Árvore indiana

Ainda era fazenda, quando a semente caiu sobre a terra fofa com um tuf! de quem busca cobertor quentinho e quer sonhar no amarelo levemente esverdeado do que há de vir.
E veio sol e bastante chuva para matar a sede da semente que, querendo ver o início da primavera, colocou suas pioneiras folhas para respirar. Continuou crescendo, pois assim que contemplou as colinas ao redor, quis olhar mais longe. Rodopiou, torceu e prosseguiu espichando em um robusto tronco com galhos orgulhosamente fortes, tão altos que até a moça com cabelos de cipó e pele igual sua casca, parava para elogiar:
– É a árvore mais bonita da região das Três Colinas.
Houve um ano em que a fazenda deixou de perdurar. Ruas surgiram trazendo fumaça, barulho e uma correria sem fim. Com suas folhas grandiosas, a árvore se viu cercada por um muro, contemplando o quintal de uma casa com janelas e portas de madeira. Nela vivia uma senhora de cabelos grisalhos e olhos pequenos que se orgulhava de ser a “dona” da árvore.
– Olha, tem jaca! Deve estar boa! Deve estar gostosa! – dizia uma voz do outro lado do muro, seguida de batidas no portão.
Com resmungos audíveis, a senhora perguntava quem era num tom para expulsar visitantes indesejados. Queriam saber se ela lhes daria uma daquelas belíssimas jacas.
– Quando estiverem maduras, deixo vocês colherem – respondia a senhora sem abrir o portão. – Mais alguma coisa?
Do outro lado do muro, as crianças ouviam os resmungos se afastarem, olhavam para a cara uma da outra, numa dúvida de quem contempla o amarelo das frutas e não entende o que houve. Cobiçavam mais um pouco, quase sentido o cheiro da jaca e, engolindo aquela vontade junto com muita saliva, iam para casa depois de um longo dia de aula.
Ao passar da semana, pela manhã e à tarde, as crianças faziam questão de perambular na frente da casa e apreciar a única jaqueira no Jardim Tropical. Quem sabe do mundo? Por isso insistiam e, ao menos uma vez a cada quinze dias, faziam questão de pedir pela fruta.
Muitos nãos se passaram, até que as jacas ganharam uma tonalidade marrom bem escura: tinham passado do ponto.
– Ela é mesmo egoísta, nossa – diziam as crianças atravessando a calçada. – Era só uma jaca…
Tuf!
Um arquejo e silêncio. Sem entender, as crianças aproximaram da casa acompanhadas de um vizinho que, depois de chamar várias vezes e esmurrar o portão, saltou o muro e pediu ajuda: encontrara a senhora morta com uma jaca caída ao lado da cabeça.
A jaqueira, quieta e fingindo que nada sabia, viu quando a alma saiu do corpo finado e tentava subir aos céus. Um galho, como se dançasse com o vento, balançou em um adeus.
Durante as próximas semanas, uma redonda e amarela jaca se fez presente. As crianças adentraram o quintal e se deleitaram.







Ser uma pessoa mesquinha não te faz uma pessoa boa que vai ao céu! Adorável relato
Naquele mesmo ano, durante o outono, os moradores do Jardim Tropical colheram uma jaca enorme, com cerca de 42,5 kg e, foi assim que o bairro francano entrou para o “Livro dos Records” com o título de “A maior e mais pesada jaca colhida em todo o mundo”.
Cada fim de semana uma novidade começando o dia renovado com cada conto maravilhoso
Pelo menos as crianças tiveram um final feliz ☺️.
A cidade entra para o Guinnes e a senhora fica perto da sua amada jaqueira 🏠
Ser mesquinho sobre outro, sempre trará solidão pra si mesmo, nas não ao outro. É um belo e surpreendente conto, como senpre
Ótimo conto, para reflexão!
E adoro jaca kkkk