Mimicão

O pinscher Zé Grandão chegou depois do Caramelo na casa da rua São Luiz; porém, era mais velho uns três anos e duas vezes menor.
Diferente da maioria desses toquinhos de amarrar jegue, Zé Grandão não era todo raiva e tremedeira, sendo até mais dócil que o próprio Caramelo, se espreguiçando em qualquer raio de sol que aquecia seus pelos.
Para compensar a falta de raiva, acreditava em uma filosofia muito particular: tudo que tocasse o chão lhe pertencia. Mesas, cadeiras, sofás eram diariamente marcados por seu xixi. Se um tapete exibia uma dobra, Zé Grandão o marcava. Roupa caiu no piso e ninguém recolheu? Melhor colocar na máquina de lavar. Bolinha, lixeira, aspirador de pó! Se Caramelo bobeasse, até ele era marcado com xixi.
Do poste em frente à casa até a avenida Brasil era todo do seu pertencimento. “Meu território.”
Quando soube da aventura que ocorrera com Caramelo, quis tentar também. Seguindo o exemplo de seu colega, saiu cedo, antes mesmo que os outros cachorros da vizinhança despertassem, e caminhou por muitas horas, expandindo seus domínios incomensuravelmente.
Acompanhou a av. Hélio Palermo até a Major Nicácio e subiu por algumas quadras. Numa esquina avistou, todo colorido e festivo como sempre, o palhaço Passer Domesticus fazendo mímica para as fileiras de carros que aguardavam o semáforo abrir.
Com curiosidade, observou por razoável tempo os movimentos do palhaço que não expressava som algum. Quando Passer tomou fôlego bebendo água, Zé Grandão aproximou-se e perguntou se era possível aprender aquilo.
Como todo mundo sabe, palhaços conseguem falar e entender qualquer língua que quiserem. Por isso, Passer não teve dificuldades em responder polidamente ao cãozinho de orelhas pontudas:
– Posso te ensinar no fim de toda tarde, durante uma semana. É só vir aqui, com chuva ou sol, e eu o estarei esperando.
E Zé Grandão assim o fez, quase que em segredo, sem contar para ninguém, nem mesmo ao Caramelo.
Aprendeu rápido e com desenvoltura. O próprio Passer Domesticus lhe preparou um típico figurino de mímico, listrado em preto e branco.
– E pra finalizar, precisamos de um nome de artista – comentou Passer. – As pessoas gostam de nome simples. E também é legal quando soa muito óbvio e até ridículo. Que tal Mimicão?
Era simples, óbvio e ridículo. Zé Grandão adorou.
Na semana seguinte, decidiu se apresentar sozinho. Escolheu um semáforo na av. Brasil mesmo, pra não precisar ir muito longe, e se colocou à prova.
Frustrante! Ninguém o via direito.
Em suas patinhas curtas, um salsichinha veio ao seu encontro e questionou qual era o problema.
– Sou muito pequeno para me olharem – ganiu Zé Grandão.
O cachorro comprido tinha a solução. Pediu uma meia hora de espera e logo voltou arrastando uma mesinha de centro com rodinhas. Era um portátil palco para as apresentações do Mimicão.
Deu certo espetacularmente!
No prazo de um ano, o pinscher era conhecido por toda a Franca. Gente vinha de outras cidades para o ver em suas pitorescas mímicas e não se decepcionavam.
Zé Grandão gostou tanto do que fazia que decidiu aprender mais. Conferiu suas economias, tirou passaporte e voou pelo Atlântico. Iria conhecer os mímicos europeus e aproveitar para aumentar seu território.








Eu tenho um mimicão 🫢
Haja xixi para Europa hahaha ❤️