Opiniões

Aparecido do Supermercado

Quem dera tivesse nascido grande, do tamanho de sua simpatia e disposição para o trabalho diuturno!

Nos seus propósitos, Deus o levou a entender e a experimentar a lida e as lides do campo. Sua infância se encurtou para lhe fazer rapaz, um moço, muito cedo. Crescer era com ele, do seu DNA.

O êxodo da fazenda para a cidade foi inevitável.

Lembro-me da merceariazinha ali da Presidente Vargas. Será que seria uma da esquina com a Afonso Pena? Posso estar esquecido, confuso.

A lucidez que se me vem é da segunda metade dos anos 1970.

Eu era meninote, de voz grossa. Estava nas fraldas da radiofonia. Iniciava a carreira da radialista na Hertz, do amigo e escritor saudoso Garcia Neto. Conciliava serviços de cobrança debaixo de chuva e de sol, em cima de uma monark verde, com a faculdade de Direito à noite e, nas madrugadas, o Aparecido me vinha ajudar a acordar o povão, subindo as escadarias da sobreloja de seu Supermercado São Paulo, com uma garrafa de café quentinho, que tinha acabado de passar no coador de pano, no setor de padaria do estabelecimento.

Não raro, entrava no estúdio e partilhava comigo um pedaço de pão, um biscoito, alguma quitanda, como que imensamente feliz por me ver e ouvir apresentar o ‘Canto da Terra’, do Chanceler do Sertão, ali, do meu lado, confessando que amava quando eu dizia:

– vai um zunzão aí, para essa gente boa!

Ele seguiu sendo o mesmo homem bom e incansável, mal compreendido pelos ociosos e invejado pelos laboriosos. Era um ponto fora da curva. Sua estrada não reconhecia obstáculos. Apenas e, se muito, os conhecia, ignorando-os atrás de cada gôndola em reposição de mercadorias, indo para trás dos balcões para que o freguês não esperasse, correndo para o caixa e atendendo fornecedores e recebendo os seus pedidos.

Mais de uma vez, presenciei o Aparecido subindo em caminhões, a partir da escalada por meio dos pneus grandes destes e se agarrando em suas carrocerias, porque se dava o direito de checar a qualidade do que seria entregue ao seu mercado antes que fosse descarregado. Lá em cima, junto das cargas, sacava um ‘chucho’ das calças surradas, um furador de sacarias, e conferia tudo.

Era achar um pezinho, é já partia para pechinchar o preço do que tinha comprado. Um defeitinho, para o amigo que veio ao mundo um negociante de mãos cheias, virava um descontão. Senão, toda a carga seria devolvida.

A Norma, sua esposa, era sua sombra. Ou seria ou contrário? Sei lá eu. Os dois se fizeram um só corpo, um só espírito. E, daí, uma bela família.

Privilégio, meu Deus, por aquela convivência diária com o Seu Aparecido, nos finais de semana também, porque aos sábados e domingos, nós dois disputávamos quem era mais louco para trabalhar tanto.

Ele, com certeza, era mais gardenal! É o que registro com o coração alegre e jamais triste, sabido que nossa amizade se mantinha pela lealdade e respeito. A propaganda era apenas dos anúncios que ela mantinha nos meus horários de programa, um dos meus patrocinadores. Fora do ar, discrição. Debaixo de sete chaves.

A advocacia me tirou do rádio.

O madrugador gente boa foi ao apogeu do que sabia poder conquistar pelo combustível de seu suor e pelo motor de sua devoção ao trabalho honesto. Media seus passos com os olhos. Construía com o seu engenho de empreendedor. A tudo vigiava, e vigiou, orando em cada canto do Supermercado São Paulo, ao abraçar e ao cumprimentar a todos.

Cala fundo o que compartilhamos por uns três anos ininterruptos. Havíamos plantado as raízes de um sentimento de afeição e de mútua identificação. Ele lá e eu, no escritório. Entre nós, esse vínculo, vez por outra era inoxidado pela visita, a pretexto de alguma comprinha, que fazia no número 162 da Presidente Vargas.

Quando não o via, pedia notícias dele, e pedia mesmo!

Há pouco, de pijamas e me contando de alguns remédios que passou a ter que tomar – claro, contrariado – ali pelas bandas do caixa, apoiado em um andador, Aparecido me atendeu; ou melhor, fez questão de agradecer a preferência pela loja dele.Eu é que agradeço, Cido, gente boaaaa! Não precisa de troco. Ainda fiquei lhe devendo mais gratidão.

Dr. Theo Maia

Advogado Previdenciarista (OAB-SP 16.220); sócio-administrador da Théo Maia Advogados Associados; jornalista; influenciador social; diretor do Portal Notícias de Franca; bacharel em Teologia da Bíblia; servo do Senhor.

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