Opiniões

O ano 2050

O relatório do IPCC – Painel Intergovernamental de mudanças climáticas, publicado em 09 de agosto de 2021, alerta que é preciso que todos os países atuem para zerar as emissões de carbono até o ano 2050. “Se não conseguirmos reduzir rapidamente as emissões, seremos forçados a confiar em tecnologias que ainda não existem de forma significativa”, conclui o documento.
A China, o país que mais lança carbono na atmosfera no mundo, garante conseguir isso até o ano 2060, mas que ainda irá atingir o pico de emissão em 2030! Os EUA, sob Biden, se comprometem a reduzir em 50% as suas emissões até o ano 2030. O efeito estufa já causa a mudança do clima em todos os recantos da Terra, provocando inundações e secas em várias latitudes, e o degelo nos polos.
Assim, os efeitos das mudanças trazem consequências diversas para cada região. Por isso, há quem esteja festejando essas consequências, pela mesma lógica daqueles que as estão provocando: o interesse econômico. Consta que na Rússia, o presidente Vladimir Putin está felicíssimo com a afloração das tundras provocada pelo degelo do Ártico. Com isso poderá aumentar consideravelmente a produção de soja naquele bioma, até então considerado inútil para os interesses humanos.

O Brasil, por outro lado, corre o risco de ter o território em que se desenvolve o agronegócio, a sua principal atividade econômica, em um imenso deserto. Há sério risco para as Regiões Centro Oeste, Sudeste e Sul, que já tiveram o seu regime de chuva alterado em razão do desmatamento e do efeito estufa. Até o Brasil que é considerado o campeão de água doce do mundo!
Dizem que o filósofo Mangabeira Unger, Ministro Chefe de Assuntos Estratégicos da Presidência da República no governo Lula, ficou muito impressionado com a quantidade de água da região Amazônica e propôs a transposição dela para irrigar o Nordeste, sempre castigado pelas secas. Dizem que ao ser questionado sobre como seria a transposição, consideradas a distância e a imensa floresta nativa, andou cogitando usar a madeira existente em abundancia por lá como combustível para esse fim. Então foi demitido do governo. Temos mesmo as maiores florestas tropicais e os rios mais caudalosos do mundo? Se não houver mudanças drásticas em curto espaço de tempo, logo estaremos dizendo tínhamos! O rio Paraná, um dos maiores em volume de águas da América do Sul, já não permite navegação segura na época da seca. A Usina de Itaipu, campeã mundial de geração de energia elétrica, com a diminuição drástica da vazão do rio Paraná, vai manter esse título até quando? O rio Paraguai, o principal curso d’água do Pantanal, vem enfrentando secas cada vez mais severas. O rio Miranda, no Mato Grosso do Sul, que também atravessa o Pantanal? Rio piscoso, tempos atrás, hoje está morrendo assoreado, desprovido de mata ciliar. E o rio Iguaçu, antes um mundo de água doce despencando em suas cachoeiras, cuja imagem serviu para propagandas de chuveiros elétricos nos anos 1980, não passam de fios d’água no período de seca. É interessante notar que o município de Curitiba, onde nasce o rio Iguaçu e mais quatro outros, está fazendo rodízio de água desde o início de agosto deste ano. E não é só isso: a vegetação do Pantanal que ardeu por quase seis meses no ano passado está ardendo de novo. A Floresta Amazônica, parece que tem fogo o tempo inteiro o ano todo. Nas demais florestas do país também não é diferente. Vão minguando a olhos vistos.

Não se pode afirmar com certeza, mas parece que em 2050 a catástrofe climática já não poderá ser revertida. Não porque os cientistas do IPCC estejam errados. É que não parece possível a mudança de comportamento em tempo. Por outro lado, não é rápida a conversão de desertos em área de cultivo, como ocorreu em algumas partes de Israel, de áreas cobertas de água em ilhas, como ocorre em Dubai e em outras partes do mundo. Até porque, nestes casos, essas construções foram feitas em tempo em que nas outras partes do planeta existia certa normalidade. Mas com o desastre climático atingindo todo o planeta, será que repetimos essas façanhas? Dá para crer em tecnologias a serem criadas para suprir o equilíbrio do clima? Se tomarmos o Brasil e o seu governo atual como parâmetros, parece pouco crível!

Dr. José Borges

Advogado (Formado em Direito pela Faculdade de Direito de Franca); especialista em Direito Civil e Direito Processual Civil e em Direito Ambiental. Foi Procurador do Estado de São Paulo de 1989 a 2016 e Secretário de Negócios Jurídicos do Município de Franca. É membro da Academia Francana de Letras.

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