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Felicità

Com mais de três anos trabalhando na Santa Casa como biomédica, principalmente na triagem de sangue, Felicità se sentia um robozinho, fazendo tudo metodicamente dentro da rotina hospitalar. Receber, testar, averiguar, testar novamente se preciso… uma simplificação de todo o processo da hematologia. Quantas hemácias? Tempo de coagulação? E por aí vai se indo o dia, ou a noite, dependendo da escala, plantão e tudo.

— Mandaram mais essas amostras, Felicità — dizia um estagiário todo tímido. — É Felitità — respondia a biomédica sem levantar os olhos do microscópio. — A pronúncia é italiana.

Gaguejando, o rapaz pedia perdão, quase num sussurro. Apesar de sempre manter uma concentração no trabalho que não dava espaços para cortesias, Felicità não gostava de ser mal-educada com ninguém. Desviou os olhos para o estagiário, viu que era um novato magricela, perdido em tremeliques, como ela já fora um dia, e se condoeu. Sorriu e pediu para ele se acalmar.

— Relaxa, logo você se acostuma com a Santa Casa. Ó, quando for almoçar, sobe ali pela Júlio Cardoso; bem pertinho do Industrial tem um lugar que vende uma coxinha incrível, um estouro no norte.

Depois do longo turno, era ir para casa, respirar agradáveis perfumes que espalhava pelo lar e, obviamente, colocar a fofoca em dia com seu parceiro que escolhera para a vida, carinhosamente apelidado de Mago por seu hobby de autodidata com magia. Amador, mas sabia uma coisa ou outra.

Eles moravam em um apartamento agradabilíssimo que se encontrava no térreo; porém, antes viveram em uma casa na mesma rua em que a entregadora Grahambell se acidentara por causa de um cachorrinho, ali no Jardim Riviera. Sendo da área da saúde, Felicità se prontificou aos primeiros socorros enquanto Mago chamava a emergência.

Claro que Felicità conhecia a fama de velocista da entregadora, e aquele acidente ficou lhe perturbando por muitos anos. Não, não era sensível ao que ocorrera, mas sim ao imaginar a liberdade que Grahambell possuía, se aventurando pelas ruas. A biomédica estava cansada de ser um robozinho, definitivamente.

Quando carros e motocicletas elétricas adentraram os recintos francanos, Felicità analisou, pesquisou e se empolgou.

— Quero uma dessas motos elétricas — afirmou para Mago logo após uma noite de jogos com amigos. — Pra tudo eu preciso de você ou de algum aplicativo. — E se você cair e se machucar?

E caiu e se machucou no mesmo dia em que comprara a “Motinha”. Não tinha manejo e mal andava de bicicleta. Sorte que teve a precaução de praticar perto do apartamento, marcando o joelho numa escoriação e a tinta da motocicleta, que ela disfarçou com um esmalte. Dois dias depois, voltou para a rua e insistiu até pegar o jeito.

E se sentiu muito feliz quando chegou na Santa Casa com a Motinha. Agora iria onde quisesse! Tomar café no clube literário de duas pessoas com sua amiga, ir no Distrito, no Tropical, na Estação, no Jardim Botânico!

— Pode deixar com a mãe! — gracejava na necessidade, ou não, de buscar qualquer coisa.

Vivendo e aprendendo: em um feriado que previa chuvas à noite, daqueles que quase todo mundo fica em casa, Felicità aproveitou para correr as ruas de Franca só pelo prazer de rodar com a Motinha. Ao entardecer, no momento em que as luzes dos postes começam o desenlace de brilhos amarelos e brancos, ela passava pela Av. Abrahão Brickmann, bem longe de casa, quando a Motinha parou na intermitência da falta de energia. Esquecera de a recarregar…

Lindolfo Junior

Lindolfo Junior é: Escritor? Me chame de rabiscador, pois são linhas de incertezas as que minha mão se presta a colocar no papel… @jhunnyor

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