O “ótimo” encontro de Lula e Vorcaro

Na política, a desvantagem de ser um mentiroso contumaz, é o risco de suas contradições expostas nos momentos mais delicados. “É raro, mas acontece com frequência”.
E foi exatamente o que ocorreu com a reunião entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o banqueiro, e gangster, Daniel Vorcaro.
No dia 5 de fevereiro de 2026, em entrevista ao UOL, Lula afirmou que não houve qualquer posição política em favor do banco. Segundo o presidente, o tema foi tratado exclusivamente de forma técnica pelo Banco Central do Brasil. Em tese, portanto, o encontro teria sido apenas institucional — sem consequências práticas para o banqueiro.
O problema é que versão do banqueiro conta outra história.
O encontro comemorado por Vorcaro
Mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram que Vorcaro descreveu a reunião ocorrida em dezembro de 2024 como “ótima”. Em conversa de WhatsApp com sua namorada, ele afirma que Lula teria chamado para a reunião o então futuro presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, que tomaria posse semanas depois.
E é aí que surge a pergunta inevitável: como pode ter sido “ótima” uma reunião que, segundo o próprio presidente da República, não teria ajudado em nada?
Essa dúvida ganha peso quando se observa o contexto mais amplo da relação do banco com figuras influentes da política brasileira e, o mais importante, ligadas ao Lula.
As conexões políticas ao redor do Banco Master
O Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda de Lula, foi contratado pelo Banco Master por cerca de um milhão de reais por mês. Segundo reportagens, a contratação teria sido sugerida pelo senador Jaques Wagner, líder do governo no Senado.
Outro nome que aparece na rede de relações é o do ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski. O escritório do jurista recebeu cerca de R$ 5 milhões do banco por serviços de consultoria jurídica, contrato que teria sido mantido mesmo após sua ida para o governo.
Há ainda o caso do programa Credcesta na Bahia, implementado durante gestões do petista, e atual ministro da Casa Civil, Rui Costa. O modelo permitia que servidores públicos contraíssem dívidas com taxas próximas de 6% ao mês junto ao Banco Master, e um decreto estadual chegou a impedir a portabilidade dessas dívidas para bancos com juros menores.
Nenhum desses fatos, isoladamente, prova favorecimento direto do presidente. Mas juntos formam um cenário que torna inevitável uma pergunta pública: qual foi, afinal, o conteúdo real daquela reunião de dezembro de 2024?
O silêncio político em torno do caso
O que mais chama atenção em todo esse episódio não é apenas a reunião em si, mas o silêncio que parece cercá-la. Seria natural imaginar que adversários políticos explorassem o caso com intensidade, cobrando explicações públicas do presidente. No entanto, até agora, o debate permanece surpreendentemente tímido.
Parte disso talvez se explique pelas próprias ambiguidades do cenário político. A própria direita bolsonarista pode ter dificuldades em denunciar o escândalo sem enfrentar seus próprios constrangimentos. O senador Flávio Bolsonaro, por exemplo, frequenta a mesma igreja – a famigerada Igreja Lagoinha – do pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, que foi preso pela Polícia Federal e que realizou doações eleitorais milionárias para campanhas ligadas a Jair Bolsonaro e ao governador paulista Tarcísio de Freitas em 2022. Nesse contexto, não deixa de ser curioso que uma das poucas vozes a levantar o tema de forma sistemática é a do pré-candidato pelo Partido Missão, Renan Santos, que tem denunciado as conexões políticas em torno do Banco Master, seja elas prejudiciais ao Lula, ou ao núcleo bolsonarista.








