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Morte de idosa despejada após 71 anos na mesma casa leva 20 mil às ruas de Madri

Maricarmen Abascal, de 87 anos, morreu duas semanas depois de deixar o apartamento onde vivia desde a juventude; caso intensificou protestos contra a crise habitacional na Espanha

A morte de uma mulher de 87 anos, duas semanas depois de ser despejada do apartamento onde viveu por 71 anos, levou cerca de 20 mil pessoas às ruas de Madri, na Espanha, na quinta-feira (8). O caso de Maricarmen Abascal transformou-se em símbolo da crise habitacional espanhola e provocou manifestações em diferentes cidades do país.

Maricarmen morreu na quarta-feira (7), após ter sido retirada, em 23 de setembro, do imóvel onde morava desde os 17 anos, na rua Sainz de Baranda, na capital espanhola.

O prédio havia sido adquirido pela empresa imobiliária Urbagestión, que passou a cobrar um aluguel mensal de 2.650 euros. A aposentadoria da idosa era de aproximadamente 1.350 euros, pouco mais da metade do valor exigido.

O caso ganhou repercussão nacional e mobilizou organizações que defendem mudanças nas regras de aluguel e despejo.

Sete décadas na mesma casa

Maricarmen vivia no apartamento desde a juventude, inicialmente com a família. O contrato de aluguel, firmado em 1956, havia sido herdado de seus pais.

A Justiça espanhola considerou encerrado o contrato e reconheceu o direito da empresa proprietária de recuperar o imóvel.

A retirada da moradora, em 23 de setembro, desencadeou uma onda de manifestações em Madri.

Três dias depois, em 26 de setembro, aproximadamente 25 mil pessoas participaram de um protesto na capital, segundo números divulgados pelo governo. Centenas de manifestantes também passaram a acampar na Puerta del Sol, uma das principais praças da cidade.

Após o despejo, Maricarmen foi internada no Hospital Gregorio Marañón.

Segundo o Sindicato de Inquilinos, o estado de saúde da idosa teria sido afetado pelo desgaste provocado pelo processo de retirada da residência. Não há, porém, confirmação médica apresentada nas informações disponíveis de que o despejo tenha causado diretamente sua morte.

Multidão percorreu ruas de Madri

Na quinta-feira (8), cerca de 20 mil manifestantes voltaram às ruas da capital espanhola, desta vez em homenagem à idosa.

A mobilização começou na Puerta del Sol, onde flores, velas e mensagens foram deixadas ao longo do dia.

Organizados pelo Sindicato de Inquilinos, os participantes seguiram em direção ao prédio onde Maricarmen viveu por mais de sete décadas.

Durante a passagem pela praça de Cibeles, nas proximidades da sede da Prefeitura de Madri, houve um minuto de silêncio.

Os manifestantes também homenagearam Olga, outra mulher que morreu após ser retirada de sua residência em L’Hospitalet, na região de Barcelona.

Faixas e cartazes criticavam a especulação imobiliária e defendiam mudanças nas políticas de habitação.

Além de Madri, cidades como Barcelona, Valência, Zaragoza e Sevilha registraram manifestações e vigílias.

Crise habitacional pressiona governo espanhol

Os protestos acontecem em meio ao aumento dos preços dos imóveis e dos aluguéis na Espanha, especialmente nas grandes cidades.

Dados do Instituto Nacional de Estatística espanhol apontaram uma alta anual de 12,2% nos preços de compra de imóveis no segundo trimestre de 2026. Na Comunidade de Madri, o aumento foi de 12,9%.

O Banco da Espanha também identificou um déficit de aproximadamente 750 mil moradias em relação à formação de novos domicílios entre 2021 e 2025.

Diante desse cenário, organizações de inquilinos defendem medidas como maior proteção contra despejos, controle de reajustes e ampliação das alternativas de moradia.

O Sindicato de Inquilinos também convocou uma greve geral para 11 de novembro e passou a defender a antecipação das eleições gerais.

Debate sobre soluções divide opiniões

As propostas para enfrentar a crise habitacional provocam divergências entre movimentos sociais, economistas e partidos políticos.

Entidades de inquilinos defendem contratos mais estáveis, limites para aluguéis e restrições a despejos sem oferta de moradia alternativa.

Por outro lado, economistas críticos dessas medidas argumentam que controles excessivos podem reduzir a oferta de imóveis para locação e desestimular investimentos em construção e manutenção.

O governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez enfrenta pressão para apresentar respostas à crise, enquanto a oposição defende medidas alternativas, incluindo incentivos à compra da casa própria e ampliação da oferta habitacional.

A morte de Maricarmen passou a representar, para os manifestantes, o impacto humano de uma crise que ultrapassa os indicadores econômicos e atinge pessoas que já não conseguem arcar com os custos de permanecer onde construíram suas vidas.

Notícias de Franca

É jornalista e editor da Folha de Franca

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