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Desenvolver não é ocupar: rio Canoas, turismo e o futuro de Franca

Por Tânia Mara Pinto de Sousa

Há uma pergunta que toda cidade precisa fazer de tempos em tempos: que tipo de desenvolvimento queremos?

A pergunta parece simples, mas não é. Desenvolvimento costuma ser associado à abertura de novas áreas, à construção, à chegada de investimentos, à geração de empregos e à movimentação da economia. Tudo isso é importante. Uma cidade precisa crescer, criar oportunidades e planejar seu futuro.

Mas existe uma outra pergunta, talvez ainda mais importante: o que não podemos perder enquanto crescemos?

Em Franca, essa reflexão ganha especial relevância quando olhamos para a Macrozona do Rio Canoas. O tema está em discussão no município por meio de proposta legislativa que estabelece diferentes diretrizes para a proteção e ocupação da região, incluindo áreas de restrição, recuperação ambiental e ocupação dirigida.

Não se trata, portanto, de uma discussão meramente urbanística. Estamos falando de território, água, biodiversidade, paisagem, qualidade de vida e do próprio modelo de cidade que pretendemos construir.

E, quando falamos do rio Canoas, falamos também de um recurso que ultrapassa os limites de uma paisagem ou de uma área rural: falamos de água e de segurança hídrica para Franca.

Durante as discussões públicas sobre o tema, foi ressaltada a importância do rio Canoas para o abastecimento do município. Essa dimensão, por si só, deveria nos levar a tratar a região com especial responsabilidade. Afinal, alguns recursos naturais podem ser recuperados com muito esforço; outros, quando profundamente comprometidos, talvez não possam ser recompostos na mesma escala, no mesmo tempo ou com o mesmo custo.

Talvez a pergunta mais importante, então, não seja quanto vale uma determinada área hoje, nem quanto ela poderá valer depois de transformada.

Talvez seja quanto vale, para uma cidade inteira, aquilo que não pode ser facilmente reconstruído quando desaparece?

É justamente aí que precisamos ter cuidado com uma ideia que aparece com frequência no debate público: a de que preservar e desenvolver são caminhos opostos.

Não são.

O verdadeiro desafio contemporâneo é encontrar formas de desenvolver sem destruir os ativos naturais que sustentam o próprio desenvolvimento.

O rio Canoas não deveria ser visto apenas como uma área disponível para futura ocupação. Ele precisa ser compreendido como parte da infraestrutura ambiental de Franca. Água, solo, vegetação, nascentes, fauna, paisagem e equilíbrio ecológico não são obstáculos ao desenvolvimento. São condições para que ele exista.

Quando uma cidade perde um recurso natural, dificilmente consegue recuperá-lo com a mesma facilidade com que autoriza uma nova construção.

E aqui entra uma questão que considero especialmente importante para quem pensa o turismo.

Durante muito tempo, turismo foi associado quase exclusivamente à construção de hotéis, restaurantes, parques, empreendimentos e equipamentos para receber visitantes. Hoje, essa visão é insuficiente. O turismo contemporâneo procura experiências, identidade, natureza, cultura, gastronomia, paisagem e autenticidade.

Ou seja: o território preservado também é um ativo econômico.

Uma paisagem que permanece de pé pode gerar experiências por décadas. Uma nascente protegida continua prestando serviços ambientais. Uma área natural bem manejada pode se transformar em espaço de educação ambiental, turismo de natureza, pesquisa, lazer, gastronomia e experiências ligadas à cultura local.

O desafio está em transformar patrimônio ambiental em oportunidade sem transformar patrimônio ambiental em mercadoria descartável.

Essa discussão tem tudo a ver com sustentabilidade.

Nas Rodadas de Estudos Contemporâneos, atividade que desenvolvo com meus alunos do curso de Administração, na disciplina de Administração Ambiental, tenho acompanhado discussões que passam justamente pela necessidade de repensarmos nossos modelos de desenvolvimento, produção, consumo e gestão. Sustentabilidade não pode ser tratada apenas como discurso. Ela precisa estar presente nas decisões concretas que tomamos sobre nossos territórios.

E talvez seja exatamente esse o exercício que Franca esteja sendo chamada a fazer agora.

Não precisamos escolher entre uma cidade que não cresce e uma cidade que cresce sem limites.

Podemos escolher uma terceira possibilidade: uma cidade que cresce com inteligência territorial.

Isso significa perguntar quais áreas devem ser preservadas, quais podem receber usos compatíveis, quais precisam ser recuperadas e quais podem receber empreendimentos mediante critérios rigorosos de sustentabilidade, infraestrutura, capacidade de suporte e fiscalização.

Significa também olhar para o turismo de uma maneira mais madura.

Se o Rio Canoas pode contribuir para o desenvolvimento econômico de Franca, talvez devêssemos começar perguntando como valorizar economicamente o território justamente por suas características ambientais, e não apesar delas.

Turismo de natureza, educação ambiental, trilhas, experiências rurais, gastronomia, observação da fauna e da flora, hospedagem de pequena escala e outras atividades podem fazer parte de uma estratégia de desenvolvimento territorial.

Mas isso exige planejamento. Exige estudos. Exige fiscalização. E, principalmente, exige que o interesse coletivo esteja acima da lógica imediatista de ocupação.

Uma cidade sustentável não é aquela que deixa de crescer.

É aquela que sabe o que não pode perder enquanto cresce.

O rio Canoas pode ser apenas mais uma área transformada pela expansão urbana. Ou pode se tornar um exemplo de como Franca aprendeu a enxergar seu território de outra maneira.

Podemos olhar para ele como uma reserva de terras. Ou podemos olhar para ele como uma reserva de futuro.

A decisão que estamos discutindo hoje ultrapassa os limites de um projeto de lei. Ela diz respeito à cidade que deixaremos para as próximas gerações.

Por isso, antes de perguntar quanto podemos ocupar, talvez seja necessário perguntar:

quanto desse território precisamos preservar para que Franca continue sendo uma cidade possível, saudável e economicamente sustentável no futuro?

Desenvolver é necessário.

Mas desenvolver não precisa significar ocupar tudo.

Às vezes, a decisão mais inteligente sobre um território é justamente reconhecer que preservá-lo também é uma forma de desenvolvê-lo.

Tânia Mara Pinto de Sousa é Mestre em Desenvolvimento Regional. Docente no Claretiano. Presidente do COMTUR. Vice-presidente da Câmara Técnica de Turismo do COMAM. Vice-Presidente da Academia Francana de Letras. Idealizadora do NEPEC e da Feira de Turismo Regional Franca.
Líder do WCD 2021 a 2023.

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