Opiniões

Trump ignorou o protocolo. No Brasil, precisamos fazer o mesmo

Há cenas que funcionam como espelhos incômodos. A captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos — condenada de imediato pela ONU como violação do direito internacional — produziu uma reação previsível: editoriais alarmados, especialistas invocados às pressas, o velho catecismo do “procedimento correto”, da “mediação multilateral”, do “respeito às instâncias internacionais”. Tudo muito civilizado. Tudo muito conhecido.

O curioso é que as mesmas vozes que hoje se escandalizam com a ausência de carimbos diplomáticos são as que, aqui dentro, se opõem sistematicamente a qualquer ação mais incisiva do Estado contra o crime organizado. Nas favelas brasileiras, dizem, é preciso “mais inteligência”, “mais políticas sociais”, “mais diálogo”, “mais direitos humanos”. Sempre mais tempo. Sempre menos ação. O resultado também é conhecido

A lógica da paralisia

Essa coincidência não é casual. Ela revela uma lógica: a de que o problema nunca é grave o suficiente para justificar decisões duras no presente — apenas longos debates que empurram tudo para o futuro. Um futuro que nunca chega.

Enquanto isso, a história oferece exemplos concretos do custo dessa paralisia. Cuba, após décadas de indulgência retórica internacional, enfrenta hoje níveis alarmantes de pobreza extrema: 89% das famílias vivem nessa condição, segundo relatório de 2025 do Observatorio Cubano de Derechos Humanos. A Venezuela, empurrada por anos de relativização diplomática, soma mais de 20 milhões de pessoas em pobreza multidimensional, conforme dados da plataforma HumVenezuela. A retórica humanitária não impediu a tragédia; apenas a acompanhou com discursos bem-intencionados.

Quando a força entra em cena

Foi preciso força — e não consensos — para interromper o ciclo venezuelano. Pode-se discutir os meios, os riscos e as consequências, mas é intelectualmente desonesto fingir que nada aconteceu. O regime caiu não porque convenceu organismos internacionais, mas porque alguém decidiu agir sem pedir permissão ao coral dos prudentes.

O contraste com El Salvador é ainda mais desconfortável para certos analistas. Ao adotar medidas extremas de enfrentamento ao crime, o país deixou de figurar entre os mais violentos do mundo. O método é controverso, sim. Mas o resultado é mensurável. E resultados, ao contrário de narrativas, têm o hábito de se impor.

O Brasil refém do debate eterno

No Brasil, seguimos presos à mesma armadilha conceitual. O Estado negocia com facções que controlam territórios, impõem leis próprias, cobram “tributos” e determinam quem vive ou morre. A cada operação policial mais firme, surge o coro dos que pedem cautela infinita, como se o problema fosse o excesso de Estado — e não a sua ausência crônica em áreas dominadas por organizações criminosas altamente armadas e financeiramente estruturadas.

Não se trata de desprezar direitos fundamentais nem de glorificar a violência. Trata-se de reconhecer que soberania, interna ou externa, não se exerce apenas com pareceres técnicos e seminários acadêmicos. Há momentos em que o Estado precisa recuperar território, impor autoridade e desmontar estruturas criminosas de forma inequívoca. Quando isso não ocorre, alguém ocupa o espaço — e esse alguém não costuma pedir autorização ao STF, à ONU ou a comissões de especialistas.

A indulgência que custa caro

A indulgência intelectual com regimes autoritários lá fora e com o crime organizado aqui dentro nasce do mesmo impulso: a crença de que o discurso substitui a decisão. Não substitui. Nunca substituiu.

Talvez a questão central não seja se a força é desconfortável. Ela sempre será. A pergunta honesta é outra: confortável para quem é a inação? Enquanto debatemos procedimentos ideais, há quem lucre, quem ganhe poder e quem construa carreiras inteiras defendendo que nada mude. O crime agradece. E a sociedade paga a conta — no celular roubado, na rua evitada, na liberdade perdida aos poucos. Ignorar isso não é neutralidade. É escolha. E escolhas, cedo ou tarde, cobram seu preço.

Dr. João Pedro Cardoso

Advogado especialista em direito de família e fraudes bancárias (OAB - SP 498.908); coordenador do Núcleo Municipal do MBL (Movimento Brasil Livre) em Franca (SP).

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