições político-partidárias.

As entidades defenderam o respeito às diferenças e a preservação das relações comerciais, independentemente das escolhas eleitorais.

Pressão política no trabalho também preocupa autoridades

O problema não se limita à região de Franca.

Levantamento divulgado pela Folha de S.Paulo, com base em informações do Ministério Público do Trabalho (MPT), aponta crescimento das denúncias de assédio eleitoral em 2026.

Entre janeiro e 27 de outubro, os registros passaram de 1.937 para 2.364, com mais de 400 novos casos contabilizados em apenas dois dias.

A legislação brasileira protege trabalhadores contra práticas discriminatórias relacionadas às suas convicções políticas.

Quando há suspeita de demissão discriminatória, ameaça ou constrangimento no ambiente profissional, a orientação é preservar mensagens, publicações e outros registros que possam servir como prova e procurar os órgãos competentes, como o Ministério Público do Trabalho, sindicatos ou a Justiça do Trabalho.

Resultado das urnas não elimina o direito de discordar

A eleição de domingo confirmou a vitória de Lula, mas não encerrou as divergências políticas existentes no país.

O direito de discordar do governo eleito permanece assegurado a todos, assim como o direito de apoiar a oposição, participar de manifestações e criticar decisões políticas.

O limite está na tentativa de retirar de outras pessoas direitos, oportunidades profissionais ou condições de exercer suas atividades por pensarem de maneira diferente.

Em Franca, o anúncio da exoneração de um assessor parlamentar mostra que manifestações nas redes sociais podem ter consequências concretas.

Para trabalhadores e comerciantes expostos a campanhas de hostilidade, porém, a preocupação vai além de uma publicação: envolve a segurança do emprego, a continuidade dos negócios e a liberdade de expressar opiniões sem sofrer intimidação.

O desafio após a eleição não é fazer com que todos concordem politicamente, mas assegurar que a divergência não seja usada como justificativa para ameaçar, discriminar ou prejudicar outras pessoas.

Notícias de Franca

É jornalista e editor da Folha de Franca

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo