ONGs, “esquerda” e o manual da derrota: quando a luta de classes vira ato cívico

Os recentes “coxinhatos”, atos cuidadosamente higienizados e convocados em defesa do Judiciário golpista, como o ocorrido no último domingo em diversas capitais e também em nosso puxadinho provinciano chamado Franca, convocados por ONGs, pela Rede Globo e por um elenco de artistas já plenamente carcomidos, revelam muito mais do que manifestações supostamente difusas e espontâneas.
O que se vê, de fato, é Lula empenhado em adestrar a coxinhada para que, no momento oportuno, ela cumpra o papel de massa de manobra em uma revolução colorida a serviço do imperialismo, caso os interesses do capital exijam a derrubada do próprio governo. Em Franca, o espetáculo foi completado pela papagaiada constrangedora da chamada “Juventude pelo Clima”, uma caricatura juvenil extraída diretamente do manual liberal de mobilização controlada. O golpe não se anuncia; ele se ensaia. E cai quem quer. Nada é mais nocivo do que o inimigo declarado. Exceto, o falso amigo.
O que se vê é a receita da derrota: nenhuma bandeira vermelha, palavras de ordem confusas e um ambiente deliberadamente despolitizante. A ausência de um programa político claro, arrancado das trincheiras da classe trabalhadora, mesmo em um ato levado adiante por um punhadinho de gente, não é detalhe menor. Ao contrário, pode escalar e se converter em algo profundamente nocivo. Quem avisa, amigo é. Ainda que, para alguns, o aviso soe como heresia.
Mesmo quando o exemplo internacional parece útil, ele é quase dispensável. Não é preciso qualquer giro político externo para compreender o papel corrosivo das ONGs e da chamada “burguesia progressista” sobre a luta da classe trabalhadora. A experiência nacional é mais do que suficiente: 2013 mostrou o sequestro da mobilização; 2016, sua maturação golpista contra Dilma. O roteiro é conhecido, os atores são os mesmos e o desfecho, quando ignorado, insiste em se repetir.
O roteiro é antigo, os operadores são conhecidos — e os efeitos, devastadores para a classe trabalhadora.
As jornadas de junho de 2013 permanecem como o exemplo mais acabado de como um movimento legítimo pode ser sequestrado quando abdica de programa, identidade política e independência de classe. O que começou como uma luta concreta contra o aumento das tarifas foi rapidamente convertido, sob aplausos da grande imprensa, em um caldo difuso de indignação genérica, antipolítica e cuidadosamente despolitizada. O slogan “não é só por R$ 0,20” condensou essa virada: quanto mais vaga a pauta, mais confortável para a burguesia.
Folha de S. Paulo, O Globo e Estado de S. Paulo operaram essa metamorfose com precisão cirúrgica. Em poucos dias, os “vândalos” espancados pela polícia de Alckmin tornaram-se “manifestantes pacíficos”; as bandeiras vermelhas desapareceram, substituídas pelo verde e amarelo; e a denúncia da repressão policial cedeu lugar a ataques abstratos “à corrupção”, “aos políticos” e aos partidos. A expulsão da esquerda organizada das ruas foi celebrada como virtude cívica, legitimada por editoriais entusiasmados, pesquisas convenientes e uma pedagogia liberal incessante.
Nada disso ocorreu por acaso. O terreno foi preparado por uma esquerda que confundiu horizontalidade com desorganização, espontaneísmo com radicalidade e neutralidade política com democracia. Ao aceitar atos sem direção, sem carro de som, sem palavras de ordem e sem símbolos de classe, abriu-se a porteira para a infiltração da direita, da polícia à paisana e da pequena-burguesia moldada pelo moralismo midiático. Onde não há comando, manda quem tem poder.
A mudança do centro da cidade para o Largo da Batata simbolizou essa inflexão. Não foi um detalhe logístico, mas uma decisão política: abandonar o espaço de confronto popular para atrair uma composição social mais dócil, compatível com o discurso do “sem partido”, “sem bandeira” e “sem conflito”. O resultado foi o ato cívico, higienizado, aplaudido dos escritórios da Faria Lima, celebrado pelos jornais e absolutamente inofensivo aos verdadeiros centros de poder.
A polícia completou a engrenagem. Depois da repressão brutal do dia 13, veio a encenação da conciliação. A PM recuou, observou à distância e deixou que os próprios organizadores controlassem o movimento, filmando e denunciando “excessos”. O acordo estava selado: a ordem seria mantida de dentro para fora. Em troca, uma concessão mínima, os centavos da tarifa, e o essencial preservado: o controle político do processo e a desmoralização da esquerda como sujeito dirigente.
Não por acaso, a revogação do aumento só veio quando a mobilização voltou ao centro, recuperou algum grau de combatividade e colocou o poder sob ameaça real. A lição foi inequívoca: quando o povo pressiona, algo cede; quando marcha domesticado, serve apenas de figurante no teatro da ordem.
Ainda assim, setores da esquerda pequeno-burguesa preferiram adaptar-se à maré. Alguns adotaram as cores, as pautas e o vocabulário da direita; outros recusaram a unidade no momento decisivo, preservando ilusões moralistas e disputas sectárias. Esse comportamento ajudou a pavimentar, passo a passo, o caminho do golpismo que se consolidaria nos anos seguintes.
Junho de 2013 não foi um acidente, mas um ensaio geral. A burguesia testou métodos, a imprensa afinou o discurso, a polícia calibrava a repressão seletiva e parte da esquerda revelou sua incapacidade , ou falta de disposição, de dirigir um movimento de massas. Movimentos sem bandeiras, sem programa e sem identidade de classe nunca são neutros. Quando as bandeiras vermelhas são abaixadas em nome da “civilidade”, o que se ergue no lugar não é o povo, mas a mão invisível do inimigo.








