UM SORRISO PODE TRANSFORMAR

Por: Maria Conceição Castro da silva
O apelido era Quiqui. Ninguém sabia seu nome de batismo; talvez fosse Quitera, ou Joaquina, ou…
Tinha a estatura de uma criança de cinco anos, mas, todos diziam que ela poderia estar na faixa dos oito; tudo em sua vida era muito incerto… só se sabia que ela morava ali, com aquela família há alguns poucos meses, que ficara órfã de pai aos quatro anos e tinha muitos irmãos.
E o que mais a menina gostava, era ficar todas as manhãs, debruçada no peitoril do alto alpendre, da casa em que morava, bem pertinho da praça da matriz, apreciando o movimento da rua, que se resumia a poucas pessoas, subindo e descendo em busca de marmitas ou compras feitas na padaria ou na mercearia.Automóveis , mal passavam de dez em toda a cidade; só os mais abastados é que os possuíam; os meios de transporte usados, mesmo, na época, eram charretes, carroças cavalos, e até carro de bois para cargas pesadas.
Apesar de quietinha e tímida, Quiqui também tinha seus poucos momentos de travessuras.
Todos o dias, sempre no mesmo horário, passava por ali, na calçada, bem em baixo do nariz da menina, uma mocinha, muito simples carregando a marmita do almoço, provavelmente para família de quem era empregada.
Quiqui, bem atenta, ficava observando quando a moça apontava lá na esquina e então se escondia, para ao perceber os passos da moça, se levantar e dar uma cuspida bem forte em sua cabeça, e voltar a se esconder
Porém, como diz o ditado, “todo crime sempre é descoberto”, um belo dia,
Quiqui se deu mal; quando se levantou, pronta para disparar a sua cusparada, deu de cara com a moça que olhava para cima e a levadinha então ficou completamente desconsertada sem saber se se escondia novamente, se dizia alguma coisa… Mas, essa situação não durou muito porque a humilde mocinha olhou bem firme no fundo de seus olhos e abriu um terno e largo sorriso, mostrando seus poucos dentes que lhe restavam na boca, ainda assim todos estragados.
A menina, então, muito assustada, com medo da repreensão, toda trêmula, e com lágrimas nos olhos disse:
—Oi, como você se chama?
—Florípedes é o meu nome, mas todos me chamam de flor…e o seu nome, como é?
Minutos antes, a desaforada moleca diria: —que flor mais feia!!! Porém, após aquele amabilíssimo sorriso, uma grandiosa amizade nasceu entre as duas e mesmo com os cabelos ressecados, despontados e dentes estragados, Quiqui passou a achá-la maravilhosa!
A partir daquele dia, Quiqui ficava aflita para que chegasse o horário, e ela pudesse ir esperar sua amiga Flor, não para cuspi-la, mas apreciar o seu amoroso sorriso, ouvindo suas confortantes palavras, uma vez que aquela criança se sentia tão só naquele mundinho de adultos, onde não havia nada de seu, nada era seu!
Maria Conceição Castro da silva 24/09/2026









