Fiquei com inveja da Márcia Tiburi
Ontem, numa improvável tarde de quarta-feira, eu me lembrei de uma das coisas que mais gosto na profissão que escolhi: ela me leva a lugares e a encontros que eu jamais conseguiria prever.
Estava na Biblioteca do Champagnat, esse prédio tão bonito de Franca, para mediar uma conversa com Márcia Tiburi, dentro do projeto Viagem Literária. O prédio continua precisando de manutenção — mas isso é assunto para outro texto. Naquele momento, o que importava era o encontro.
Márcia Tiburi é uma das intelectuais brasileiras mais inquietas de seu tempo, alguém que fez da filosofia uma ferramenta para nos fazer pensar sobre o mundo em que vivemos.
Eu li recentemente Complexo de Vira-Lata e poder conversar diretamente com a autora sobre o livro já seria, por si só, uma experiência especial. Mas Márcia é daquelas pessoas que não cabem muito bem numa apresentação. Escritora, filósofa, professora, pesquisadora, artista… ela consegue juntar pensamento, cotidiano, filosofia, política, teoria e vida real — sem transformar a conversa numa aula difícil de acompanhar. Pelo contrário. Ela fala de um jeito gostoso, próximo.
Márcia contou que foi uma menina que cresceu numa casa sem livros. Isso está na minha cabeça até agora. Porque eu fiquei pensando em como nascem as filósofas, os filósofos. Como uma cabeça tão inquieta, tão investigativa, tão interessada em compreender o mundo prospera num ambiente que, à primeira vista, parecia tão pouco favorável a isso? O que havia ali naquela menina? Que espécie de curiosidade é essa que encontra caminhos mesmo quando não recebe, de início, os caminhos prontos? (Não sei as respostas. Será que a Márcia sabe?)
Sempre que faço uma mediação, preparo perguntas extras. Estudo, anoto, penso em caminhos possíveis para manter a conversa viva caso o público esteja mais tímido no começo. Dessa vez, meu trabalho foi mínimo. A Márcia começava uma história, abria uma janela para outro assunto, fazia uma associação, lembrava de um livro, recuperava uma ideia — e, quando eu pensava que ela tinha se perdido, voltava ao ponto de partida.
Hoje em dia, se eu começar um assunto e entrar em outro, nunca mais me acho😂.
Para mim, ouvir a Márcia ontem foi meio como espiar uma mente em funcionamento. Não é apenas saber muito. É ter repertório, curiosidade e disciplina para continuar estudando, pesquisando, pensando. E depois conseguir (e querer muito) traduzir tudo isso para quem está do outro lado.
Ela quer levar o outro a pensar. Ela quer dividir o que descobriu e provocar no outro a vontade de continuar a descoberta. Achei isso bonito.
Eu saí do “encontro com Márcia” (parece nome de programa de TV, né?) admirada, inspirada e com inveja. Sim, com inveja do quanto ela estuda, pesquisa, se preocupa, se manifesta, do quanto ela quer intervir no mundo, provocar pensamento, ampliar a conversa.
Espero que esses sentimentos me motivem a estudar mais, a ler mais, a pensar mais…E quem sabe até a reencontrar a (minha) menina que amava questionar para entender o mundo.








