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Documentos apontam que Amaggi e Durli compraram lenha de autuado por escravidão

GRANDES EMPRESAS de grãos, carnes  e laticínios compraram lenha de produtores autuados nos últimos quatro anos por submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão na extração de madeira, revela uma investigação da Repórter Brasil.  

Estão nessa lista Amaggi, Correcta — empresa incorporada à multinacional Bunge após a compra da lenha —, Durli Agropecuária — subsidiária do grupo Durli, um dos maiores exportadores de couro do país — e Bravalat— fornecedora da marca de laticínios Ipanema, vendida em grandes supermercados, como o Carrefour. Em junho deste ano, a Repórter Brasil já havia revelado que um fornecedor de lenha da Aurora, gigante do setor de carnes processadas, havia sido investigado pelo Ministério Público do Trabalho pelo mesmo crime. 

A lenha é amplamente utilizada pela indústria como biomassa energética em processos como aquecimento de caldeiras, geração de vapor, secagem e pasteurização. Em alguns casos, pode substituir os combustíveis fósseis. 

Especialistas ouvidos pela reportagem alertam, no entanto, que sua cadeia de produção pode expor trabalhadores à situação de superexploração e operar às margens do controle do Estado, que encontra dificuldades de realizar fiscalizações no setor e, consequentemente, levar adiante a responsabilização dos empregadores. 

:: Leia também: Poucas denúncias e difícil acesso travam combate à escravidão no corte de lenha ::

Produtor do MT autuado vendia para gigantes 

Em março de 2023, o produtor Tomaz Edilson Filice Chayb foi autuado por trabalho escravo após uma fiscalização do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) resgatar três trabalhadores que realizavam extração de eucalipto na Fazenda Conquista, em Nova Xavantina (MT). 

Eles trabalhavam sem carteira assinada, não tinham acesso à água potável e instalações sanitárias em seus locais de trabalho, viviam em barracos e não dispunham de locais adequados para fazer refeições, de acordo com informações do relatório de fiscalização disponível no site do Ministério do Trabalho e Emprego.   

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Guias Florestais para o transporte de lenha acessadas pela Repórter Brasil mostram que, no mês do resgate ou em meses subsequentes de 2023, Amaggi, Durli Agropecuária e Bravalat Laticínios adquiriram lenha de Chayb. Outro comprador no período foi o produtor rural Rafael Bortolli, CEO da empresa Natter Participações, ligada ao Grupo Bom Futuro. 

As Guias Florestais mencionam outras fazendas operadas por Chayb, localizadas em Santa Cruz do Xingu (MT)  — e para as quais o produtor tinha autorização de exploração da mata nativa concedida pela Sema-MT (Secretaria do Meio Ambiente do Mato Grosso)  —, como o local de origem das vendas mencionadas.    

Em abril de 2024, Chayb teve seu nome incluído na chamada Lista Suja do Trabalho Escravo. O cadastro, mantido pelo governo federal, torna públicos os nomes de pessoas físicas e jurídicas responsabilizadas por trabalho análogo à escravidão. Procurado por meio de seu advogado, o fazendeiro não respondeu aos questionamentos da reportagem. 

Biomassa na cadeia dos grãos 

Segundo os documentos analisados pela Repórter Brasil, Chayb comercializou lenha com unidades da Amaggi — uma das maiores comercializadoras de grãos do país  — em São Félix do Araguaia e em Espigão do Leste, ambas no Mato Grosso, locais onde a empresa realiza  secagem de soja e milho e a comercialização dos grãos. Em seu Termo de Conduta Ética para Fornecedores, a Amaggi proíbe a utilização de mão de obra forçada e sob condições análogas à escravidão.

Questionada pela reportagem, a empresa afirmou que “não comercializa com fornecedores que estejam na Lista Suja do Trabalho Escravo” e que Chayb teve o cadastro bloqueado após a inclusão de seu nome na relação. Disse também que a fazenda em Santa Cruz do Xingu, registrada como local de origem da transação comercial com Chayb, “seguiu rigorosamente os trâmites usuais de controle, rastreabilidade e conformidade”. Ainda segundo a Amaggi, o volume e procedência dos produtos comercializados “foram homologados junto à Sema-MT” (leia aqui o posicionamento na íntegra).

Segundo documentos analisados pela Repórter Brasil, Chayb comercializou lenha com unidades da Amaggi no Mato Grosso que realizam secagem de soja e milho e a comercialização dos grãos (Foto: Divulgação/Amaggi)
Segundo documentos analisados pela Repórter Brasil, Chayb comercializou lenha com unidades da Amaggi no Mato Grosso que realizam secagem de soja e milho e a comercialização dos grãos (Foto: Divulgação/Amaggi)

Entre janeiro e maio de 2023, Chayb também comercializou lenha com o produtor Rafael Bortoli, de acordo com os documentos de transporte de madeira acessados pela Repórter Brasil. As vendas do período foram registradas como entregues na Fazenda Santa Terezinha, no município de mesmo nome, no Mato Grosso. 

Desde 2020, a propriedade é credenciada no Proalmat (Programa de Incentivo à Cultura do Algodão de Mato Grosso) e, segundo informações de sua inscrição estadual, também pode produzir outras culturas, como soja e milho.

Bortoli é CEO da Natter Participações, uma das empresas que integram o grupo Bom Futuro, que figura entre os principais produtores de soja, milho e algodão do país. Questionado pela reportagem, o produtor respondeu que as compras de lenha de Chayb “foram realizadas com base em documentação regularmente apresentada nos sistemas oficiais de controle e vinculada às respectivas origens nelas registradas”. 

Já o Grupo Bom Futuro afirmou que a Fazenda Santa Terezinha não faz parte de seus negócios, “e eventual negociação realizada por terceiros, em caráter particular, não integra suas atividades empresariais, nem foi realizada em seu nome ou benefício” (leia aqui o posicionamento na íntegra).

Outra compradora de lenha de Chayb foi a Durli Agropecuária, empresa do grupo Durli Couros dedicada à pecuária e ao plantio de grãos. Guias Florestais registram transações entre a empresa e o produtor autuado por trabalho escravo destinadas a abastecer a Fazenda São Francisco II, em São José do Xingu (MT), entre 2022 e 2023. A empresa não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem. 

Subsidiária da Bunge comprou lenha de autuado

Outro caso de trabalho escravo na cadeia da lenha envolve o produtor Carlos Roberto Sampaio, flagrado em abril de 2022 por submeter três trabalhadores a condições análogas à escravidão na Fazenda São Jorge, em Ponta Porã (MS). 

Segundo o relatório de fiscalização disponível no site do Ministério do Trabalho, as vítimas trabalhavam sem registro, viviam em espaços improvisados e não tinham banheiros à disposição. Para tomarem banho, utilizavam uma nascente próxima.

Aos auditores-fiscais do Trabalho, Sampaio relatou que vendia o eucalipto extraído à Correcta, indústria de alimentos especializada no processamento de trigo e soja para fabricação de farinhas e óleo de soja. Na ocasião, a empresa era parte do grupo Viterra, que em julho de 2025 fundiu-se com a Bunge, outra gigante dos grãos. 

Questionada, a Bunge informou que, desde setembro de 2022, Sampaio não consta mais na lista de fornecedores da Correcta e que “orienta seus fornecedores a adotarem melhores práticas e atuar de acordo com altos padrões de ética e integridade, incluindo a proibição de qualquer forma de trabalho forçado ou condições análogas à escravidão, em linha com os princípios e padrões internacionais previstos na Política de Direitos Humanos da Bunge” (leia aqui o posicionamento na íntegra).

A reportagem tentou contato com Sampaio, mas não conseguiu localizá-lo.

Escravidão na cadeia de laticínios

A indústria de laticínios é outro setor que usa lenha em sua cadeia produtiva. De acordo com as guias de transporte de madeira analisadas pela Repórter Brasil, o produtor Tomaz Edilson Filice Chayb, autuado por trabalho escravo em março de 2023, comercializou o produto com a unidade de Canabrava do Norte (MPT) da Bravalat Indústria e Comércio de Laticínios entre janeiro e maio daquele ano.

Na época da autuação de Chayb, a Bravalat tinha em seu quadro societário a Neolat, empresa detentora da marca de laticínios Ipanema. Atualmente, segundo nota conjunta encaminhada por ambas as empresas à reportagem, a Bravalat é fornecedora da Neolat. Os produtos da Ipanema, como queijos e requeijões, são vendidos em supermercados como o Carrefour, o maior do país. 

Local onde trabalhadores que cortavam lenha para Chayb tomavam banho (Foto: Divulgação/AFT-MTE)
Local onde trabalhadores que cortavam lenha para Chayb tomavam banho (Foto: Divulgação/AFT-MTE)

À Repórter Brasil, a Neolat e a Bravalat afirmaram que tomaram conhecimento dos fatos descritos por meio dos questionamentos da reportagem. A Neolat disse que “imediatamente” exigiu da Bravalat o bloqueio de Chayb como fornecedor e, além disso, suspendeu o fornecimento da Bravalat à Neolat “até que a unidade comprove a implementação de verificação sistemática junto ao Cadastro de Empregadores do MTE e o bloqueio formal do referido fornecedor”. 

Afirmou ainda que “está implementando uma revisão abrangente de seus processos de compliance e ampliando os controles sobre seus fornecedores e os fornecedores dos seus fornecedores, com verificação sistemática junto ao Cadastro de Empregadores do MTE e monitoramento a cada atualização semestral da lista, com foco nas cadeias de maior risco” (leia aqui o posicionamento na íntegra).

Também questionado, o Carrefour respondeu que, ao tomar conhecimento do caso, “iniciou imediatamente o processo interno de apuração e diligência previsto em suas políticas e procedimentos”, acionando formalmente o fornecedor e “solicitando esclarecimentos formais quanto às relações comerciais mencionadas e evidências dos mecanismos de devida diligência aplicados em suas cadeias de suprimentos” (leia aqui o posicionamento na íntegra).

Em outro caso envolvendo a cadeia de laticínios, a empresa Heiras Cultivo de Eucalipto foi autuada após o resgate de quatro trabalhadores que extraíam lenha na Fazenda Santa Helena, em Couto Magalhães (TO), em março de 2022. A empresa teve seu nome incluído na Lista Suja do Trabalho Escravo em abril de 2023.   

Segundo o relatório de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego, disponível no site da pasta,  um trabalhador, a esposa e a filha de 11 anos se alojavam em uma tapera (espécie de habitação precária). Outros viviam em barracos, sem infraestrutura e instalações sanitárias. As vítimas utilizavam água de um córrego para cozinhar e para higiene pessoal e reutilizavam recipientes destinados ao armazenamento de produtos tóxicos.

No documento, consta que, durante a fiscalização, os auditores identificaram uma nota fiscal de venda de lenha à Gvinah, empresa de laticínios que detém as marcas Girolanda e Jammy, comercializadas em supermercados e estabelecimentos como bares e restaurantes. 

Os trabalhadores resgatados na fazenda Santa Helena utilizavam água de um córrego para cozinhar e para higiene pessoal e reutilizavam recipientes destinados ao armazenamento de produtos tóxicos (Foto: Divulgação/AFT-MTE)
Os trabalhadores resgatados na fazenda Santa Helena utilizavam água de um córrego para cozinhar e para higiene pessoal e reutilizavam recipientes destinados ao armazenamento de produtos tóxicos (Foto: Divulgação/AFT-MTE)

Questionada, a Gvinah confirmou ter comprado lenha da Heiras entre janeiro de 2016 e maio de 2022, e afirmou que desde então a empresa autuada por trabalho escravo não faz mais parte de sua rede de fornecedores. A Gvinah disse ainda ter tomado conhecimento do caso a partir dos questionamentos da reportagem (leia aqui o posicionamento na íntegra).

A Repórter Brasil tentou contato com a Heiras via e-mail, mas não obteve retornos. 

“Quando olhamos para uma mesa em que o produto principal é a madeira, como consumidores ou órgão fiscalizador, temos materializadas as questões de onde vem o produto, como  foi produzido. Agora, se estamos falando de um queijo, ninguém vai pensar que madeira foi consumida para a produção daquele produto”, alerta Elson Fernandes de Lima, diretor-executivo da organização FSC Brasil (Conselho de Manejo Florestal). Para ele, as empresas devem se responsabilizar por sua cadeia produtiva. “O controlador de um laticínio deve se perguntar de onde vem a lenha que ele está consumindo”, defende.

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É jornalista e editor da Folha de Franca

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