Colunas

O garoto que corria pelo arco-íris

Escudeiro contemplava o Santuário Senhor Bom Jesus da Cana Verde com olhos não de admiração, mas de curiosidade. Sentado no banco da praça, matutava como aquela edificação fora construída e por quê. Ele sabia, sem precisar consultar ninguém, que a razão mais óbvia era a religião; todavia, algo intrínseco mesmo era o formato, as arcadas, a nave central: o que trouxe aquela forma para simbolizar algo sagrado?

— Por que quiseram assim — exclamou em voz alta, debochando de si. — E estou atrasado para a escola!

Sorte que chovera poucos minutos antes, criando um belíssimo arco-íris sobre a rua Celso Garcia, caracterizada por seus hexágonos de concreto. Caminhou rápido, segurando forte as alças da mochila e saltou na pontinha do arco-íris, como canarinhos quando se jogavam ao voo.

Que sensação deliciosa corria pela extensão do corpo de Escudeiro, quase aquele momento em que ficamos sedentos o dia todo para logo nos refastelarmos em uma bebida gelada.

E ali não tinha para ninguém! Ele se tornava tão veloz correndo por aquele devaneio de cores, que lhe dava a percepção de quase instantaneamente chegar ao portão da escola, momento em que a sirene disparava para o início das aulas.

Dia de química, inglês e um tanto de português. Escudeiro começava a cochilar antes do término da primeira hora. Bocejava e pedia para ir ao banheiro. Água no rosto, pescoço e, bom, já que estava nos corredores, não perderia nada indo até o bebedouro.

— Sai daí, Cereja — disse uma voz às suas costas enquanto se inclinava para beber água. — Fica poluindo a escola com tua baba.

Escudeiro arqueou a coluna, secou a boca com as costas das mãos e levantou o queixo para a garota que lhe importunava.

— Ah… Isso explica o cheiro de estrume — respondeu Escudeiro com um cínico sorriso.

— Como é que é?! — a garota armou um soco, entretanto desistiu ao vislumbrar o inspetor saindo de uma sala ao fundo. — Depois da aula você já era, Cereja.

Essas brigas de escola se espalham como formigas cortadeiras. Mal o recreio chegou e todos já sabiam que a encrenqueira Viviane jurara de morte o otário do Cereja. Não sobraria nem os ossos!

Escudeiro não sentiu medo, muito pelo contrário. Sempre apanhava numa dolorosa rotina quase quinzenal, em que alguém frustrado com a própria vida queria um saco de pancadas para aliviar o estresse. Era apenas mais um dia…

Saiu pelo portão na garoinha fria de molhar bobo e, indubitavelmente, lá estava Viviane, no meio da rua com um porrete em mãos.

O que Escudeiro não previra fora as meninas de sua sala passando à frente em uma parede de proteção. Era como um rei e sua corte. Um reflexo conjunto de quem cansou de abaixar a cabeça para uma valentona. E Viviane teve receio, virou as costas e foi embora.

Escudeiro estava pasmo. Nunca alguém dissera algo para lhe ajudar, muito menos se colocar em perigo no aconchego de uma proteção.

A garoa continuou, deslizando gotas pelo rosto do garoto, escondendo as lágrimas que rolavam de seus olhos…

Estiou com o arco-íris brilhando em sua plenitude.

Escudeiro agradeceu às meninas, saltou no caminho de sete cores e decidiu que era hora de deixar Batatais. Queria conhecer o que o mundo tinha a lhe ensinar.

Lindolfo Junior

Lindolfo Junior é: Escritor? Me chame de rabiscador, pois são linhas de incertezas as que minha mão se presta a colocar no papel… @jhunnyor

8 Comentários

  1. E assim percebemos que todo dia e ligar aprende demos algo novo, sempre nos surpreendemos, desde que não deixemos de enfrentar os desafios que a vida nos proporciona…

  2. Adotei o texto muito bom e sempre tem alguém incomodado com nosso independente do que seja ainda bem que temos amigos e pessoas confiáveis Há quem podemos contar e confiar

  3. Hoje a tarde; sábado de aleluia, sol e chuva… Vivi a experiência de deslizar num enorme arco-íris e pude ver o que minhas retinas fatigadas ainda não tinham percebido

  4. O quanto alguém precisa pensar para criar um historia assim, as vezes penso que a IA vai devorar tudo e criar um exercito de ctrl c e ctrl v, mas ae leio algo assim. Escrito por uma pessoa com alguns universos que se ligam, entrelaçam, brigam e recomeçam até se alinharem em linhas para conseguir serem lidos. Parabéns mesmo pela criatividade, espero por um livro de contos com todos eles em sequencia, seria algo bom para ler para minha futura criança, se ela vier um dia kkkk

  5. Um conto que criou uma identificação com varias situações que vivemos na vida 🥹
    Muito emocionante 🙏
    Parabéns ao Escritor

  6. Que delícia de conto!
    As vezes a salvação vem quando a gente menos espera de pessoas que jamais pensamos…

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